Provavelmente as palavras mais acertadas do script que ditava o desempenho dos apresentadores foram mesmo aquelas que abriram a cerimónia da primeira edição dos Prémios Esports Portugal. Há um grande caminho trilhado no nosso país entre o que foi um crescimento local e regional, com lan parties que se foram multiplicando, dando lugar a concentrações mais substanciais de jogadores com eventos como a XL Party desembocando nos três grandes eventos do ano passado: XL Esports, Lisboa Games Week e Blast Pro Series. Entre o amadorismo dos intervenientes e interlocutores e o inadvertido sobranceirismo das marcas e da própria sociedade e o crescente profissionalismo e a atenção encorpada do tecido empresarial contemporâneo vai muito sangue, suor e lágrimas, desilusões, promessas, sacrifícios, sonhos e paixões. E a diferença que vai entre um ponto de partida e um ponto de chegada é, de forma óbvia, o mínimo denominador comum e grande definidor do interesse e das comunicações: o dinheiro.

Que o mercado de esports* a nível global gera muito dinheiro é um lugar-comum do qual pouco interesse há em falar. Que o mercado tem uma margem de crescimento virtualmente impossível de definir na sua extensão total já é uma justificação para que cada vez mais gente de diversas escalas económicas decida abeirar-se de algo que durante demasiado tempo pouco mais foi que uma trivialidade pueril para a mais comum das pessoas.

Qual é afinal o lugar dos Prémios Esports?

No caso português o mercado está longe de ser milionário, com previsões de crescimento sem grandes ilusões dada a nossa escala e impacto global. Mas é um mercado preenchido. Clubes com força nacional e a fazer um esforço para singrar fora de portas, com anos de experiência, formação e evolução. Ligas e campeonatos, alguns concorrentes entre si, organizados por agentes presentes no mercado há alguns anos e sem grande espaço estratégico para novas abordagens. Eventos com uma dimensão considerável, levados a cabo por estruturas que têm crescido com os próprios esports e que a estes têm permitido também crescer. Os media especializados não são lucrativos nem auto-suficientes, e dificilmente o irão ser sem o sempre afável apoio estatal. O espaço de negócio sem colidir com o que e quem já existe é quase impossível.

Vejamos o caso da Bitzer, uma ideia vinda de uma agência de comunicação como muitas a actuar no nosso território, que tentou simultaneamente tomar de assalto os esports em diversas frentes, a das equipas, dos campeonatos e dos agenciamentos, e embateu de frente com um tecido mantido estável pelo equilíbrio de forças dos muitos agentes que por cá já andavam há diversos anos.

Ver surgir os Prémios Esports Portugal deixou-me de imediato uma série de dúvidas, legítimas, diria, mesmo para um Observador externo de um mercado do qual nunca tive proximidade. Um tecido competitivo com o qual contacto pela sorte de ter na minha redacção uma série de pessoas que ao longo dos últimos anos fizeram parte de capítulos da História dos esports em Portugal. Mas continuava sem perceber de onde surgiam, e qual a sua base. Mas percebia que ao contrário da Bitzer, este Grupo Braver apostava num caminho político inteligente, bem encontrado e definido. Mas já lá iremos ao porquê.

Há diversas formas de criar a celebração de uma determinada área. A mais óbvia e frequente é o reconhecimento pelos próprios pares, que num espírito de união e auto-reflexão do seu métier definem as entidades que se notabilizam em determinado período de tempo. Outra forma, orgânica, sugere o reconhecimento do público num movimento raro de exaltação de determinado agente. Ou até os reconhecimentos institucionais, maioritariamente estatais ou associativos que determinam a premiação de acordo com alguma efeméride específica.

O que a Braver fez foi diferente. Foi inteligentemente encontrar o espaço pragmático onde definir potencialidades de negócio num tecido de difícil penetração. E fê-lo com uma inteligência e capacidades de engenho político de grande coesão.

Ter a prova-viva (ou morta, no caso da Bitzer) do que uma estrutura externa ao meio consegue ou não produzir na realidade dos esports em Portugal foi indubitavelmente uma mais-valia. Ter na Bitzer um canário que percorre os túneis labirínticos de uma mina de carvão foi o melhor preâmbulo que a Braver poderia ter. Criar ou comprar uma equipa para uma das modalidades mais rentáveis poderia ser um investimento de retorno incerto, encher o peito e criar mais um campeonato poderia ser seppuku precoce, e aventurar-se na organização de eventos seria entrar num terreno onde enfrentar os que por lá se movem carecia de um investimento que poderia não ser razoável. A forma mais acessível, de potencialmente maior retorno financeiro e comunicacional (a curto e médio prazo) e que causaria um mínimo de intrusão com as muitas forças em tensão nos esports seria pela ausência visível: uma cerimónia de premiação de um sector em franco crescimento.

A minha dúvida sobre a putativa legitimidade dos auto-proclamados Prémios Esports Portugal respondia-se a si mesma pelo pragmatismo da ocupação de um espaço não-ocupado, concretizado nos bastidores com alguma mestria e sagacidade políticas.

Congregação a bem da nação

Analisar de fora o enquadramento do aparecimento destes Prémios têm uma curiosidade interessante pela forma como o processo visível decorre até se materializar no sucesso da gala de sábado à noite.

