Se não tivesse uma filha de 2 anos, garanto-vos que já tinha comprado a versão Star Wars da consola da Microsoft. Com um preço de 400 euros, proibitivo para muitos em tempos de crise, e com uma Xbox 360 já em casa, porque raio quero eu mais esta Xbox que, tirando os acabamentos e o som de R2-D2 quando liga, é em tudo igual às outras?

This ARE the objects you are looking for. DON'T move along.

 

No seu livro “The Confort of Things”, o antropólogo Daniel Miller lança a teoria de que a “cultura material importa muito mais do que acreditamos” e que “os objectos criam o sujeito e não o contrário”. Vai ainda mais longe para afirmar a polémica conclusão de que “quanto mais próxima é a nossa relação com os objectos, mais próxima é a nossa relação com as pessoas.” Estas ideias não surgiram de conversa de café. Miller passou meses a estudar 30 famílias de uma rua de Londres e a tentar investigar as relações entre elas e os seus objectos. Desde as pessoas que deitam os brinquedos do Happy Meal fora, àquelas que os colocam organizados numa prateleira.

É certo que utilizamos os objectos como forma de expressão pessoal. Se eu tivesse uma Xbox Star Wars em casa e não a pudesse mostrar a ninguém, iria provavelmente perder significado ao fim de algum tempo, pois a sua função é exactamente a mesma de uma consola normal. Um jogo talvez não. O jogo pode ser jogado a solo e podemos até conseguir apreciar sem partilhar, embora seja muito difícil resistir à vontade de espalhar a palavra sobre se é mau ou bom. Já o objecto físico precisa de ser visto por outros. Uma Xbox 360 serve para jogar, uma edição especial ou limitada já lhe junta a função do mostrar. É aqui que as marcas sabem aproveitar esta psicologia do ter.

Uma Xbox 360 Star Wars é em tudo igual no seu interior a uma edição especial Gears of War 3 ou ao simples pacote com a consola standard. Não há nenhum feature a mais, ou a menos, nos comando wireless inspirados em Halo Reach, em Modern Warfare 3 ou em Fable III. No entanto, muitos compram ou desejam tais objectos. Eu próprio desejo os novos comandos cromados da Xbox 360 e é necessário muito jogo mental para não os adquirir. O mesmo jogo mental que me fez justificar a compra de um Wiimote dourado com uma edição especial de Zelda. O facto de este jogo mental ter de existir é a prova de que estes actos não constituem apenas materialismo burro. Somos seres inteligentes e, se em nós existe um conflito tão intenso entre o ter algo que já se tem só porque é diferente, algo mais tem de estar envolvido neste acto de ter.

Estou a babar-me como só o Homer Simpson o sabe fazer.

 

A Nintendo USA acaba de anunciar a sua nova cor para a 3DS, a lançar a 20 de Maio, a belíssima Midnight Purple. Assim que vi as primeiras imagens da consola o meu jogo mental disparou. Mas será que comprar uma Midnight Purple quando já se tem uma Fire Red é apenas um acto de despesismo? Ou será mais um acto que prova que, ao contrário do que o estereótipo fácil afirma, o materialismo não é apenas um acto de consumo desenfreado. Daniel Miller acredita que o materialismo simples que lemos nas opiniões de jornal é apenas a forma mais fácil de caracterizar o acto de possuir objectos e que, segundo o próprio, a verdade seja muito mais complexa, pois como afirma: “Os objectos têm uma função muito mais profunda que é falarem por nós.

Portanto, da próxima vez que estiverem a olhar para a Playstation 3 vermelha, ou para aquele auricular inspirado em Battlefield, ou a desejar a 3DS branca com Super Mario 3D Land, não se sintam tão culpados e lembrem-se de que afinal, apenas estão a precisar de falar com alguém.