A Sony chegou à Alemanha já de caneca na mão, pronta a fazer a festa com o dinheiro que trazia no bolso, fruto de 10 milhões de consolas PS4 vendidas em menos tempo do que é necessário para conceber e dar ao mundo um bebé. Mas quando criamos um bebé de carne e osso (para além do sexo ser muito melhor) passamos a ver a nossa cria como a melhor dádiva que o mundo nos deu e perdemos muita da capacidade de analisar factualmente o que nos rodeia. Tornamo-nos facciosos: a nossa é a melhor nisto, é a primeira naquilo, faz isto nunca antes visto, e não nos apercebemos que está a evoluir tão rapidamente (ou até mais lentamente) do que a concorrência.

A Sony corre neste momento o risco de menosprezar a Xbox ONE que fez algo tão perigoso como corajoso: perder o Kinect 2.0 para se igualar em preço à rival. Sim, é um voltar atrás depois de um dos maiores erros da história da Microsoft, mas por isso mesmo é corajoso: por deixar de lado uma estratégia bem delineada que perceberam não era do agrado do público. E se uma marca consegue perceber algo tão rapidamente e mudar, então a concorrência tem de estar atenta. Veja-se o caso da Nintendo que mesmo estando errada não muda. E sim, embora a Nintendo seja outro campeonato (e que os jogadores Nintendo clamem que não pertence a esta guerra) acredito que grande parte dos accionistas da marca nipónica preferia ver a sua consola de sala voltar à batalha com as rivais. E os accionistas no novo mercado global tomam por vezes decisões perigosas.

A Sony teve no entanto uma conferência muito bem planeada e que mostrou que a Gamescom já não é uma repetição da E3. Muitos anúncios e muitas estreias de jogabilidade em mais de uma hora de jogos, que praticamente se sucediam uns aos outros sem as eternas conversas de criadores em palco que ainda não têm grande coisa para mostrar. Mas o melhor foi o facto de todos os momentos da conferência que queriam falar de serviços e não de jogos terem durado apenas 3 minutos. Porém, nesses 3 minutos tivemos lugar para o muito bom e para o muito mau.

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A parte chata mais curta da história, incluindo um funeral em silêncio

O muito bom é estar finalmente a chegar no próximo update 2.0 de Outubro da PS4 a funcionalidade Share Play, em que um amigo pode entrar remotamente no nosso jogo, assumir o controlo do mesmo e ajudar-nos a ultrapassar uma determinada zona. Esta funcionalidade pode também servir para amigos nossos experimentarem jogos antes de comprarem. Ficam no entanto algumas dúvidas sobre a forma de restrições a implementar no serviço. Elas têm de existir, pois no limite eu poderia estar a cobrar a pessoas um “aluguer” para jogarem na minha conta. Se é com limite de tempo que isto será feito não sabemos, porque para já a Sony apenas garante que quem se liga não tem de ter o jogo, embora já se saiba que ambos vão necessitar de uma assinatura PS Plus.

As dúvidas surgem quando olhamos para os primeiros testes do serviço de aluguer/ streaming de jogos PlayStation Now, cujos preços astronómicos afastam qualquer pessoa do mesmo e onde, de forma absurda, certos alugueres custam mais caro do que adquirir o jogo na PlayStation Store. Será a politica fabulosa de oferta de jogos no PlayStation Plus que nos surpreende todos os meses a politica do Share Play, ou será que é uma Ricardo Santo Espertice nipónica que vai influenciar as restrições da nova funcionalidade? Esperemos para ver.

A PlayStation TV vai também chegar à Europa. Isto para além de mau é perigoso e vai encher as lojas de clientes a reclamar. Quem já experimentou fazer streaming de jogabilidade entre uma PS4 e uma PS Vita sabe uma coisa: se a consola estiver a falar directamente com a antena wifi da PS4 (isto é, muito perto) a conexão é maravilhosa e rápida. No entanto, se estivermos a usar a rede wifi da casa a que ambas estão ligadas e mudarmos para outra divisão, começam os problemas de streaming. A Sony promete que podemos levar a PlayStation TV para outra divisão e fazer streaming dos jogos PS4 noutra televisão. Bullshit! Podemos se quisermos coneções lentas, lixo digital na imagem, ou até mesmo perder o sinal.

