Há coisas que são verdadeiras macacadas. Como a coincidência de receber a cópia de análise de Ape Out no preciso dia em que revi o episódio de The Big Bang Theory onde descobrem o filme low budget onde Penny entrou quando se mudou para LA. Serial Ape-Ist, o filme ficcional, tem o título perfeito para este novo jogo da Devolver Digital. Ou, falando em títulos, é uma pena que Ape Escape já estivesse usada, porque assentava que nem uma luva de mãos de gorila neste jogo.

Antes de entrarmos em pormenores do que dá uma identidade única a este jogo do developer Gabe Cuzzillo, conseguimos rapidamente perceber o porquê do investimento da Devolver neste título. Hotline Miami é um dos maiores sucessos indie de sempre e ajudou a catapultar a Devolver para um patamar financeiro e de reconhecimento onde está nos dias de hoje. Se nos é fácil identificar “jogos à Devolver” especialmente ali perto do lançamento de Hotline Miami 2 onde a editora parecia apostar de forma intensa em top-down shooters, essa linha foi-se esbatendo ao longo do tempo, com o catálogo a ficar mais diversificado. Ape Out, pela violência e abordagem conceptual e estética acaba por encaixar-se nesse segmento de títulos quase naturais da Devolver.

O conceito de Ape Out (ainda luto incessantemente para não lhe chamar Ape Escape) é muito simples: somos um gorila que escapa de uma jaula e que tem de conseguir escapar dos níveis proceduralmente gerados, pejados de humanos armados que nos querem matar.

Para evitarmos ser apenas mais um tapete felpudo no escritório de um magnata qualquer, temos de ir abrindo caminho com violência contra os guardas com os quais nos cruzamos, que vão desde tipos magros armados e que conseguimos matar com um suave “chega para lá” símio, até guardas com coletes de dinamite que explodem ao impacto (gostava de saber que empresa de segurança de prédios é que tem nas suas fileiras guardas armados com coletes de explosivo, mas pelo bem da suspensão da descrença aceitemos este facto).

À medida que percorremos os níveis labirínticos temos de fazer uso das nossas patas dianteiras e da nossa força primata para ir pintando o chão e as paredes com manchas de sangue vermelho vivo dos guardas esborrachados contra as paredes. Para isso temos duas hipóteses: utilizar o botão esquerdo do rato que provoca um valente empurrão aos inimigos e que os mata se chocarem contra a parede, ou o botão direito com qual podemos agarrar alguns objectos que encontramos no chão, ou até os nossos próprios inimigos. Esta segunda possibilidade é aquela que muitas vezes melhor nos convém, já que temos aqui uma dupla utilidade de agarrar os guardas, por um lado o de os usar como escudos humanos e por outro o deles dispararem contra os seus próprios colegas.

Mas depois de ter percorrido muitos níveis de Ape Out parece-me que o segredo para ultrapassar a sua dificuldade dura de roer passa mesmo por estar em constante movimento, tentando encontrar o mais rapidamente possível o caminho certo para a saída de cada nível, evitando desviar-nos em excesso do nosso caminho já que não ganhamos nada em matar soldados sem ser proteger-nos.

Se a jogabilidade é interessante, mas dificilmente teria argumentos para evidenciar Ape Out no meio de tantos outros, é mesmo a sua direcção artística quem lhe dá um sabor completamente único. A decisão visual de desenvolver o jogo com silhuetas, cores planas, com um tratamento de quase serigrafia e com um tratamento visual e tipográfico reminiscente de Saul Bass são o elemento de maravilha artística deste título. Um jogo que se apoia quase na totalidade no improviso do jazz, já que os seus níveis são discos vinis que estão a ser tocados, para além da música, ritmada, experimental, que acompanha o frenetismo da nossa fuga, e que vai sendo também ela proceduralmente gerada pelas nossas acções.

Misturado com a direcção artística há algumas boas ideias de game design que impedem Ape Out de ser excessivamente monótono. Quando activamos o alarme o jogo inverte a sua paleta de cores, tornando a navegação instintiva pelos níveis uma dificuldade adicional, mas não tão difícil quanto os níveis às escuras, onde vemos apenas os feixes de luz das lanternas dos guardas que vigiam o piso onde estamos. 

Ape Out é um bom jogo com sabor a Hotline Miami. Infelizmente, ao contrário do sucesso do estúdio Dennaton Games, acaba por muitas vezes incorrer numa ligeira repetição, que nem a direcção artística maravilhosamente única ao estilo de Saul Bass consegue evitar.