“Los Santos Owns you”

E pensar que tudo começou assim, corria o ano de 1997.

 

GTA inovou o seu género, estabeleceu o seu estilo, mostrou a sua ousadia e desde tenra idade tornou-se polémico.

Volvidos 16 anos, GTA ainda é uma criança, pois não atingiu a idade legal da maioridade. No entanto, é o franchise do mundo dos videojogos mais controverso de sempre, pelo seu conteúdo adulto e violento. GTA constituiu-se desde sempre como um mundo de sexo, drogas e rock and roll, uma sátira à cultura americana e que também se expande actualmente, em parte, à cultura da Europa Ocidental.

GTA V não foge à regra e é isso que nos mostra: os vícios; os prazeres; as dependências e conflitos de uma cultura e sociedade actuais. Mais do que nunca, a Rockstar investiu numa boa estória para nos contar, a melhor de sempre deste franchise. Atenção, não se trata de um guião digno de um óscar ou algo que se pareça, pois já vimos o desenrolar desta estória em muitas séries televisivas como Os Sopranos ou Breaking Bad (séries que parecem ter servido de grande inspiração para este título da Rockstar). No entanto, a forma como nos é contada; melhor ainda, a forma como participamos dela, é um dos elementos chave para que fiquemos agarrados a GTA V, sendo instigados a jogar de forma contínua as missões principais só para saber que contornos vão tomar os nossos actos.

Em grande parte, a nossa atracção pelo enredo deve-se ao carisma e controvérsia da personalidade dos seus protagonistas. Três protagonistas, o que até então nunca aconteceu em GTA. Franklin, um jovem que vive num bairro problemático, que é perito em roubar carros e que ambiciona uma vida mais recheada para além daquela que os pequenos crimes lhe proporcionam. Michael, um exímio organizador de assaltos que insiste em reformar-se das actividades ilícitas e viver uma vida de luxo na zona rica de Los Santos. Porém, Michael tem uma família completamente disfuncional, onde imperam os insultos violentos e onde assistimos ao choque de gerações, entre ele e os seus dois filhos, bem como aos problemas conjugais entre marido e mulher. Por isto, Michael faz visitas regulares a um psicólogo, das quais nós, enquanto jogadores, também participaremos. E mais não vos digo, é surpresa.

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Porque nem tudo é o que parece. Trata-se somente de uma sessão de Yoga. Worry not!

 

O terceiro personagem é Trevor. É talvez o personagem mais memorável de GTA V, arriscando dizer que é um dos personagens que será para sempre lembrado no mundo dos videojogos. É porventura o mais complexo dos três protagonistas, a viver no campo e afastado da agitação urbana da cidade. É um homem muito violento; obsessivo; viciado em álcool, sexo, drogas e sem quaisquer valores morais. Como nós as mulheres costumamos dizer, é um porco! Porco em todos os sentidos da palavra. Trevor eleva os patamares de violência e polémica do franshise GTA. Não criamos qualquer empatia com ele, mas também não somos capazes de o ignorar. O jogador é uma marioneta de Trevor. Com Trevor, era obrigatoriamente impelida a praticar o mal e a ser violenta sem que nada o justificasse. Com Michael e Franklin, praticava os furtos e crimes de forma divertida e descomprometida. Afinal de contas, isto é GTA, não é? Somos livres de fazer o que queremos e é esse um dos princípios base do universo de GTA, sendo um jogo do género sandbox. Mas nos momentos em que jogamos com Trevor, é como uma espécie de “abre olhos” ao ficarmos a pensar nas acções que acabámos de cometer sob o seu controlo. E a pôr em causa valores morais. O melhor, mesmo, é jogarem e tirarem as vossas próprias conclusões, mas tenho a certeza que vão ficar bem marcados com Trevor. A bem ou a mal, vão de certeza.

A nossa credibilidade no enredo de GTA V e nos seus personagens não seria possível sem uma boa representação dos actores. As cenas e acções com os diálogos/ discussões estão muito bem representadas, tal como as movimentações próprias de cada um deles. De destacar também a representação dos personagens secundários, dos quais não temos qualquer controlo, mas que a sua representação não deixou de ser cuidada.

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Trevor… sempre de calças na mão.

 

As estórias de vida de Franklin; Michael e Trevor cruzam-se, e temos acesso ao total controlo de cada um destes três personagens praticamente sempre que queiramos. Confusos? Não há necessidade. A Rockstar implementou no gameplay um sistema que permite alternar entre cada um deles, quer estejamos a jogar alguma missão em que os três personagens estejam presentes, quer estejamos em partes e locais opostos do mapa de Los Santos. Existem no total 69 missões principais que conduzem o desenrolar do enredo. Nestas missões principais estão sempre presentes pelo menos dois dos três personagens e, outras das vezes, os três.

Com a possibilidade de alternar entre cada personagem numa única missão, temos uma janela de oportunidades de combate, podendo abordar o problema de diferentes perspectivas. Enquanto Franklin está numa acesa troca de disparos, Michael pode flanquear o inimigo, ao mesmo tempo que no cimo de um edifício está Trevor com uma sniper. A qualquer momento, posso estar a combater do ponto de vista de Franklin ou de Michael ou de Trevor. O mesmo acontece com os veículos em que um está a conduzir o veículo e outro a disparar contra o inimigo. Temos total liberdade de escolha na forma como abordar a situação.

