Poucas horas antes de começar o evento da Xbox, a Sony Europeia através da sua conta de Twitter abriu as hostilidades e escreveu que “hoje é um dia lento em notícias”. Este jogo de marketing mostrou-nos que oficialmente a “batalha” estava aberta.

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A Sony temia certamente a revelação da Xbox pois sabe que embora domine no resto do mundo, a consola japonesa perdeu a liderança nos Estados Unidos, um dos mercados mais milionários do qual depende a sustentabilidade da indústria. Porém, ao longo da apresentação a marca nipónica deve ter ficado cada vez mais descontraída enquanto via a sua rival numa apresentação aborrecida e com um foco numa estratégia que não agradou à maioria dos jogadores. Horas depois de tudo acabar, as acções da Sony estavam em alta e as da Microsoft em baixa. Será no entanto que a Microsoft está errada ou saberá muito bem o que está a fazer?

 

Atirar o barro à parede

Ao contrário das expectativas não existiu espectáculo de luz e som para nos encadear, cheio de projecções de logotipos e efeitos. O local do evento, uma tenda montada na base da Microsoft, tinha apenas a dimensão e tecnologia suficiente para mostrar de forma sóbria nos ecrãs, as ideias da Microsoft para os próximos tempos. Mas as palavras estavam lá: tablets, sala de estar, cloud, vivo, simples, instantâneo, completo. Este é o jogo que a Sony também faz, que todos fazem. Em vídeos que parecem sempre saídos da mesma produtora que faz os da Apple, pessoas da indústria vão lançando estas palavras soltas como conceitos, ao que se seguem pessoas no palco a repetir as mesmas palavras e buzzwords, e alguns vão pegar e ser impressos nos jornais, escritos nos sites, narrados nas televisões e vídeos online.

Três dos conceitos apresentados mostraram logo qual era a temática principal da apresentação: A consola reconhece o utilizador; Um sistema tudo em um; Melhorar a sala de estar. A partir daqui, os jogadores, começaram a engolir em seco.

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O espectador versus o jogador

Era um dos maiores medos da comunidade gamer. Nos últimos três anos o foco da Microsoft tem sido cada vez maior nos serviços de televisão e vídeo, e em duas das suas tecnologias: Kinect e Smartglass. A apresentação da E3 2012 foi disso um exemplo, com a maior parte do tempo dedicada à integração de serviços de vídeo on-demand com tablets e smarthphones e com promessas de integração de componentes de jogos com esses dispositivos móveis. A comunidade criticou muito a marca após essa apresentação mas o evento da Xbox One mostrou que a estratégia é para manter.

Sejamos sinceros. Esta não é só a marca responsável pela Xbox e pela Xbox 360. Esta é a marca responsável pelo Windows, pelo Office, pelo Messenger, Hotmail e por muitos outros produtos que estão praticamente presentes em todos os computadores. De um ponto de vista financeiro, ganhar a sala de estar pode representar milhões e milhões de lucros. A dúvida está sempre em como ganhar a sala de estar e estar ao mesmo tempo ao lado dos jogadores. Porque fazer tudo bem não é fácil, e uma máquina que quer ser tudo ao mesmo tempo pode também acabar por não ser magnífica em nenhum dos aspectos separadamente.

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Por outro lado, a Microsoft tem de estar atenta à sala de estar que tanto quer mudar, porque essa sala de estar tem estado em mudança na última década. As gerações mais novas já utilizam o portátil para ver o Game of Thrones, o Skype no iPhone e o Netflix no iPad no colo. A ideia da televisão grande no centro da sala, onde todos se reúnem está a desaparecer. Apostando nesta estratégia a Microsoft está a apelar a uma população mais velha ainda habituada ao ritual da televisão e cinema no sofá mas não será muito ouvida pelos jogadores. Ironicamente, esses que são os que ainda podem querer a televisão grande exactamente só para isso: jogar.

Não podemos no entanto afastar que a Xbox One pode realmente conseguir unir os dois mundos e se isso acontecer é graças à forma instantânea como troca entre os vários elementos. A transição de um filme para ver televisão, para um jogo, para a música ou o browser é praticamente instantânea e deixa o que se está a fazer em pausa, à espera de continuar no mesmo ponto em que se ia. Verificar o resultado do futebol ou quais as novas medidas de austeridade anunciadas é assim possível de forma muito rápida a meio de uma corrida de Forza. Tudo isto pode ser feito com a voz ou com as mãos, e aqui a história já é outra.

