Cair com estilo.

O jogo de plataformas cinemático constitui um dos principais sub-géneros de um estilo de jogo de firmes raízes nos primórdios das consolas e dos jogos de plataformas de um modo geral. Tendo em Prince of Persia como talvez o primeiro jogo de plataformas a utilizar modelos de personagens realistas e tendo em Another World um expoente máximo da utilização das cutscenes e de setpieces jogáveis nos anos noventa, o cinematic platformer constitui um dos principais sub-géneros do jogo de acção com mais influência na história dos videojogos. A Naugthy Dog, criadores do ícone Playstation Crash Bandicoot e da série de sucesso Jak and Daxter, é responsável por elevar este sub-género das plataformas em Uncharted 2: Among Thieves, jogo que cimentou de modo ímpar a cinematografia no reino das plataformas do século XXI. Após Uncharted: Drake’s Fortune, jogo de lançamento da Playstation 3, com reconhecimento morno por parte da indústria, o estúdio da Sony elevou o género em 2009 com um jogo que não só oferecia uma campanha singleplayer fantástica como introduzia a verticalidade de forma inigualável na experiência multijogador dos shooters na terceira pessoa modernos.

Certamente se recordam-se dos percursos amorosos retorcidos de Miguel Nogueira com FEAR3, pois tive uma experiência bastante similar com o novo jogo da Naughty Dog. Drake’s Deception é a terceira aventura do descarado Nathan Drake e dos seus companheiros, centrando-se a estória nas origens do nosso herói e na sua busca pelo tesouro de Sir Francis Drake, suposto antepassado de Nathan. Tendo em conta que a aventura gira em torno da identidade do nosso herói e das suas vivências, esperava que a narrativa tivesse outro envolvimento.

Uncharted sempre seguiu a fórmula base de aventuras tradicionais no cinema, com situações rocambolescas das quais o herói ou heroína, de língua afinada, conseguem constantemente sair, na companhia do seu sidekick ou da sua companhia romântica. Apesar disto, Uncharted 2: Among Thieves conseguiu não só construir uma grande aventura como também polvilhar toda a acção com personagens interessantes, conflitos amorosos, traições e situações surpreendentes, que apesar de superficialidade relativa, davam ao jogo consistência. Uncharted 3 é neste aspecto menos consistente em comparação ao seu antecessor, apesar de todos os elementos que adorámos em UC2 estarem bem presentes na nova aventura.

Isto não tem nada que saber...

A jogabilidade centra-se na dinâmica entre 4 tipos de interacção: combate, sequências de plataformas, movimentação furtiva e resolução de puzzles. Regressam o combate armado típico da série, e o tradicional cover system com algumas novas adições em termos de armamento e algumas alterações no modo como usamos as granadas, que podemos atirar de volta com um pequeno quicktime event. Também o combate corpo-a-corpo foi remodelado e parece haver um maior foco sobre este tipo de solução para despachar os inimigos, que é reforçado pelo facto da sequência introdutória do jogo ser um circo de pancadaria e quicktime events, de tal modo que por momentos pensava estar a jogar Heavy Rain. Lembram-se do início de Among Thieves, a cena da carruagem de comboio pendurada no penhasco? O vosso cérebro colapsou da sobrecarga de dopamina enquanto reviravam os olhos e mordiam o lábio inferior, não foi? Agora andamos à porrada. Efectividade parece haver um maior destaque sobre o combate corpo-a-corpo, não só a dinâmica está melhorada como muitas situações de jogo obrigam a lutar contra grupos de inimigos.

Pena que exista alguma repetição, concretamente na luta contra o “armário” que obriga a uso dos referidos quicktime events para evadir ataques ou evitar que simplesmente nos torçam o pescoço. Inicialmente é desafiante lutar contra um adversário gigantesco após termos despachado os seus camaradas, mas após algumas horas de jogo a repetição da fórmula começa a desgastar-nos o espírito e os dedos. O peso do combate corpo-a-corpo faz-se ressentir também sobre as cenas de tiroteio, pela permeabilidade que o jogo oferece em ignorá-las e andar à pancada, ou talvez pela capacidade reptiliana que Drake tem de regenerar membros e órgãos vitais. Noutras circunstâncias o posicionamento dos inimigos e a sua ferocidade é tal que morremos vezes sem conta, principalmente quando aparecem snipers, RPGs ou lança-granadas à mistura.

As situações de combate podem ser, em momentos, de pouca consistência. O controlo sobre Drake enquanto faz mira e consequentemente a fluidez com que despachamos a nossa oposição parecem também estar um pouco diferentes de Uncharted 2, ou talvez as setpieces de combate armado deixem algo a desejar em comparação com o seu antecessor. De salientar que os nossos opositores nos tentam flanquear constantemente, pena que muitas das vezes usem a táctica lemming, correndo na nossa direcção e colocando-se ao nosso lado. Também eles têm uma imensa capacidade de regenerar tecido nervoso e muscular, tal é quantidade formidável de balas que são necessárias para que caiam por terra.

