Mais um ano que chega e mais uma E3 em que a Nintendo decide não fazer uma conferência gigantesca, à semelhança dos outros titãs do mercado. E compreende-se a bem ver. Para quê lançar fogo-de-artifício excessivo para pouco conteúdo, se o que há a apresentar tem o seu espaço suficiente num evento digital, tal como fizeram?

Em muitos aspectos tenho de considerar a apresentação da Nintendo como a melhor desta E3. Acima de tudo porque me senti defraudado com as outras 4 apresentações, que tinham demasiado show off para pouco conteúdo, demasiadas luzes para ofuscar a falta de preparação que estava à pele. Ao contrário das restantes, a Nintendo soube trazer aquilo em que é forte: os jogos. Sem trazer estratégias de “smoke and mirrors” como nas outras apresentações, em que trailers CGI com produções espantosas mascaravam o facto de que nenhum gameplay era apresentado, a Nintendo acabou por trazer quase exclusivamente vídeos de jogabilidade para mostrar o que aí vem. E é claro, a grande diferença deste evento digital da Nintendo foi a sua capacidade para se auto-parodiar, e de usar os argumentos que muitos usam contra a companhia para gozar consigo mesma. Tudo isto com pequenos sketches do genial Robot Chicken (o nosso primo afastado dos States) do não-menos genial Seth Green. Desde a luta inicial entre Iwata e Reggie Fils-Aime ao bom estilo shönen, passando aos já indicados sketches típicos do Robot Chicken, a realidade é que a apresentação passou uma aura de diversão que em tudo se ajusta à Nintendo.

Em todos os aspectos, Super Smash Bros marcou grande parte do peso de toda a apresentação. O que não é de estranhar visto que esta é A grande aposta deste ano, e possivelmente aquele sobre cujos ombros recairá a tarefa de tentar retirar de vez a Wii U do buraco. Ainda assim, para além do sistema amiibo do qual falaremos um pouco mais à frente, foi finalmente anunciado a possibilidade de se combater com os nossos próprios Miis.

Outro grande destaque de toda a presentação foi o sistema amiibo, que nos demonstra logo o quanto em muitas situações relacionadas com o mercado, a Nintendo acaba por andar a “toque de caixa” das suas concorrentes. É até um pouco dicotómica a forma como é tão inovadora em tantos aspectos, e em muitos outros, tão retrógrada. Com a força dos seus IPs e das suas mascotes (força essa demonstrada em títulos como Super Smash Bros) a Nintendo tardava em tentar combater algumas manobras de mercado centradas na tecnologia NFC e figuras coleccionáveis, tornadas famosas em todo o mundo com Skylanders e Disney Infinity. O grande problema que os amiibos terão é mesmo uma questão de timing, visto que como tudo, até neste tipo de abordagens há uma janela de tempo para efectivar o seu aparecimento. O que significa que as crianças ( e os adultos) que já coleccionam Skylanders ou Disney Inifinity dificilmente vão preterir as suas colecções em detrimento dos amiibos, tanto por questões de investimento de tempo como de dinheiro. Já para não falar que as hipóteses de cross play entre os amiibos e os jogos falados são muito pouco seduzíveis como investimento inicial.

 

A 3DS vai bem e de saúde, o que justifica que grande parte das atenções da apresentação ( e de toda a estratégia de marketing da Nintendo) se centrasse na Wii U e no seu baixo número de vendas. Não é de estranhar por isso que grande parte dos títulos anunciados são destinados à consola doméstica. A começar por Yoshi’s Wooly World produzido pela Good-Feel. À primeira vista, a minha grande reticência com este jogo antes de sequer o ter jogado é que seja apenas o genial Kirby’s Epic Yarn com uma skin de Yoshi. Mas visto que os seus criadores indicam que o jogo revolve mais à base da exploração e da procura de segredos do que a jogabilidade impressa no jogo de Kirby. A ver vamos…

Apesar de nada surpreendente, o spinoff de Super Mario 3D World, Captain Toad: Treasure Tracker parece um jogo promissor e que já tinha sido antevisto por nós, e acreditamos cada vez mais que poderá ser um grande jogo, medindo pelos exemplos que tivemos aquando da análise de 3D World.