 

Kinect is watching you.

Vai ser certamente um dos assuntos mais polémicos e mais problemáticos de gerir pelos departamentos de relações públicas da Microsoft. O novo Kinect 2.0 tem de estar sempre ligado à consola e isto significa estar sempre a ouvir e a ver o que se passa em seu redor, até quando a consola está em modo de descanso. As maiores preocupações já se fizeram ouvir. Numa consola que está praticamente sempre, ou quase sempre, ligada à internet, uma câmara e um receptor a observar-nos é no mínimo perturbador. A Microsoft veio prontamente esclarecer que tem uma política de privacidade muito bem definida mas a questão problemática não está aí. Se a PlayStation, a Amazon, o Steam, entre tantos outros gigantes podem ser invadidos por hackers, o que nos garante que a nossa conta e consola Xbox não o vai ser? E se o for, que riscos tem um aparelho que mostra ao outro lado o que se passa no interior da nossa sala?

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A outra preocupação vem do lado dos jogadores. A apresentação mostrou um sistema altamente reactivo à nossa voz e aos movimentos, mas fica sempre a dúvida de quanto é real e quanto é encenado. Todos nos lembramos das apresentações originais do Kinect noutras E3 (e sejamos sinceros, também do PS Move) em que o que foi mostrado nunca na vida foi conseguido nas nossas salas. Mesmo assim o Kinect vendeu milhões. Aliás, o Wii Sports vendeu milhões, o Just Dance vendeu milhões. Os acessórios que proporcionam estas experiências de festa quando os casais amigos vão às nossas casas são sempre um sucesso e, goste-se ou não, representam uma fatia de lucros muito maior que a maior parte dos jogos AAA. Para muita gente, saltar em frente ao ecrã mesmo que os sensores se estejam a perder é já diversão mais que suficiente.

A preocupação reside portanto apenas do lado dos jogadores que mesmo sendo casuais não querem ter que andar sempre aos saltos ou a abanarem as mãos. Porém, se tiverem de o fazer, nunca existiu máquina melhor que esta. O novo Kinect é verdadeiramente impressionante na sua sensibilidade e capacidade de processamento. E isto não é fumo e espelhos do marketing. Este vídeo do Gizmodo mostra o sistema em acção e percebe-se que a capacidade do Kinect 2.0 em reconhecer o ambiente e os jogadores atinge uma precisão muito elevada na nova versão. Os maiores problemas parecem até estar resolvidos com a introdução de uma câmara de infravermelhos que vai ajudar nas salas mais escuras e um campo de visão mais alargado para as salas mais pequenas.

 

Falta ainda perceber o que vem a caminho para este novo Kinect em termos de jogos e se este vai ser um acessório agradável ou apenas intrusivo (como o anterior foi para muitas pessoas). Para já, onde o acessório mostra que poderá revolucionar é como controlo remoto. A utilização de gestos é algo que já se tornou instintivo em qualquer utilizador de um tablet ou smartphone. Dois toques para zoom, arrastar para o lado, abrir espalhando os dedos são formas de input que se tornam muito naturais com a utilização. Este Kinect 2.0 promete isso. A forma como podemos chamar caixas de diálogo, barras laterais, entrar em ecrã cheio usando as mãos é intuitiva e funcional. Se o Kinect tem a precisão prometida então este controlo remoto visual e auditivo vai realmente funcionar.

Isto conduz-nos a um potencial problema. O Kinect actual nunca suportou língua portuguesa. Resta perceber quanto vamos esperar, ou se vamos chegar a ter, a capacidade de comandar a Xbox One na língua de Camões. Confesso que entrar na sala a dizer: – Xbox, liga-te! –  tem o seu lado divertido.

 

A performance da caixa

Ao contrário da sua rival, a Microsoft decidiu revelar fisicamente a Xbox One (curiosamente, também ao contrário da rival não correu um único jogo na apresentação). A caixa preta e algo volumosa tem alguns ares dos primeiros vídeos VHS e parece algo datada, mas não deixa de ser um invólucro com mais personalidade de sala de estar e menos curvas de quarto dos adolescentes que a Xbox 360. Isto faz todo o sentido num aparelho que quer ser o suprassumo dos sistemas de entretenimento em casa, transmitindo uma imagem mais sólida e mais adulta para o habitat da sala de estar, onde concorre com finos televisores e móveis Ikea.