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A outra péssima notícia destes 3 minutos foi percebida sem ter de ser anunciada: a Vita, para a Sony, morreu. Vai passar à sua categoria de acessório para ports baratos, cross-play de indies e streaming (mau) de jogos da PS4. Nada foi anunciado em desenvolvimento na Gamescom 2013, nem na E3 2014, nem na Gamescom 2014. Vai tornar-se uma máquina de nicho para jogar indies na cama ou para RPG’s malucos japoneses. Se fosse uma máquina da Nintendo não teríamos qualquer problema com isto, a marca continuaria a apostar mesmo após maus resultados. Mas a Sony não se pode dar a esse luxo quando fora da secção dos jogos (televisão, telefones, auto-rádios e todos os outros demais equipamentos estão a enfrentar prejuízos históricos e a serem aniquilados em todas essas áreas pela concorrência). Por isso enfrentamos o perigo da Sony desistir da produção da Vita dentro de um ano. Foi o grande elefante na sala. Ninguém o queria mencionar, mas partia todos os copos oferecidos antes do arranque do show.

Project Morpheus, a realidade virtual da Sony, serviu apenas como lembrete para quem estivesse presente na Gamescom ir experimentar, a.k.a. Early Stages.

 

Os suspeitos do costume

Jogos, esses, foram muitos. E foi aqui que a Sony mostrou que não está adormecida nem fascinada com um sucesso que lhe permitiu respirar depois dos primeiros anos com prejuízos na PlayStation 3 e com o elefante que já escrevemos umas linhas atrás. A Sony está apostada em produzir muito, assim como conseguir exclusivos. Um desses exclusivos é particularmente interessante pois pode espalhar-se a vários jogos e consolas. Quem comprar Far Cry 4 para a PS4 vai receber 10 chaves que pode partilhar com os amigos. Quem instalar o código vai ter direito a jogar 2 horas de jogo mesmo sem o possuir. Estas 2 horas podem servir para se juntar a um amigo em modo cooperativo, visitar o multiplayer ou simplesmente jogar o início da campanha.

Destiny, que é o outro jogo com conteúdos exclusivos e que já é o novo IP com mais pré-encomendas da história, brindou os jogadores da PS4 com acesso prioritários às alphas e betas e promete receber também primeiro os conteúdos adicionais. Esta será a batalha entre o COD na Xbox ONE e o novo da Bungie na PS4. Mas para já, só temos um vencedor. A Activision, dona de ambos.

Vários jogos já anunciados regressaram também sobre a forma de trailer. The Order mostrou que o perturbado Nicola Tesla faz parte do jogo que cada vez mais nos assusta poder tornar-se num interminável cinemático onde, em vez de irmos urinar ou comprar mais pipocas, disparamos nos intervalos. Já Infamous: First Light promete algo mais, uma vez que é uma expansão de história (esperemos que com a mesma qualidade de um Left Behind) de um bom jogo, mas sem ser uma repetição total, uma vez que os poderes de Fetch são mais do que aqueles que Delsin já roubou na narrativa principal. Little Big Planet 3 com mais um trailer relembrou que é um port PS4 com mais personagens e sem Media Molecule.

 

As surpresas

7780’s Studio, a.k.a. P.T.Demo, a.k.a. Playable Teaser Demo, a.k.a Playable Teaser Demo of Silent Hills, a.k.a. Playable Teaser Demo of Kojima’s and Del Toro’s Silent Hills. O anúncio parecia algo desinteressante. Mas a demo estava disponível na store a partir daquele momento. Umas horas depois a primeira pessoa chegou ao final da demo (estupenda, diga-se de passagem, e de borrar literalmente a cueca) para descobrir que estava a assistir ao anúncio mundial em exclusivo na sua casa do próximo Silent Hill, agora com Kojima e com Del Toro aos comandos, e com Norman Reedus (de Walking Dead) ao leme. Não sabemos se isto será um exclusivo PS4, mas a demo que se tornou viral já levou pessoas a irem comprar uma PS4 de propósito para revelar todos os seus mistérios e colocar no Youtube.

