A febre com o ski e com as idas para a neve em Espanha ocuparam a mente de muitos dos meus amigos e colegas de trabalho no início da década. Da minha parte a curiosidade era pequena, já que o máximo de desporto radical que pratico é ir a um hipermercado no fim-de-semana. Para eles, a adrenalina de esquiar (ou de fazer snowboard) compensava o investimento de tempo e dinheiro, e os riscos associados de descer uma montanha cheia de neve apenas com uma pequenas traves de madeira nos pés. Mas é como dizem “viver é arriscado”. Que o diga o Schumacher.

(demasiado cedo?)

When Ski Lifts Go Wrong leva-nos para o ambiente das estâncias de ski, onde temos de construir os sistemas de teleféricos para levar os nossos corajosos visitantes de um ponto ao outro em segurança. Pelo caminho vamos errar muito, vamos matar muitos deles e vamos pintar a neve com salpicos de sangue. Em suma, o videojogo perfeito para engenheiros civis e arquitectos sociopatas.

Este não é o primeiro título do género a chegar-nos às mãos, jogos em que construímos estruturas a partir de nódulos e onde temos de ter em consideração muitas noções de Física e Estática para que as nossas construções não desabem com o primeiro movimento. World of Goo, que considero o pai do género, foi mesmo o primeiro (dito) indie que joguei, ainda na Wii, e foi quem me abriu o apetite para este tipo de jogos de puzzle tão únicos. Pelo meio já passei por outros títulos semelhantes, como Poly Bridge e Bridge Constructor, e a sua sequela de crossover com Portal.

Este puzzle/construction game dos Hugecalf Studios é bem mais difícil do que parece à primeira vista, dadas as aparentes limitações conceptuais dos puzzles. Passar cada nível é relativamente simples já que o jogo nos permite “estourar” o orçamento previsto, mas conseguir receber as medalhas todas já é uma tarefa mais difícil. A primeira, justamente ligada a quanto gastamos, pede-nos que consigamos construir estruturas abaixo do orçamento apresentado. Coisa que provavelmente 95% dos empreiteiros em Portugal falhariam automaticamente. A segunda medalha pela nossa capacidade de controlar a tensão estrutural da nossa construção e de a conseguirmos manter intacta à passagem dos esquiadores e a última por conseguirmos que os nossos visitantes apanhem a medalha que paira no nível no seu trajecto pelo teleférico.

Um dos momentos mais desinteressantes do jogo, mas que à partida soava como uma boa ideia é a mudança de paradigma em alguns dos 104 níveis. Nestes não nos resta apenas construir: temos também de controlar os esquiadores e fazermos os saltos a partir das rampas que idealizámos. Este momento poderia ser interessante numa abordagem mais arcade, mas visto que a Física de boneca-de-trapos das estruturas se aplica aos esquiadores, controlá-los é mais aborrecido do que gostaria. Prefiro os restantes níveis onde os esquiadores sobem para o teleférico como lemmings, incautos da possibilidades de encontrarem a sua morte pela minha incapacidade em satisfazer as regras da Estática.

When Ski Lifts Go Wrong, lançado originalmente em Early Access com o título Carried Away, chegou à Switch e ao PC, ainda que jogá-lo com rato e teclado seja a solução perfeita, dada a necessidade de micro-afinação dos componentes das nossas estruturas.

Um puzzle/construction game interessante e desafiante, mas que por alguma razão (talvez conceptual?) me manteve menos ligado do que outros jogos que aqui mencionei. Aconselhável pela sua longevidade e por ser enganadoramente difícil e cruel, a menos que esses dois argumentos seja exactamente o que procuram num puzzle game. Se somarem a isso o prazer de ver os esquiadores a morrerem na never, aconselhamo-vos a procurar um psicólogo. Temos aqui três na equipa, se precisarem.