Do tabuleiro para o ecrã – parte I

Admito desde já que tenho uma tremenda dúvida de como segmentar este artigo sobre Mystic Vale e o próximo sobre o jogo Evolution. E porquê? Porque são dois jogos de tabuleiro que eu já tive contacto presencial (apesar de nunca ter chegado a jogar) mas que conhecia a fundo antes de experimentar as suas versões digitais. Portanto na prática estes artigos estão nos pontos médios entre uma análise dos jogos de tabuleiro e das suas versões em videojogo, já que as mecânicas e o visual permanecem de um para o outro. Um pouco à semelhança do que aconteceu com o nosso artigo sobre Scythe e o stream de Splendor. Este e o próximo artigo são análises mecânicas aos jogos de tabuleiro apesar de apenas os termos jogado em digital.

Quando me venderam a ideia de Mystic Vale não tiveram de investir muito em fazê-lo nem gastar demasiado Latim. Mystic Vale pertence a um dos meus géneros favoritos de jogos de tabuleiro: os deck builders, onde todos os jogadores partem de um mesmo lote de cartas para irem construindo o seu baralho pessoal durante o jogo. A gestão das cartas que adquirimos e como compomos o nosso baralho (e as nossas mãos subsequentes) são o grande desafio deste tipo de jogos que teve no viciante Dominion de Donald X. Vaccarino a sua génese.

Mas Mystic Vale tem um sabor adicional. Para além de compormos o nosso baralho durante cada partida temos também de compor as nossas próprias cartas.

Cada conjunto de cartas base para cada jogador traz consigo as respectivas sleeves. À primeira vista percebe-se como é que o processo de construção das cartas funciona: cada carta individual é impressa em acetato e dividida em três zonas. Cada carta é finalizada quando contém as três zonas ocupadas, somando-se os recursos que cada uma das partes contém.

Neste processo de construção de cartas e no acto de biscar em cada turno existe uma certa dose de risco e recompensa. A temática de Mystic Vale fala de uma vale amaldiçoado que tem de ser sanado pelos jogadores, os druidas das lendas celtas que guardam a região. Todos os recursos e símbolos de Mystic Vale remontam para conceitos druídicos, mas é o símbolo vermelho de colheita estragada um dos mais importantes, já que só podemos accionar o nosso turno se tivermos até um máximo de 3 símbolos vermelhos revelados. Quando revelamos o terceiro símbolo paramos automaticamente de biscar cartas do nosso baralho sob risco de revelarmos um quarto, obrigando-nos a terminar abruptamente a nossa vez, impedindo-nos de agir, mas conferindo-nos 1 ponto de mana (a moeda de jogo que nos permite comprar cartas) para o próximo turno. Mas ao revelarmos apenas 3 símbolos de colheita arruinada podemos jogar com a sorte e empurrar a nossa mão, revelando uma nova carta do baralho na esperança de ele não incluir um símbolo vermelho.

O grande objectivo do jogo é encontrar o jogador com mais pontos de vitória de uma reserva fica pelo número de jogadores. Para além das cartas construídas em acetato com bónus crescentes às nossas cartas, existem também as cartas do Vale “inteiras” que não podem ser customizáveis, que não entram na nossa mão mas ficam passivamente a dar-nos bonificações ou pontos de vitória.

A sequência de jogo passa por ir construindo cartas que possuam os recursos para além da mana e que nos permita ir comprar cartas de Vale que são as nossas grandes fontes de Pontos de Vitória. No turno em que o último jogador vá buscar à reserva os últimos Pontos destes o turno acaba.

Mystic Vale conquistou milhares de jogadores pelo mundo todo com o seu game design de termos um deck builder levado ao extremo, em que não nos limitamos a ir construindo progressivamente o nosso baralho, mas também as próprias cartas que a compõem. Mecanicamente simples mas com grande complexidade estratégica, esta ideia altamente inovadora conseguiu ser brilhantemente adaptada a videojogo pela mão do estúdio Nomad Games, responsável pelas versões digitais de Talisman.

Apesar de termos poucos jogadores online, o desafio de jogar contra a IA tem sido interessante o suficiente para criar uma forma de single player em Mystic Vale que a versão de tabuleiro não permite. Depois de algumas noites a jogar Mystic Vale no PC, a elegância mecânica deste deck builder único criou-me uma tremenda vontade de comprar um jogo físico. Mérito, que muitas versões digitais falham em conseguir atingir.