Aprendendo com os erros da sua congénere que também ela se aventurou por caminhos desconhecidos, a óbvia visão congregadora da Braver é uma grande percentagem do seu sucesso. Sem clivagens, a sagacidade estratégico-política de perceber que a única forma de conseguirem introduzir-se num espaço que lhes era estrangeiro passava por trazer para si todos os agentes do mercado. Aliados, adversários, agentes neutros entre si, inimigos juramentados, estruturas de grande a pequena escala, uma arca onde todos entram, de braços abertos. Todos em união num objectivo comum: a celebração do mercado do qual fazem parte, e, em extremo, de si mesmos. Com o conhecimento de como jogar a política da melhor forma, em que se reduz a resistência a um projecto deste género se não se optar por lados das muitas barricadas, e ao mesmo tempo apelar a um dos mais adocicados princípios para amenizar qualquer fúria: a celebração do ego e a criação artificial de um desejado reconhecimento dos pares.

Um exemplo disso foi a nossa própria nomeação para o prémio de media do ano, reconhecimento que com alguma surpresa recebemos mas que sentimos não ser meritório quando comparado com meios portugueses especializados que dedicam o seu tempo exclusivamente ao mercado de esports português. É verdade que escrevemos “à Rubber Chicken” meia-dúzia de vezes sobre o mercado de esports no ano de 2018, com análises ao tecido competitivo, especialmente a nível global, mas nos antípodas da cobertura semanal ou diária de outros meios exclusivamente dedicados aos esports.

Mas esta congregação e a delicada carícia no ego não deixam de criar algumas dúvidas subjacentes em torno do processo. Convidar todos os agentes do tecido dos esports para um painel de júri (do qual o nosso Ricardo Mota, com muito orgulho, fez parte) responde à inteligente jogada política de apaziguar possíveis resistências e facilitar a assimilação do evento, mas cria dúvidas em torno do conflito de interesses, que processo algum consegue eliminar. A criação de um júri que escolhe de entre um rol de nomeações quais os possíveis vencedores de um prémio, sendo que os próprios membros do júri são na sua totalidade elegíveis para qualquer uma das categorias levanta dúvidas sobre a validade da própria premiação. E nem precisamos de adicionar mais variáveis a este assumido conflito de interesses como os de apresentadores que são simultaneamente júri, nomeados e vencedores para colocarmos grandes questões. Por outro lado, a solução encontrada é a melhor das possíveis, visto que cumpre um propósito duplo: o de silenciar subtilmente possíveis azedumes ao nascimento dos próprios Prémios, e por outro o de servir de auto-controlo ao entrincheiramento tribal endémico ao mercado. O facto do júri ter a impossibilidade de votar em si mesmo e a existência de “facções” opostas serve como pesos e contrapesos ao próprio sistema de nomeações que se regula a si mesmo.

Resta-nos saber se depois da validação necessária numa primeira edição, se a composição do painel de júri da segunda seguirá a mesma temática, extinta que está a necessidade de agradar a totalidade do mercado dos esports. A legitimação do próprio evento numa primeira edição permite aos seus organizadores aplicarem a sua visão política e as suas necessidades numa segunda edição. Para isso basta-lhe fechar o círculo do painel de júri, incorporando visões mais favoráveis e/ou representantes de marcas com objectivo interesse negocial.

Como todos os prémios não-pecuniários, estes, como quaisquer outros, servem para a utilidade que os seus criadores e receptores os definam, seja uma maior base de poder negocial com marcas, expansão de imagem própria ou definições de estratégias internas políticas dos próprios esports portugueses. O valor destes Prémios é, obviamente, extrínseco, mas é um tremendo cavalo de batalha para a Braver.

A qualidade da cerimónia, e Pítia, reencarnada

O pessimista habitual em mim obrigou-me a manter as expectativas baixas em relação ao que iria ver no meu conhecido S. Jorge. A exterioridade da Braver ao mercado e o seu métier habitual trazia-me, porém, a quase certeza que o fundamento primordial e endémico do próprio evento seria cumprido. Não era o paraquedismo apriorístico da Braver que estava aqui em jogo, era a sua capacidade de criar algo a partir do nada e vender a imagem necessário para não só legitimar os Prémios mas para torná-los uma ferramenta negocial doravante.

A produção quase irrepreensível do evento enquadrava-se então com as capacidades de uma agência de comunicação como a Braver, e do retorno expectável dos seus apoiantes e parceiros institucionais e comerciais.

Um evento destes não resolve, nem nunca resolverá as eterna diferenças entre os agentes dos esports, nem a tal se propõe a fazer. É antes uma espécie de armistício efémero, a afamada christmas truce aplicada aos desportos electrónicos portugueses. Uma auto-celebração criada de fora para dentro, uma instrumentalização inteligente do mercado para a perfuração de um troço inocupado.

A legitimidade dos Prémios Esports Portugal é assim uma profecia auto-concretizada em si mesma. Uma conquista legítima pelo simples facto de ter existido, que no final da cerimónia de sábado passou a estar vincada e dissipou por si mesma as dúvidas sobre uma segunda edição. Porque uma segunda edição está automaticamente legitimada pela ocorrência da primeira, e a primeira pelo mero acto sartriano de ter ocorrido. E é nesta inteligência política da Braver que olho, de fora para dentro, com um sorriso de reconhecimento estratégico. Neste mundo videolúdico nem sempre quem sabe jogar melhor o jogo é quem habitualmente o joga.

* Nota: pela primeira vez cedi à grafia esports em detrimento de eSports como sempre escrevi. Ainda que considere a segunda a mais correcta, a primeira é a que vem definida num dos recentes updates do manual de estilos da Associated Press, e como tal, será a adoptada por nós.