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Um processador AMD de 8 cores coloca a Xbox One lado a lado com a PS4 (e potencialmente com a mesma facilidade de programação “PC” que a rival), mas é na memória que a consola americana perde para a japonesa. Ambas têm 8Gb de RAM mas a da Xbox One é do tipo DDR3, enquanto a DDR5 da PS4 com uma largura de banda muito maior promete resultados bem mais mais rápidos nas comunicações entre CPU e GPU. Outra preocupação reside nas tecnologias que estão constantemente a correr por detrás da One: 3 sistemas operativos. O primeiro é o sistema Xbox que suporta a maior parte das operações de jogo e Kinect, o segundo é uma implementação do Windows que suporta o Smartglass, o guia, o modo Snap entre outros e existe ainda um terceiro que faz a ponte entre os dois. Quanta memória é que estes sistemas todos juntos precisam para si? Quanta memória sobra para os jogos?

O disco rígido interno e não removível tem 500Gb de capacidade, necessários uma vez que a instalação dos jogos vai ser obrigatória e não opcional, mas a promessa de extensão do espaço com discos externos e a ligação USB 3.0 assegura mesmo o jogador mais gastador em jogos que irá ter espaço para as instalações de jogos físicos e digitais. As ligações de conectividade habituais à rede estão todas presentes e como novidade que parece ser exclusiva uma entrada HDMI que vai servir para a ligação às box’s dos fornecedores de serviços de TV por cabo, o que vai depois permitir à consola operar por cima a sua “magia” de televisão imersiva.

 

Em equipa que ganha mexe-se… pouco

A peça mais fantástica da Xbox One é o controlador. A Microsoft foi extremamente inteligente e só melhorou em vez de tentar revolucionar. Em equipa que ganha não se mexe e o comando da Xbox 360 já era o melhor controlador das três grandes, com a sua ergonomia perfeita, os seus analógicos posicionados na diagonal e os gatilhos curvos. Felizmente o novo comando está praticamente idêntico ao original, com formas ligeiramente redesenhadas e alguns melhoramentos prometedores. O D-Pad parece estar fantástico com ligeiras curvaturas no interior, mas são as novas capacidades de feedback que vão certamente dar um gozo acrescido aos jogos. Os motores no interior estão desenhados para proporcionar vibração e force feedback em zonas distintas do comando, como na zona que assenta na palma das mãos ou na zona em que os dedos encostam nos gatilhos. Isto sim é imersão, aquela que não é forçada mas que está lá como parte de um todo e integrada de forma subtil na experiência.

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Existem botões novos no comando que a Microsoft ainda não revela para que servem e existe também (Porquê???) um compartimento para pilhas. Resta saber se teremos de voltar a pagar para comprar baterias. Os botões A, B, X, Y estão magníficos com uma ligeira transparência na face.

 

Ao vivo na nuvem.

Actualmente, se não se fala na cloud, então não temos dispositivo novo. Tudo tem de estar ligado, 24 horas, 365 dias por ano, os equipamentos, nós, os amigos, a partilha, a torradeira, e se isto não acontecer não podemos estar a falar de presente. A Xbox One leva o conceito mais longe e obriga-nos mesmo a estar ligados. É certo que Phil Harrison e os restantes executivos andam aos tropeções desde a apresentação numa nervosa dança do diz que disse sobre a real necessidade de estar online. Fala-se de uma ligação obrigatória uma vez a cada 24 horas, da necessidade de estar ligado para jogar um jogo pela primeira vez e isto, obviamente, assusta muitas pessoas.

Estar sempre ligado implica ter sempre internet disponível. Ora, eu já levei frequentemente a minha máquina comigo de férias várias vezes e, por má rede na nossa casa no Algarve, a ligação não ultrapassa nem os 100Kbs por segundo, e isso é nos melhores dias. Ou seja, a Xbox One é uma máquina que quer estar onde as condições reunidas em seu redor sejam perfeitas. Isto, em muitos locais, não é de todo possível.

Esta necessidade não é uma vontade de controlar a pirataria e os DRM’s. É certo que o facto de não podermos emprestar jogos e comprar em segunda mão nas lojas vai afastar muitos compradores, mas a verdadeira razão por detrás do sempre ligado são os serviços de cloud computing que a Microsoft quer fornecer. E se foi referido que vai ser possível gravar e partilhar momentos de jogabilidade, à semelhança do que a PS4 vai permitir, aqui a estratégia não está apontada para os jogos mas sim para os outros serviços. Skype, guias de televisão, estatísticas de canais desportivos, esta é a necessidade do sempre ligado. Para a visão da nova sala de estar resultar é preciso que a consola possa estar sempre ligada não só para aceder aos serviços como para partilhar com os servidores tudo o que andamos a fazer.

