Kasparov de trazer no bolso

Há sempre uma grande desconfiança do mercado ao ver um novo jogo de xadrez chegar às prateleiras, virtuais ou físicas, das lojas de videojogos. Acima de tudo porque a dúvida permanece: em que é possível mudar para inovar um jogo que está (literalmente) connosco há séculos?

Pure Chess demonstra-nos logo ao primeiro contacto que a sua intenção não é reinventar o xadrez, nem a forma como o jogamos, mas sim, torná-lo transversal, acessível e com um visual que o distancie de centenas de outros jogos do género.

O sucesso comercial do jogo surgiu aquando do seu lançamento para PS3 e PS Vita onde rapidamente se tornou um dos jogos mais vendidos de Junho de 2012. A sua abordagem mais realista soube cativar jogadores em todo o mundo, e este sucesso (inesperado?) motivou a sua criadora, a MooFoo Studios, a tentar implementar o jogo noutras plataformas: primeiro no mercado mobile e depois para as consolas da Nintendo.

pure chess 01

Polido por 30.000 mãos digitais (completamente sem dedadas)

Aquilo em que percebemos as pequenas diferenças que Pure Chess traz é a sua total transversalidade do ponto de vista de que tipo de jogadores quer abranger. E a sua atitude ambiciosa condiciona-o a querer uma abrangência total do mercado: desde jogadores iniciantes, até aos Kasparovs lá da rua, que pensam ter capacidade para lutar frente-a-frente com a mais metódica programação informática. Apesar da grande oferta que encontramos pela Internet, a começar pela longa tradição do Windows de nos disponibilizar um jogo de Xadrez gratuito, passando pelos magotes de jogos do género que circundam a App Store e a Google Play, a sua quase totalidade tenta posicionar-se apenas para jogadores num intervalo que compreende a “compreensão das regras do jogo” até à “práctica quase profissional”, esquecendo por completo todos aqueles que sempre quiseram aprender e que poderiam contar com ferramentas interactivas para melhor mergulhar no jogo. E é esta a grande força de Pure Chess: o seu modo single player traz um vasto leque de abordagens que consegue responder a qualquer nível de jogador, desde a necessidade de aprender xadrez desde o início, até aos desafios que a IA nos apresenta. A Inteligência Artificial do jogo está realmente apurada e distancia-se grandemente de outros jogos do género, sendo a mente computorizada do programa um verdadeiro desafio em qualquer nível de dificuldade. É claro que ajuda o facto de que o jogo é visualmente apelativo, com alguns conjuntos de peças e tabuleiros disponíveis e com a possibilidade de adquirir novos conjuntos a posteriori.


Em relação à componente multijogador local é na versão WiiU que o jogo realmente brilha. Com a possibilidade de utilizar o GamePad como um verdadeiro tabuleiro, podemos desafiar um amigo ou familiar para uma partida rápida de xadrez. Se suplanta a experiência de um tabuleiro verdadeiro? Não, mas na nossa vida carregada de facilitismos e alguma preguiça sempre nos poupa o pequeno trabalho de fazer setup às peças (e impede batoteiros de fazerem jogadas ilegais).

pure chess 02

A seguir bebemos um chá ali naquele sofá tão confortável ok?

 

Um dos grandes argumentos de venda de Pure Chess é sem dúvida a componente online e a capacidade muultiplataforma. Ainda que em teoria as potencialidades de termos uma conta única para WiiU, 3DS, iPhone/iPad e Android seja aliciante, e sabermos que podemos continuar uma partida online que começámos na nossa WiiU no nosso iPad, é na aplicação práctica que o jogo mais falha. Desde problemas em efectuarmos o registo da nossa conta de Pure Chess na 3DS, até à impossibilidade de efectuarmos as jogadas em tempo real contra outro jogador em qualquer parte do mundo, traz uma carga excessivamente casual a um jogo que aparentemente intenta ser uma das abordagens mais profissionais ao género. O tempo que dispomos para efectuar jogadas no nosso telemóvel, de forma casual, enquanto viajamos, não é o mesmo de nos sentarmos em frente à TV com o GamePad na mão, e termos de esperar que cada jogada seja processada em cada um dos sistemas. A MooFoo deveria, obrigatoriamente, ter acautelado uma abordagem não-casual em tempo real para as consolas da Nintendo, que requerem um tempo de atenção diferente do mercado mobile.

O melhor: o visual; o modo single player; a AI; a intenção de multiplataforma com uma conta única.

O pior: os jogos online, o falhanço (para já) desta componente.

Quando temos um jogo cujos dois maiores argumentos de venda se encontram relativamente ineficazes perante as promessas e expectativas criadas para os jogadores, poderíamos dizer que ocorreu um total falhanço dos seus criadores. Ainda que a componente single player seja das mais completas e desafiantes de jogos do género, a ambição e consequente defraudamento da qualidade do serviço online impede Pure Chess de brilhar verdadeiramente e de demonstrar em pleno todo o seu potencial.

Pure Chess está disponível para PS3, PS Vita, iOS, Android, WiiU e 3DS. Jogadas as versões de 3DS e WiiU.