K.I.S.S.

Há cerca de 10 anos que está pousado numa prateleira cá de casa Ratchet & Clank (um exclusivo PS2); não me pertence, mas sempre me foi dada a possibilidade de o jogar. Pela minha relativa alergia a jogos de plataforma fui-lhe passando ao lado e até então desconhecia por completo o mundo agitado de Ratchet; um dos últimos Lombax da sua espécie. Grande falha! Estarão muitos de vós neste momento a pensar. Tenho que vos dar razão.

Para celebrar o 10º aniversário da série Ratchet & Clank, os seus criadores lançaram a trilogia em HD para a PS3. Composta pelos exclusivos PS2; Ratchet & Clank (2002), Ratchet & Clank 2 (2003) e Ratchet & Clank 3 (2007); a Insomniac Games (em parceria com a Idolminds) dá assim oportunidade a uns de recordarem com nostalgia os primeiros capítulos da saga, bem como aos forasteiros que nunca privaram com esta série, pois está mais do que na hora de o fazerem. A Sony tem um conjunto de personagens exclusivas que conseguem ser emblemáticas e Ratchet e Clank estão inseridos nesse universo, embora esta seja uma saga não propriamente marcante pelos personagens que a constituem, mas sim pelo seu todo que veio a redefinir o conceito de jogos de plataforma e a revolucionar o seu género.

 

Não se pode dizer que os jogos desta série sejam de pura plataforma, dir-se-ia mais que são um 3rd person shooter vocacionado para o combate, mas com fortes elementos de plataforma, em que temos há nossa mercê uma parafernália de armas e gadgets que não lembrariam a ninguém. Ora imaginem lá uma arma que transforma os vossos inimigos em inofensivas ovelhinhas e cordeirinhos, mais propriamente um Sheepinator! São estas algumas das razões que tornaram/tornam esta série tão apetecível de se jogar. Embora para muitos a dupla dispense apresentações; Ratchet é um lombax com jeito para a mecânica e Clank um pequeno robô com características únicas na sua linhagem, que foge do local onde que foi criado e por mero acaso se despenha no planeta Veldin, onde habita Ratchet. Ambos travam assim conhecimento e daí em diante formaram umas das duplas mais bem conseguidas dos videojogos.

Não sei como Lineu classificaria Ratchet, pois lombax é bicho que não consta da taxonomia; provavelmente teria uma dor de cabeça para perceber que espécime é este; mas a Insomniac Games não teve meias medidas e criou o seu próprio mundo taxonómico, dando-nos a conhecer a raça Lombax como: “Indivíduo algo semelhante a um felino, bípede, orelhas grandes e pontiagudas, corpo coberto de pêlo amarelo (com aspecto de ser super fofinho!), pés grandes e mãos compostas por quatro dedos e um polegar”. Assim à partida parece resultar num ser destrambelhado, mas a partir do momento em que observei Ratchet ao pormenor (afastem os vossos pensamentos pecaminosos), apaixonei-me por esta criaturinha de ar reguila e ao mesmo tempo de uma ternura sem igual, onde até a forma como ele se move pelo cenário quase propositadamente ao ritmo da música é deliciosamente cativante. Bichinho “mai” lindo! Está assim eleito o meu animal de estimação exótico. E pensar que 10 anos nos separaram…

Foste Sheepinado! Mééééééééé!

 

No primeiro jogo da trilogia, Ratchet e Clank lutam contra Drek, um maléfico que quer destruir todos os planetas da galáxia para criar o seu próprio planeta. Havendo também tempo para conhecer o Capitão Quark; um autêntico super-herói aparvalhado, do mais trapaceiro que pode existir. Ratchet usa como arma principal uma chave de porcas de grandes dimensões e é com ela que iniciamos os primeiros níveis, esmagando caixotes que contêm parafusos, e destruindo inimigos dos quais resultam também parafusos, para cedo se perceber que este é um mundo de porcas e parafusos. Ao contrário do tradicional género plataforma, em que coleccionar o maior número de moedinhas, significa melhor pontuação; aqui os bolts (como são chamados no jogo) são o nosso sustento, a nossa moeda de troca e quantos mais tivermos, mais profunda será a nossa experiencia no jogo. É com bolts que se compram os mais variados tipos de armas e gadgets; armas que sugam os inimigos para depois serem atirados como projécteis, luvas especiais que lançam bombas, botas magnéticas, lançadores de misseis, etc.

A escolha é variada e apelativa desde que tenhamos bolts para gastar. E onde anda Clank? Ratchet responderia: comigo o  Clank vai sempre atrás. É literalmente isso, Ratchet anda com Clank nas costas, e este serve de jacto propulsor ou detentor de pequenas hélices para permitir a Ratchet saltos maiores e voos planados. Ocasionalmente temos o controlo de Clank, para pequenas missões e pontualmente, quando é necessário, usar uma das suas maiores particularidades – o Giant Clank,-  que permite lutas  “corpo a corpo” com outros inimigos de grandes dimensões. Este primeiro jogo não é o melhor dos três (revela-se até o mais fraco da colecção) mas marcou bem a sua posição quando surgiu e não deixa de ser actual. Caracteriza-se especialmente por ter um acesso aos menus e aos vários itens mal pensado; algo que é visivelmente ultrapassado nos jogos seguintes. Podem contar, com mais de uma dezena de horas de jogo e diversão garantida; descobrindo como tudo começou.