É claro que grande parte do olhar do mundo ficou siderado na apresentação do próximo The Legend of Zelda, que não só foi apresentado com uma estética ligeiramente diferente, a relembrar algumas abordagens de animação franco-canadiana, como foi anunciado como um mundo aberto. E será aqui que residirá a dúvida do equilíbrio do jogo: entre o espírito da série e uma visão perto do sandbox.

WiiU_Zelda_scrn02_E3

 

Apesar de já ter sido anunciado antes, Hyrule Warriors teve finalmente o destaque que esperávamos e demonstra alguma inteligência tanto da Tecmo Koei como da própria Nintendo, em criar para a Wii U um exclusivo que alia duas franquias colossais numa só: por um lado Zelda e por outro Dynasty Warriors. Da apresentação a grande mais-valia que podemos retirar é a possibilidade de dois jogadores jogarem em simultâneo, um na TV e outro no Game Pad, sem necessidade de dividir o ecrã, o que trará uma nova abordagem à acção táctica à jogabilidade de Dynasty Warriors.

Depois de no ano anterior termos ficado completamente babados com a promessa do novo jogo da Monolith Soft para a Wii U, à época apenas denominado Project X, tivemos finalmente a confirmação de que se trata da sequela do magistral Xenoblade Chronicles da Wii U, neste momento sob o título oficial de Xenoblade Chronicles X e que será, na nossa opinião, a par do que o foi o seu antecessor para a Wii, uma forma de cativar um segmento de mercado que poderá estar distante da nova consola doméstica.

 

Mas se nos é permitido um momento WTF, esse é para nós o anúncio (do já pseudo-leaked) Mario Maker: uma aplicação de construção de níveis de Super Mario Bros. Não que a ideia seja descabida, que não o é, mas apenas porque soa a um gigantesco milking the cow ao jogo clássico da NES, e que foi, para todos os efeitos, o único anúncio de um jogo do Mario nesta E3.

Para além da apresentação dos já anunciados remakes de Pokémon Ruby e Saphire, parece-nos que a revelação de que o jogo em que o sr. Miyamoto anda a trabalhar há um tempo é na verdade o próximo Star Fox. O grande problema é que a revelação, e o que foi demonstrado foi tão anti climático comparado com todo o burburinho levantado até agora, que acabou por soar a pouco.

Por fim, e dir-se-ia, que tarda mas não falha, e a Nintendo trouxe a sua própria interpretação do que deveria ser os third-person shooters team arenas com o genial Splatoon. Para mim, o grande ponto alto de toda a apresentação e que nos relembra porque é que a Nintendo continua a dar lições em game design, aproximarem-se de um género a priori fora da área de conforto da empresa e mostrarem a toda a gente: “deixem mostrar-vos porque é que os nossos jogos influenciaram quase todos os criadores de videojogos”.

 

Resta-nos apenas falar de alguns indies que surgirão para a eShop, mas noutras núpcias, e revelar a expectativa sobre o jogo que vai ser anunciado hoje para a 3DS. Será um novo Metroid?

Em geral, uma apresentação mais divertida do que surpreendente e mais comedida do que exuberante. É aliás o estilo da Nintendo nos dias de hoje, em que caminha “sobre ovos”, e em que mede muito o seu próprio risco. Numa E3 pobre, em que as grandes conferências soaram aos minutos iniciais de uma sessão de cinema, com um chorrilho de trailers e pouco mais, a Nintendo acabou por levar a melhor com o seu estilo mais in house, mais divertido e mais do que tudo a mostrar aquilo que todos queremos ver: videojogos.