Este swing entre os protagonistas é tão fluído e sublime que não causa qualquer embaraço durante as acções, nem mesmo nos pontos mais altos dos tiroteios. Facilmente absorvemos a sua mecânica e daí em diante passa a ser um dado adquirido. Quando deixamos de controlar um personagem para passar a outro, a inteligência artificial fica encarregue de assumir as rédeas dos restantes dois companheiros. E fá-lo de uma forma exemplar. Pode dizer-se que é uma inteligência artificial com vida e vontade próprias.

E vida própria é o que existe em GTA V, com o mapa deste jogo que é de uma dimensão e detalhe sem igual. Desde ir caçar para as montanhas ou praticar mergulho no oceano e ver corais, há muito para ver e fazer! Poderão obter mais informações sobres as actividades que se podem fazer em GTA V aqui. As ruas de Los Santos e os seus habitantes são tão credíveis que nos fazem encostar o carro para ficar a observar as movimentações autónomas que por ali andam. Policias a abordar ladrões; casalinhos a namorar à beira mar; pessoas que vão as compras; outras que passeiam pelas ruas in de Los Santos; delinquentes que tomam a dose; mulheres que se prostituem. Em Los Santos acontece de tudo desde o 8 ao 80, onde somos apenas só espectadores. Aleatoriamente somos convidados a intervir em algumas situações, como quando, por exemplo, resolvi ir dar um jeito ao cabelo e, ao entrar no cabeleireiro, este estava a ser assaltado. Podia escolher entre oferecer resistência ou simplesmente deixar passar. Ao apanhar os maganos que assaltaram o cabeleireiro, escolhi restituir o dinheiro ao cabeleireiro e, com essa boa acção, obtive um desconto de 25% em cada corte de cabelo que fosse lá fazer! Oh yeah! Cabelos sempre bonitos!

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Ao nosso dispor, um mundo de diversão e possibilidades.

 

O sistema de combate em GTA V é bastante eficaz, muito afinado e sem lugar para entraves. O sistema de cobertura dos personagens é também muito decente e a condução de veículos não fica atrás de um Need for Speed, por exemplo. São de destacar três habilidades que cada um dos protagonistas possuem. Franklin tem a possibilidade de abrandar o tempo enquanto conduz a altas velocidades, e esquivar-se milimetricamente de outro veículos. Michael, enquanto anda aos tiros, pode usar bullet time bem ao estilo de Max Payne. E Trevor tem a “habilidade” para durante uns segundos ser ainda mais feroz do que já é e desatar aos tiros desenfreadamente. Assim como uma espécie de modo fúria. Este homem é o diabo na terra… É home!!

A qualidade gráfica é muito boa, a demonstrar que ainda é possível fazer bons jogos nas consolas desta geração. Para um mundo com a dimensão de GTA V, seriam de esperar bugs e afins. No entanto, não me cruzei com nenhuma anomalia dessa espécie! Tudo me aparecia à frente renderizado e fluído, sem espinhas!

GTA V tem uma longevidade magnífica, com cerca de 40 horas de jogo só nas missões principais e muitas mais em missões secundárias ou actividades desportivas. Pura e simplesmente andara a passear pelo mapa e, com acontecimentos aleatórios, pode tudo isto chegar muito bem às cerca de 100 horas de jogo. Isto sem contar com o tempo adicional que poderão passar em GTA online; que merecerá um artigo separado desta análise aqui no Rubber Chicken.

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Cowabunga!!!! yeeeeeeeeiiiiiii!!!

 

O Pior: O violento conteúdo poderá ferir os mais sensíveis.

O Melhor: Enorme e detalhado mundo aberto; Excelente level design diversificado; Longevidade e diversificação de missões; Credibilidade que todo o mapa nos transmite; A vida que existe nas movimentadas ruas de Los Santos; Excelente Inteligência artificial; Estória contada de forma cativante e intensa.

GTA V constitui uma das maiores e mais emersivas experiências de sempre nos videojogos. O seu vasto mapa, dotado de pessoas e ambientes absolutamente credíveis, é uma obra épica de engenharia. Extremamente bem doseado e diversificado nas suas missões, GTA V é bastante coeso. A sua estória adulta, dura e crua abraça-nos do principio ao fim e a implementação de um sistema que possibilita jogar e alternar entre os três protagonistas é uma jogada de mestre. Uma vez mais a Rockstar parece não desiludir os seus fãs, terminando em grande nesta geração de consolas. Estará lançado o mote para um desempenho idêntico na próxima geração? O céu certamente deixou de ser o limite para esta produtora. Aliás, limitação é coisa que a Rockstar desde sempre mostrou não ter. Metaforicamente, poderá dizer-se que GTA V está como o vinho do Porto: quanto mais velho, melhor. É muito fácil embarcar numa viagem em GTA V, mais difícil é sair de lá. Los Santos owns you – Li isto algures num poster numa das paredes do quarto de Franklin, e não está longe da verdade.

Versão analisada: PS3. Também para Xbox 360