Confesso que cada vez que passei por um stand do Kinect me apeteceu agarrar numa caixa e levar para casa, mas existia sempre um mea culpa latente.

Primeiro, a disponibilidade do catálogo e as explicações que tenho que dar em casa. Claro que se jogar Adventures ou Sports não há nada que tenha que justificar à minha cara metade pois o mais provável é ela juntar-se à festa. Mas como explicar que também me apetece experimentar o Kinectimals ou Dance Central? Ver o pater familias a fazer festas a um tigre bebé no ecrã ou a tentar a última coreografia da Lopez pode destruir uma reputação em segundos (e neste caso não dá para fazer às escondidas como o Nintendogs).  Eu ainda gostava de ter mais filhos desta mãe.

Escutem: - Vão mas é trabalhar! Como as pessoas.

 

Segundo, o espaço na minha sala é limitado, o que para os sensores do aparelho da Microsoft constitui um problema. Até seria possível para uma só pessoa jogar, mas qual a piada de jogar Kinect sozinho? Essa limitação tem permitido manter-me afastado da compra do aparelho mas é óbvio que Deus gosta de jogar aos dados e a Amazon avisa-me que a Nyko lançou uma pequena grande ideia: um adaptador com duas grandes angulares para as lentes do Kinect que faz com que a nossa sala “aumente” até três vezes de tamanho. Vai daí eu penso em ir para a rua gritar que este adaptador é baba de caracol mas depois vejo que há mais discussão em torno deste produto do que das qualidades de Alice Madness Returns e eu seria apenas mais um louco entre tantos esquecido no meio da multidão. Há tantas críticas positivas como negativas e eu lá volto a ser transportado para a secção de jogos da grande superfície, ao ritual de olhar para as caixas do produto e controlar o impulso.

Confesso que gosto da interacção física com os jogos e que discordo quando as revistas e os utilizadores apontam os dedos às marcas pelo facto de não conseguirem reproduzir experiências hardcore com estes comandos virtuais. Eu não quero jogar Forza ou Gears nem Fable com os braços e os pés. Quero jogar jogos para me divertir em companhia a atirar bolas, a dar saltos no vazio ou outra qualquer figura estapafúrdia que destrua a minha compostura e faça rir o grupo das passagens de ano e jantares. E do que experimentei até hoje tanto a Wii como o Kinect conseguem proporcionar essa diversão em vários títulos. Recentemente experimentei o Kinect Sports Season 2, na conferência de Videojogos, e confesso que o golfe me divertiu bastante. Nós, supostos gamers experientes e exigentes, podemos criticar e apontar o dedo aos títulos casuais, mas quando os jogamos com 5 ou 6 pessoas à volta e a risota é geral existe muito pouco que se possa argumentar. A Sony foi a única que me decepcionou até agora pois o Move, que à partida parecia a implementação mais inteligente de movimento, é aquele que menos tem sabido adaptar a mecânica aos comandos (isto foi escrito antes de experimentar Medieval Moves que parece que está bem conseguido).

Portanto e por enquanto, ainda vou tendo algumas razões para evitar os movimentos da Microsoft. Mas cada vez o fio se vai desfiando mais e se é lançado um adaptador de lentes de qualidade comprovada por todos, ou se a própria Microsoft lançar um, acaba-se a resistência. E depois será ver a minha mulher à porta de casa, de malas feitas, filha no colo e uma última lágrima no rosto enquanto se despede sem receber resposta, pois eu estou a dedicar toda a minha atenção ao ecrã enquanto canto “gosto tanto de te ver leãozinho”.