O género de terror tem passado um mau bocado nos últimos anos. O conceito de horror num videojogo deixou de depender da ambiência, em invocar sensações de inquietude e medo, sendo transferida a estética de terror quase exclusivamente para a acção. Um bom exemplo disto é o modo como o género do survival horror se transformou em horror shooter ou simplesmente num banal jogo de acção. Felizmente, as mentes criadoras da Frictional Games ainda não conseguiram sair do lugar escuro e terrorífico onde têm estado cativas nos últimos anos, assumindo-se involuntariamente como um dos últimos bastiões do verdadeiro horror nos videojogos.

É nos estúdios independentes, criadores de Mods e académicos que se tem sentido um maior empurrão ao género do terror. Motores como o de Half-Life têm servido de almofariz para a experimentação de novos conceitos e mecânicas, mas o estúdio independente Sueco criou um motor original, o HLP Engine onde desenvolveu as séries Penumbra e Amnesia, laureadas como peças pivotais numa ressurgência de um tipo muito característico de terror. Jogar Amnesia: The Dark Descent é viver uma experiência de sensações visuais, auditivas, cognitivas e emocionais. Jogos em que o ambiente é tudo e em que o jogador é levado lentamente a carregar o seu grau de medo, a elevar a sua expectativa, a ver moldado o seu estado anímico num crescendo de antecipação e terror.

Descer à cave, sempre uma bela ideia.

 

Jogos com alguns sustos, mas sem golpes baixos, é na envolvência aterradora que se encontram os trunfos da Fictional Games. São jogos de exploração e não de combate, de resolução de enigmas sem andarem de mãos dadas com o jogador ou serem imperceptíveis, em que cada experiência de jogo é tão singular como cada indivíduo. E também obras de grande influência Lovecraftiana (HLP são as iniciais do maior escritor de terror do século XX, Howard Phillips Lovecraft) que tentam incutir no jogador cognições de medo e de insanidade mais do que um simples “susto”. O jogador é moldado pela experiência até ao momento em que carrega na tecla ESC, acende a luz e solta um risinho nervoso.

Amnesia: A Machine For Pigs constitui o regresso da série, uma sequela indirecta de Amnesia: The Dark Descent, que possuindo um novo protagonista, se desenrola no mesmo universo de terror. A história de Oswald Mandus, um poderoso industrialista no ano de 1899, regressado de uma desastrosa expedição ao México. Febril e assombrado por sonhos de uma estranha máquina infernal, o homem acorda na sua cama desorientado sem saber quanto tempo passou desde a sua última memoria, avançando na busca de respostas.

Não sei onde estou, mas cheira-me que é por ali.

 

E como se não bastasse termos um novo Amnesia em mãos, o mais empolgante de tudo é o facto de esta sequela estar a ser desenvolvida num esforço conjunto com o estúdio thechineseroom, do designer e investigador na área dos videojogos Dan Pinchbeck, responsável por alguns dos mais provocantes Mods de Half-Life, de um dos quais surgiu Dear Esther. Este jogo último, lançado no Steam este ano e vencedor do prémio de Excelência em Arte Visual no Independent Games Festival constitui uma experiência sobre a narrativa e a jogabilidade nos jogos na primeira pessoa, como podem conferir na antevisão que fizemos neste artigo.

Amnesia: A Machine For Pigs tem tudo para se tornar em mais um clássico do terror e da evolução na forma como os jogadores interagem com a narrativa de jogo. Vamos comprová-lo no final deste ano. O facto de sair das mentes de dois dos mais promissores estúdios independentes da actualidade faz-nos acreditar que a nova viagem de Amnesia será mais do que um jogo memorável, uma experiência marcante.