Nada como um belo soco na boca ao amanhecer.

O calcanhar de Aquiles de Uncharted sempre foi, na modesta opinião deste galinácio, as sequências em que a furtividade é uma opção. Dificilmente conseguimos avançar no jogo sem ser detectados, e estas ocasiões apenas funcionam na perfeição quando ser furtivo é obrigatório, como o nível do museu de Among Thieves,  em que ser detectado significava ter de recomeçar a cena novamente. A questão é que ouvimos o herói dizer vezes sem conta “vamos tentar fazer isto sem barulho”, algo que imediatamente sabemos que não irá acontecer. Muitas vezes até vamos querer avançar furtivamente, para evitar confusões e porque muitos dos combates podem ser bastante duros de roer, mas eventualmente seremos descobertos.

É nas sequências de plataformas e de resolução de puzzles que mais me diverti e em que nos sentimos em casa com maior facilidade. Claro que sabemos de antemão que grande parte das superfícies em que Drake se pendura se irão partir, explodir, cair e todos os verbos que de um modo geral signifiquem que a coisa vai correr mal. E sabemos também que contra todas as probabilidades, o nosso herói se irá levantar dorido e arranhado, mas sempre com a sua poupa firme e hirta. Estes momentos poderão ser exagerados? Talvez. No entanto a forma deselegante com que Drake se ergue destes momentos, sempre com uma piadinha pronta a sair acabam por dar à série e ao seu protagonista uma identidade muito própria. E é na atenção ao pormenor que a Naughty Dog nos mostra como é ser um dos maiores estúdio de desenvolvimento do mundo.

Dos movimentos do protagonista, que por exemplo se debruça sobre as paredes ao passar por elas colocando a sua mão, aos comentários que faz às diversas situações de jogo em tempo real, Uncharted é de uma consistência técnica superior. Nunca nos cansamos de ouvir Drake dizer “No, no, no!” quando uma granada cai a seus pés, ou “Oh Crap” quando novamente as coisas não correram de feição. Os puzzles marcam uma mudança de ritmo no jogo bem vinda e de acordo com a norma estabelecida nos jogos anteriores. Apesar de simples, alguns dos enigmas são bastante desafiantes, fugindo dos básicos puzzle de porta e chave.

Portanto 6%...6 vezes 3 é 18..uh. Oh Sully faz aí a conta!

Uma das principais características da série é o seu humor e o modo como os actores dão vida as personagens, fazendo-nos gostar e até preocupar com o destino dos heróis e vilões. Neste ponto considero que Uncharted 3 não é tão bem conseguido como o seu antecessor. Em UC2 toda a aventura tinha um ritmo extraordinário, as localizações eram variadas e ainda assim tudo se encaixava na perfeição, e mesmo que assim não fosse, estávamos demasiado absortos na experiência para reparar. Talvez a fasquia colocada por Among Thieves tenha prejudicado UC3 nesse sentido. Desde cedo que a aventura tem um teor mais pesado, o jogo esforça-se por estabelecer que os nossos vilões são “da pesada” e que os seus motivos serão terríveis.

Mas a história acaba por ser semelhante aos outros jogos: os malvados querem apanhar um tesouro que um explorador se esforçou por esconder por ser uma força destruidora, e os vilões querem usar essa força em proveito próprio. Talvez o facto de ouvirmos a mesma estória pela terceira vez nos caia mal, mas o meu principal problema em UC3 foi mesmo a postura de Drake. O nosso herói parece mais cansado, as suas piadas soam mais esforçadas, como se não tivesse grandes razões para as fazer que não fosse fazerem parte do seu papel, e a atmosfera do jogo é de um modo geral mais nociva.

Em UC2 o mundo poderia estar a desabar, mas nunca a confiança do herói. E claro que à terceira vez aquelas perguntas que fazíamos nos jogos anteriores começam a pesar ainda mais: porque é que Drake insiste em colocar a vida dos seus amigos em perigo em seu proveito, porque é que os inimigos estão mais preocupados em disparar sobre Drake do que em fugir do mundo que está a desabar, porque é que eu me estou a preocupar com isto em vez de me estar a divertir com o jogo. Talvez porque a fasquia é mais alta. Em UC2 até os vilões eram fáceis de simpatizar, como Flynn. Na nova aventura têm pouca personalidade, até mesmo a arquivilã que supostamente teria um peso grande na vivência de Drake, desde tenra idade. Também Zoe regressa, acompanhada de uma nova cara de seu nome Charlie Cutter, para a meio do jogo desaparecerem simplesmente, trocados mais uma vez por Helena, e nunca mais se ouve falar deles. Relação estranha, esta de Drake e Helena, que está sempre pronta a arriscar a vida para depois lhe meter os patins. O fantástico Sully está melhor do que nunca, sendo que o jogo se foca na sua relação com Drake, de mentoraprendiz ou paifilho, interacção muito explorada na nova aventura, com o jogo a fazer uma manobra Tomb Raider Chronicles ao nos colocar na pele de um imberbe mas não menos coberto de sujidade, Nathan. É um dos melhores momentos do jogo e é também pena que seja tão breve.