Vamos lá Clank, temos muito para voar! Liberta bem esses gases, quer dizer… propulsores!

 

Ratchet e Clank salvaram o Universo e são agora uma dupla famosa, chamada a ajudar o cientista Abercrombie Fizzwidget a recuperar uma experiência muito importante que lhe foi roubada. Começa assim o segundo jogo e os princípios são os mesmos; recolher o maior número de bolts para poder gozar do poderoso e criativo arsenal que a Insomniac Games criou. O visual de Ratchet & Clank 2 está mais aprumado, a variedade de armas é maior e é introduzido o upgrade das mesmas. Determinadas missões saltam para o espaço fugindo da plataforma, dando lugar a combates espaciais, com Ratchet aos comandos da sua nave. São criados challenges (combates em arenas e corridas de skate) que permitem amealhar muitos mais bolts para se comprar as armas mais caras.

Ao longo do jogo vamos vendo fortalecida a relação entre Ratchet e Clank, e uma vez mais nos cruzaremos com o Captain Quark, para assistir às cenas tresloucadas que só a sua personagem proporciona. Novamente, mais de uma dezena de horas bem passadas, de planeta em planeta, a salvar a galáxia de Bogon. Entre tanta agitação Ratchet e Clank têm ainda tempo para filmagens! Clank é vedeta da série televisiva Secret Agent Clank e Ratchet é o seu mordomo Jeeves (ehehe porque será?); facto que não lhe agrada nada, pois fora do ecrã continua a ser reconhecido como o malogrado mordomo do fantástico agente secreto Clank.

É assim que somos introduzidos ao terceiro jogo da trilogia, o mais polido dos três jogos. Um visual mais agressivo; acesso rápido e intuitivo aos menus para troca de armas e gadgets; muitas maneiras de ganhar bolts através de inúmeros desafios em arena, corridas e missões secundárias; armas bastante mais poderosas e a introdução de um modo multiplayer. Há ainda oportunidade para conhecer melhor a estória de Capitão Quark através de vários níveis de um minijogo de plataformas em 2D, ao qual Ratchet tem acesso na sua consola de nova geração, a VG-9000 Game System. Relativamente ao modo multiplayer é o habitual dentro do seu género; têm lugar partidas Capture the Flag e Deathmatch que podem ir até 8 jogadores em simultâneo, bem como a possibilidade de jogar em ecrã dividido, no modo offline.

Escusas de amuar! Agent Clank só no mundo da ficção, porque aqui quem manda sou eu! Vá toca a andar.

 

Numa altura em que a Sony está a refazer em HD muitos dos seus clássicos, de forma a presentear os detentores da PS3 com algumas das suas antigas pérolas; a trilogia Ratchet & Clank revela-se uma das mais bem conseguidas. Pode ser jogada em 1080p ou 720p com opção de 3D para quem o desejar e conta com uma quantidade bastante grande de troféus para desbloquear. Qualquer um dos três jogos tem muito boa apresentação, visuais leves, cores suaves e harmoniosas, sem efeitos da típica linha de nevoeiro tão frequente nas transições de clássicos para HD.

Fui à prateleira buscar o primeiro título e experimentei na PS2; as diferenças foram notórias e já nem fui capaz de continuar a jogar por mais de 10 minutos; voltar às origens é relativamente estranho. A nível sonoro, tudo parece estar também na perfeição, não sendo detectados sons enlatados. O único ponto negativo, ou menos interessante desta remasterização, é o facto de as cutscenes se manterem as originais e em formato 4:3, não parecendo ter sofrido qualquer melhoramento, nem estarem no esperado formato 16:9. Se tal tivesse acontecido teria ficado più bello!

Apesar de personagens bastantes cómicos e com vontade de nos fazer rir, o argumento não é o prato forte desta saga e o nível de jogabilidade é bastante fácil. Mas é mesmo assim que tem de ser, pois o espectro de pessoas a alcançar é muito alargado. Destaca-se por uma jogabilidade à qual se aplica o princípio KISS (Keep it simple, Stupid!), e onde pura e simplesmente reina a destruição para dar lugar à aquisição, num universo cheio de variedade com múltiplas escolhas de combate. É este o trunfo de Ratchet & Clank em que a Insomniac Games se revelou de uma genialidade e criatividade eficazes, apresentando um vasto e poderoso arsenal que somos encorajados a experimentar na sua totalidade. Esta trilogia constitui assim três jogos já com uma certa idade, mas que conseguem manter-se bastante actuais com a sua reconversão para HD. Três bons jogos pelo preço de um, que merecem estar na prateleira, mas não parados por 10 anos! Não se esqueçam, é simples: Destruir para adquirir. Trata-se de um ciclo vicioso que nos entretém durante horas e horas com um gozo inigualável.

(Trilogia Ratchet & Clank é um exclusivo Playstation 3)