The Tomorrow Children da Qgames (os criativos criadores da série pixel junk) mostra que a passagem para 3D não lhes tira nenhuma criatividade e promete um jogo com um ambiente fascinante que saído de um espéctaculo de marionetas, com personagens que procuram extrair minérios dos corpos de grandes gigantes caídos. Uma distopia pós-soviética, com colaboração inspirada em Minecraft, mas onde existe também lugar para a acção num indie que está a ser pago pela Sony mas onde os criadores dizem que estão a ter luz verde total para o risco. E isso nota-se, de forma bela, no trailer.

 

Para muitos, a subida ao palco de Michelle Uncell não foi nada especial, nem do seu “desconhecido” estúdio Wild Sheep Studios. O trailer de Wild, onde podemos assumir o papel de qualquer criatura viva provocou apenas alguns aplausos na sala. Mas alguns eram acompanhados de gritos de contentamento. Esses sabiam quem está por detrás de Wild: grande parte da equipa principal de Beyond Good & Evil. Se não podemos ter a sequela, que venha o melhor que eles conseguem e os deixam fazer.

Estavam ainda reservadas duas surpresas mas que deixaram mais dúvidas do que certezas. A Media Molecule está a adaptar Tearaway para a PS4 e para o Dual Shock, mas não nos parece que consigam o efeito da versão original da Vita. Não é simplesmente um port, e muito conteúdo será novo, mas o nosso instinto de jogadores experientes (que é tipo o do homem-aranha mas quando jogos menores estão por perto) disparou. O que também aconteceu com o novo exclusivo da Housemarque, que produziu o genial Resogun, mas cujo novo Alienation parece um Dead Nation com esteróides, ou seja, o sucessor espiritual do twin-shooter menos bem conseguido da companhia. Ficámos ainda a saber que a Ninja Theory está a desenvolver o Heavenly Sword 2 mas quer chamar-lhe Hellblade.

 

Cumprir calendário, a.k.a. Indies

Para além de um novo trailer de Rime que cheira tanto a Journey que ficamos com areia nos pêlos do nariz, a tradição de indies a estrearem-se na PS4 marcou a sua presença habitual. Os destaques, além de muitos outros jogos, vão para The Vanishing of Ethan Carter, Volume (do criador de Thomas was Alone) e o fantástico Hollowpoint. A Xbox 360 teve nos seus exclusivos digitais um dos melhores jogos de todos os tempo: Shadow Complex. A Paradox Interactive traz-nos agora Hollowpoint, um 2.5D shooter que parece o sucessor espiritual de Complex. Estejam muito atentas e atentos a este que promete.

Restam-nos as ports de jogos já famosos no PC onde pelo lado positivo estão a caminho Papers Please, e SNOW (entre muitos outros) e pelo lado negativo está DayZ cujo criador foi ao palco apresentar sem mostrar nada, provavelmente porque tem tantos bugs que não mexe. Devemos ter a versão beta na PS4 ainda este ano, e a versão final em 2018.

 

One more thing…

Esta frase era o momento mais esperado das conferências de Steve Jobs na Apple e era para este momento que estava reservada a surpresa das surpresas. Não tivemos one more thing na Gamescom, aliás já há muito tempo que nenhuma marca nos apresenta um one more thing significante. Foi apenas isso que faltou à Sony na Gamescom, já que de jogos esteve recheada. Ainda houve tempo para perceber que Bloodborne está impressionante como motor gráfico (pois já sabemos o que a casa Demon/ Dark Souls gasta em jogabilidade); que Kojima continua um tarado machista com as suas “gajas boas” nas caixas de cartão de Snake, e que Until Dawn foi reorientado para o lançamento na PS4 e com mais tempo para desenvolver esta aventura que nos parece beber do mesmo elixir criativo que a Telltale Games andam a consumir nos últimos anos.

 

No arranque da conferência o genérico mostrou formas muito orgânicas e dinâmicas a formarem os símbolos famosos do comando da PlayStation, intercaladas por imagens de pessoas felizes a fingirem que estavam a jogar em frente à câmara, ou seja, a fazerem figuras de parvas pois ninguém joga assim em frente a uma consola. As formas orgânicas eram a visão futura para a PS4, as pessoas estúpidas eram a Vita.