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O sempre ligado é a base imprescindível da análise de dados necessária para que a Xbox One possa estar a entregar os serviços de Trending, OneGuide ou Perfect Match que vão estar constantemente a analisar as nossas preferências e a entregar-nos sugestões.

Existe uma promessa que me entusiasma que é a da nuvem ajudar a criar mundos persistentes. Isto é, os jogos continuarem a viver nos servidores mesmo quando não os estamos a jogar. Isto bem aproveitado pode realmente criar experiências de jogo inovadoras tais como aproveitar o processamento em clouding para libertar processamento na consola, manter a nossa personagem viva quando não estamos a jogar ou mundos que evoluem na nossa ausência. Mais do que saber se vamos estar sempre ligados, que já percebemos que 90% do tempo sim, a grande dúvida é quanto é que pagaremos por todos estes serviços e funcionalidades. Até agora, todo o discurso indica que vamos continuar a ter uma subscrição Live paga para desfrutarmos de tudo o que a One quer oferecer. Resta-nos esperar.

 

Vamos ao que interessa.

Os jogos. Aquilo que pareceu uma nota de rodapé na apresentação. A verdade é que sobre este ponto não há muito a escrever para já. A Microsoft promete que tem 15 jogos exclusivos para o primeiro ano da consola para revelar na E3 e que 8 são novas propriedades, mas o futuro ainda não está escrito e rumores não são a nossa praia. O presente mostrou-nos Forza 5, novos EA Sports, o futuro jogo da Remedy de Alan Wake e Call of Duty: Ghosts. Quer dizer, mostrou-nos os trailers, pois na realidade não foi jogado um único jogo na apresentação.

 

Então, Xbox One, o que significa?

Para já, significa que para a Microsoft a experiência casual da sala de estar, de ver televisão, de consumir filmes, acompanhar uma série ou vibrar com o desporto é muito mais importante do que os jogos. Sim, a marca prometeu que deixou essa componente para a E3 mas a primeira apresentação diz muito sobre como um novo lançamento quer ser conhecido. E a Xbox One quer ser conhecida como a televisão imersiva, como o centro de entretenimento para o século XXI mesmo que tenha apresentado um conceito de sala de estar que é muito mais parecido com o do século XX. Uma das frases mais infelizes é que a Xbox One é o “next watercooler”, isto é, a máquina distribuidora de água onde os empregados se reúnem para conversar. Não é uma imagem muito bem conseguida.

O mais prometedor na máquina é a forma instantânea como tudo acontece e, em termos tecnológicos, o novo Kinect 2.0 é uma conquista impressionante, restando saber se em termos de implementação vai ser algo que vamos querer usar ou algo que nos é imposto.

Com capacidades perto mas menos poderosas do que as da PS4 resultantes da muita memória a ser utilizada para sustentar os 3 sistemas operativos que permitem todas as novidades, esta é no entanto uma consola que consegue igualar certamente qualquer PC de última geração a correr DirectX11 e isso irá garantir experiências de jogo muito mais poderosas especialmente ao nível da inteligência artificial, física e capacidades gráficas.

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A grande dúvida reside nas imposições. Consola sempre ligada, jogos que estão ligados a uma só conta, Kinect sempre a ver e ouvir o que se passa. O risco de rejeição é enorme e já se começou a fazer ouvir na internet. É certo que são também essas imposições que permitem à Microsoft entregar a visão que idealizou para a Xbox One e resta esperar se é o consumidor ou a marca que vão ditar o que se pode ou não pode fazer.

Para terminar, o que nos foi apresentado foi uma consola perfeita para o Americano comum que se quer sentar em frente ao sofá para ver os seus filmes, séries e jogos, e muito pouco sobre o que seria um sistema revolucionário e global para os jogadores. Aí, a PS4 ganhou a dianteira com a sua apresentação. Fico muito mais excitado quando vejo Jonathan Blow a apresentar um indie do que um Spielberg produtor executivo numa gravação a apresentar uma série de televisão. Mas isso sou eu. E eu, sou apenas um gamer.