De carácter pouco habitual, a Sony e a SCE Japan Studio, co-responsável por Demon’s Souls, Shadow of the Colossus e ICO, abraçam a diferença por uma obra que nos aproxima do palco. Um conto de fadas de fantasia negra, algo tentado por outros, mas que desta vez não nos deixará qualquer dúvida do trabalho assente em qualidade no seu todo. Puppeteer é um jogo que nos faz rir ao mesmo tempo que nos faz espantar. Rir pelo aspecto divertido e de caricatos momentos; espantar pela sua pormenorização e estranheza.

Imaginem-se uma marioneta, que por definição é controlada por mãos, neste caso com comando e não por fios. Uma mola ressalta da parte de cima do tronco em busca de uma cabeça que lhe possa servir, uma cabeça que adapte ao meio envolvente tão surreal quanto possam conceber. Multipliquem a cena teatral no panorama político por 10 e multipliquem a vossa criatividade transmitida com sonhos por 100: é o mundo de Puppeteer, uma das 7 maravilhas criadas para PS3 e para a PS Vita.

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Controlamos um menino transformado em marioneta, chamado Kutaro. A este foi-lhe retirada a cabeça e lançado para um canto, como um boneco esquecido no sótão, no castelo de Moon Bear King. Kutaro vê-se num atravessar de encenações em ambientes mutáveis e com objectos na maioria interactivos, com a ajuda de um gato fantasma controlado pelo manípulo analógico direito, enquanto controlamos os movimentos de Kutaro com o esquerdo. O gato fantasma fornece pistas e assiste Kutaro com objectos durante o percurso, interagindo com estes de forma a encontrar cabeças, moedas e segredos, por exemplo. Kutaro permanece vivo enquanto tiver uma cabeça nos ombros (no início vemo-lo desalmadamente a correr sem cabeça e com mola pendurada e é divertidíssimo) e pode ter até três cabeças diferentes, perdidas quando os inimigos auferem dano. Cada cabeça tem poderes especiais e adaptam-se a determinados cenários ou configuram-se de acordo com o meio. Ter a cabeça errada fará não poder interagir com determinados objectos e vice-versa.

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A determinado momento, conseguimos apanhar as tesouras legendárias: Calibrus. Estas servem de arma e de utensílio para puzzles. No momento da demo durante a E3, auxiliaram para cortar teias de aranha com uma mecânica diferente, em que as tesouras movimentavam-se por si só e em grande escala.

O cenário de fundo está em constante movimento, recriando tudo o que está à volta, e as breves cenas cinematográficas irão transportar-nos para outras paragens. As cortinas fecham-se e abrem-se para novas cenas, ou os elementos são repostos por outros com uma dinâmica que absorve o nosso olhar. É um visual único, com esta construção de níveis e passagens destes a substituir a espera por carregamento de níveis. Quando falo em pormenorização, não é apenas pela mecânica do jogo e como os cenários movem. É também pela dedicação que tiveram em cada sarapinto e mescla de temas, criaturas, corpos, coisas e afins. Cada som está no seu devido lugar, acompanhando de forma genial tudo o que se move e que vai esgaravatar ainda mais o maravilhoso mundo de Puppeteer.

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Puppeteer é carregado de divertimento e humor, mas transporta-nos também para encontros de tensas relações com voice acting maligno, de negra e hostil abordagem. A narrativa não decepciona, esperando que, no final, nos confira uma aventura fresca, como quando a Alice nos tocava os corações. Voto neste como uma das 7 maravilhas da PS3 e PS Vita pela criativa concepção artística e acompanhado pelos sons adornados e uma música brilhante, como uma compreensão dos sentidos a actuar em conjunto.