Maldades em Mulgore.

Os MMORPGs são considerados por muitos como um ambiente privilegiado para estudos de caso, no que concerne a interacções sociais entre jogadores e não só. Em jogos que oferecem World PvP (Player vs Player) essa interacção é habitualmente à pancadaria, a fazer ganking, griefing e todo o tipo de patifarias de que os jogadores se lembrem. E acreditem que se for possível, nem que a margem de sucesso seja mínima, algum jogador algures na sua “gruta” vai conseguir fazer.

Todos os jogadores de MMORPG já sofreram algum tipo de maldades, já se aborreceram ou foram aborrecidos por alguém, e provavelmente já tentaram fazer o mesmo. World of Warcraft é um excelente meio onde tudo pode acontecer, não só pela quantidade inacreditável de conteúdos e jogadores que tem, mas também porque, apesar dos anos de refinamentos, ainda é dos jogos que oferece maior liberdade de acção e escolha. É também por este facto que os servidores PvP, em que podemos atacar jogadores da facção diferente na maior parte das zonas, são locais sinistros e perigosos, onde o lado negro da humanidade se manifesta. Tipo Internet mas ainda mais divertido.

Porquê? Estava entediado.

Porquê? Estava entediado.

 

Muitas histórias poderia partilhar com vocês, e vocês comigo, mas hoje irei relatar um momento de patifaria da minha parte, quando a minha alma ainda pertencia à Blizzard. O contracto felizmente já expirou. Apesar da infinidade de conteúdos que este tipo de jogos oferece, a verdade é que muitas vezes o tédio se instala. Cansados de fazer quests diárias, farmar materiais de crafting, fazer battlegrounds ou a instance que já fizemos 300 vezes, só nos restam duas coisas: desligar o jogo e ir fazer qualquer coisa útil para a sociedade, ou em alternativa, fazer malandragem aos outros jogadores.

Mulgore é a zona de início de uma das raças da Horda, os Tauren. Homens e mulheres bovino, de estética nativo-americana e brandos costumes, os Tauren têm em Mulgore um vasto prado verdejante, rodeado de montanhas. Onde podem em paz e sossego, pastar à sua vontade. A não ser que eu possa fazer alguma coisa em relação a isso. Um amigo meu costumava dizer que o cataclismo já tinha chegado a Mulgore, quatro anos antes de sair a expansão.

Sempre adorei Azeroth, mais do que qualquer continente. Provavelmente pelo deslumbramento que senti quando comecei a jogar, por ser um sítio com muito para explorar numa altura em que a única recompensa era apenas a satisfação de encontrar novidade, de olhar para os recantos do mundo, sem achievements ou títulos. Pelo que era frequente me encontrarem a palmilhar terreno e em sítios improváveis para um nível 70 – jogava-se então a expansão Burning Crusade.

A paisagem tranquila onde tudo se passou.

A paisagem tranquila onde tudo se passou.

 

Mas a minha cavalgada até Mulgore tinha um objectivo mais sinistro. Eu queria fazer a mais terrível patifaria de todas: matar um imberbe jogador, a iniciar a sua longa caminhada de aventuras. Queria deixar bem claro que Azeroth é um sítio em que os seus sonhos seriam destruídos e quebrar a sua inocência o mais rapidamente possível, deixando-o marcado para todo o sempre. Essa era a minha vil e difícil missão, porque nas zonas iniciais os jogadores da “casa” têm protecção contra o PvP. Ou seja, eu nunca conseguiria atacar um jogador…a não ser que ele me atacasse primeiro.

O desafio estava obviamente em encontrar uma forma de quebrar essa barreira de design que o jogo oferecia, e não propriamente em derrotar o jogador, que não iria oferecer qualquer resistência.  A minha táctica provou-se surpreendente e hilariante. Encontrei um jovem nível 7, a correr pela pradaria em direcção a um poço, rodeado de mobs. E de repente fez-se em mim uma luz. Ele estaria prestes a iniciar uma quest, provavelmente matar o grupo de bicharada que rondava o poço.

Em poucos instantes aniquilei o pequeno grupo de mobs à nossa volta, deixando-o sem possibilidade de fazer essa quest durante algum tempo. Essa devia de ser a sua intenção, porque nesse momento vi um olhar de incredulidade na cara do pequeno Tauren, que era maior que eu, um Dwarf. O seu olhar de desânimo rapidamente cedeu a um acesso de raiva tremenda, pelo que correu na minha direcção, de espada em riste, olhos semicerrados que deixavam um rasto de lágrimas enquanto se precipitava sobre mim. O óbvio Miss que se seguiu mudou o seu nome de amarelo para vermelho – activando o PvP. A cor que eu esperava.

The-Scream

 

Não me lembro como o matei, mas só o fiz uma vez. Na janela de chat li as palavras imperceptíveis dirigidas a mim (o texto aparece encriptado para as facções opostas), mas tenho a certeza que seja o que for que ele escreveu, não era bonito. Alguns insistem em matar os adversários vezes e vezes sem conta, mas não vi qualquer razão para tal. O meu objectivo cumprira-se. Decidi que já era tarde e pus-me a caminho de Ratchet, para apanhar o barco até Booty Bay. Sentia-me estranhamente melancólico.

Durante a noite a culpa assombra-me às vezes, com o olhar do Tauren gazeado sobre mim. Não é de tristeza, nem sequer de raiva… mas de desilusão. O olhar de quem viu os seus sonhos serem destruídos, um olhar sem esperança a quem a vida atraiçoou. O deslumbramento da aventura num mundo novo, quebrado pela parvoíce de alguém que estava entediado. Eu sei, porque também eu já sofri tais horrores.

First World Problems.