Dá colinho.

Tenho de referir uma sequência particular de Among Thieves que me crivou a memória e é talvez uma das de maior excelência nesse jogo, e talvez a razão pela qual considere que falta a Deception essa pequena centelha. O jogador é salvo por um desconhecido no Tibete que o leva para a sua aldeia, no meio das montanhas. Ao acordar, Drake é recebido pelos habitantes com hospitalidade e as crianças interagem com o herói de forma fantástica, mostrando a curiosidade típica da idade perante um ser tão estranho, fazendo brincadeiras ou atirando uma bola na direcção de Drake, que o jogador pode chutar se desejar. Não só a sequência muda o ritmo da aventura, do seu desenfreamento aventureiro para um território mais familiar, como mostra Drake num ambiente onde ele se parece sentir pouco à vontade, mas ao mesmo tempo confortável. Mostra o herói a interagir com os outros sem ser aos tiros ou a mandar bocas foleiras e dá oportunidade ao jogador de se sentir num mundo que é real. Ao miúdo da bola só faltava uma camisola do Ronaldo.

Toda a sequência é fantástica e o jogador tem oportunidade de interagir com os habitantes da aldeia cumprimentando-os ou dizendo frases de acordo com a situação em questão, seja uma mãe a ralhar com o filho ou dois homens a olhar para o horizonte montanhoso. UC3 não tem momentos com esta profundidade, mas aproxima-se com as sequências das alucinações e especialmente as passadas perdido no deserto. É aqui que deixa a sua marca. Combater no meio de uma tempestade de areia ou perseguir um comboio de jipes montado a cavalo são momentos fantásticos que mostram que o jogo, apesar de menos focado que o seu antecessor, não deixa de ser uma experiência ímpar.

A nível gráfico, Deception consegue a proeza de nos oferecer ainda maior qualidade do que o jogo anterior, que era visualmente sem igual no mundo das consolas. Com a excepção de uma outra localização menos inspirada (Síria, estou a olhar para ti), todos os cenários são visualmente deslumbrantes e o jogador é bombardeado constantemente pela excelente iluminação, cores fantásticas, contrastes fabulosos e os mais diversos efeitos visuais que cimentam Uncharted 3 como um dos expoentes máximos do grafismo e arte visual nas consolas. A atenção ao pormenor em todas as localizações percorridas pelo jogador tornam a experiência de jogo imensamente convidativa, um daqueles jogos que é tão bom de se jogar, como de ver jogar. Efeitos visuais como fogo que propaga dinamicamente, ventos arenosos ou o detalhe dos modelos das personagens conferem muito realismo à experiência de jogo. O aspecto de Drake é especialmente cuidado com aqueles pormenores a que já nos habituamos como o facto da sua roupa se encharcar de forma absolutamente realista quando molhada. Em conjunto com os gráficos, a banda sonora de Greg Edmonson é responsável por dar vida ao mundo aventureiro de Drake, com musica variada e interessante que complementa bem todo o aspecto visual do jogo.

Extreme Makeover ao estilo de Uncharted.

Falar de bons momentos é falar da experiência de Uncharted 3 no seu todo e bem feitas as contas, já que apesar de desiludir em relação ao seu antecessor, ainda assim nos oferece uma aventura que se destaca das demais. O jogo ganha novo folgo a meio caminho, numa sequência passada num cruzeiro fantasma em alto mar. Após momentos de jogo deselegantes e pouco inspirados como os passados na Síria, com a sua transição relâmpago da sequência anterior, pousei o comando e pensei “Ah, Naughty Dog, finalmente te reencontrei”. Não vos vou estragar a experiência, apenas direi que somente Drake andaria de elevador estando este na horizontal e em pleno alto mar. O rapaz não regula certamente. A experiência torna-se muito mais interessante a partir deste momento, as sequências de combate mais fluídas e entusiasmantes e o jogo oferece-nos setpieces absurdas senão imensamente fantásticas, aquilo que estávamos habituados. Se em UC2 abri a boca de espanto ao jogar, em UC3 ri-me as gargalhadas em momentos de proezas impossíveis realizadas por Drake, como a sequência do avião, e mais não vos digo.

A secção multijogador é talvez onde o jogo se destaca mais de UC2, com um espírito um pouco diferente conseguido através da injecção de mais opções, mais modos, mais funcionalidades e maior dinamismo em alguns dos mapas. O multiplayer é uma experiência ainda mais abrangente do que no jogo anterior, com mais opções de costumização do personagem, mais itens e modificadores de jogo desbloqueáveis, maior ligação às redes sociais e a funcionalidade Uncharted TV. A experiência multijogador é no seu núcleo a mesma de Uncharted 2, no sentido de quem investiu nela cedo se sentirá à vontade e deslumbrado com as imensas opções oferecidas.

Os jogadores têm à sua disposição modos clássicos como Free-for-All, Team Deathmatch, Plunder, e também Three Team Deathmatch, Hardcore, Co-op Arena, Hunter Arena (2vs2) e Co-op Adventure (3 jogadores). Todo e qualquer modo de jogo oferece itens e funcionalidades desbloqueáveis. Armas, personagens, itens para costumizar o avatar do jogador e as armas e modificadores de jogo, são algumas das recompensas que vão sendo atiradas ao jogador à medida que vai subindo de nível e ganhando créditos, indispensáveis para comprar e desbloquear grande parte das funcionalidades, com opções de caracterização dos personagens vastíssimas.

Estás a ver? Não tem nada que saber.

Uma das novidades mais empolgantes é o maior dinamismo dos mapas de jogo. Algumas das arenas contém sequências de combate com jogabilidade dinâmica, colocando os jogadores em oposição enquanto determinados eventos decorrem na área de jogo, como o combate em cima de dois comboios em andamento em direcção a uma estação que constitui a segunda fase do mapa, ou a perseguição de carro a um avião que posteriormente levanta voo para depois aterrar numa base. A presença de ziplines para além deste tipo de eventos torna alguns dos mapas fantásticos de jogar, com um dinamismo muito superior ao seu antecessor.

Regressam as Medals, atribuidas ao jogador por realizar determinadas acções durante o jogo, agora com uma nova funcionalidade chamada Medal Kickback, bónus que podem ser usados após ganharmos um certo número de medalhas durante determinado jogo, como ganhar um RPG, aumentar a velocidade de corrida durante 20 segundos ou duplicar a quantidade de dinheiro ganho durante 30 segundos. Uma espécie de Killstreak que é permanente mesmo após a morte e que permeia qualquer jogador que tenha ganho medalhas, recompensando quem se destaca pela positiva e dando uma fighting chance a quem o jogo não está a correr de feição. Ao subir de Rank, o jogador desbloqueia não só Kickbacks, como Boosters (perks aplicadas ao jogador) e modificações para armas, mecânicas de jogo que aproximam Uncharted do shooter multijogador moderno.

Fazer acrobacias rodeados de amigos.

A experiência multijogador é muito mais holística do que o seu antecessor, com um foco sobre as rede sociais e a submissão de vídeos pelos jogadores, que até podem ganhar destaque na Uncharted TV, um canal vídeo integrado no jogo, que permite o acesso a trailers da Naughty Dog, mensagens dos developers, vídeos dos melhores jogadores, conteúdos DLC, campeonatos Uncharted ou Tutoriais. É claro que o modo multijogador é uma prioridade para a Naughty Dog, com novos conteúdos a serem constantemente lançados, acessíveis directamente no jogo através da opção Store. Com tantas opções, este modo garante dezenas de horas jogo para além da campanha e pode até justificar o preço de admissão para alguns jogadores.

Uncharted 3 é tecnicamente superior ao seu antecessor, um exemplo máximo do talento e dedicação de um dos melhores estúdios de desenvolvimento de jogos do mundo, um pináculo de qualidade nos jogos feitos para Playstation 3. As horas passam enquanto jogamos boquiabertos pela intensidade da aventura e momentos frenéticos e espectaculares que Drake nos proporciona, e o modo multijogador justifica por ele só o investimento que fazemos ao comprar o jogo. No entanto, a campanha de Uncharted acaba por desiludir um pouco, quer pela excessiva semelhança ao seu antecessor em termos de estrutura, quer pelo nível de excelência e de elevada expectativa colocado por Uncharted 2. Deception oferece-nos uma história mais negra, com menos humor e talvez por isso mais próxima de um drama real, mas este realismo acaba por não “colar” tão bem com o exagero e espectacularidade das cenas de acção, e da postura de Drake em determinados momentos. Uncharted 2 é neste campo muito mais consistente no modo como abraça sem medo a loucura despretensiosa da grande aventura cinemática que nos oferece. Ainda assim, Uncharted 3: Drake’s Deception irá ser recordado como um dos melhores jogos jamais feitos para Playstation 3 e é merecedor de um lugar em qualquer colecção de jogos que se preze.

(Uncharted 3: Drake’s Deception é um exclusivo Playstation 3)