MUOZJo

Prólogo

“Não me lembrava destes bancos serem tão desconfortáveis”. Encontrava-me no Instituto Superior Técnico, na vigésima segunda edição da SINFO. O assento à minha frente esmagava-me os joelhos.

Era dia 24 de Fevereiro. Alguém morreu nesse dia, à minha frente.

Hélder Pinto preparava-se para falar, de camisa aberta no peito, mangas arregaçadas, sorridente, (um Steve Jobs autêntico, versão tuga). Eu tinha cá estado no dia anterior, numa palestra de Steve Huffman, co-fundador de Reddit. A sala era gigante; os organizadores sentaram-me no chão porque já não havia lugares, e chegaram muitas mais pessoas depois de mim. Quando Huffman terminou o seu discurso, choveram-lhe palmas para cima; chuva e trovoada; foi aí que tive noção da verdadeira dimensão da sala, e de quantas pessoas estavam nesta.

Estava a planear voltar quinta-feira para ver e ouvir Peter Sunde, co-fundador do Pirate Bay, naquela mesma sala; (e fui).

A postura à Jobs de Hélder Pinto foi desfazendo-se à medida que entravam mais e mais pessoas; o seu sorriso perdeu-se no meio de tanta gente. Quando Pinto começou a falar, e nos cumprimentou, intimidado, mas disfarçando, dei uma olhada à minha volta e reparei que estavam o dobro das pessoas na sala que ontem. “Casa cheia, wow…”; virou costas, juntou as mãos, olhou para o tecto, fechou os olhos, benzeu-se, e voltou-se de novo “…tudo bem disposto?”.

Mas devem estar a perguntar-vos: quem foi a vítima? Quem foi o assassino? Será que isto é uma brincadeira de mau gosto?

Pergunto-vos também, senhoras e senhores: tudo bem disposto? Espero que sim, e que ninguém leve a mal, que eu acho que até posso ser preso por causa disto.

Mesmo que seja de mau gosto, não deixa de ser uma brincadeira.

Capítulo 1

Pinto está a trabalhar em Overwatch; trabalhou em Crysis 2 e Crysis 3, e em Undersiege. Antes de continuarmos, façamos um ligeiro fast-forward – Hélder Pinto está – vamos largar o Imperfeito do Indicativo e dedicar-nos ao Presente, por questões estilísticas – está, dizia, mais à vontade entre outros devs, num painel que se seguiu à sua palestra, intitulado “Red vs Blue: Implicações socio-políticas de um sistema bi-partidário”.

O painel de discussão é moderado por Pedro Moreira Dias; a composição da cena evoca a última ceia de Cristo: Moreira Dias está no centro, à sua esquerda está Ricardo Flores Santos (Biodroid), Nuno Barreto (Titan Forged Games), e Nuno Folhadela (Bica Studios); à sua direita está Sérgio Varanda (Miniclip Portugal), Filipe Pina (Nerd Monkeys), e (outra vez) Hélder Pinto (Blizzard). Pinto numa ponta, Folhadela na outra, dois pontos entre seis, numa linha de “rockstar devs” portugueses: heróis do mar: heróis lusitanos de 2015 e arredores.

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Um destes senhores vai morrer; mas quem?

Antes disso, (rewind) – regressamos a Hélder Pinto, que nos diz: “Epá, como é que entro no círculo que é o desenvolvimento de videojogos?” – foi uma pergunta que ele se colocou a si mesmo, quando era mais novo. Pinto iniciou a sua carreira a fazer mods; deu exemplos de vários mods, mostrou como podiam ser interessantes, como podiam melhorar o jogo original, acrescentar-lhe conteúdo, como eram um bom ponto de partida numa carreira; mostrou um projeto que realizou quando era jovem, que usava o motor de Max Payne.

“Epá, é a partir daí que percebes que o futuro é o infinito, ou quase; podes fazer tudo, quase tudo”.

Pinto fala de técnicas de modelação, de truques, como usar a mesma textura para objetos diferentes, e diferenciá-los através de shaders.

Pinto fala de métodos de trabalho; de disciplina mental.

Pinto fala da Blizzard. Overwatch é jogado pelo staff da Blizzard todos os dias às 18h, conta-nos; “o problema de muitas empresas é que não jogam os jogos que fazem”.

Pinto mostra outro meme; a plateia ri-se outra vez, mas desta dá gargalhadas; o público está conquistado.

Pinto fala de Titan.

Fast-forward – Ricardo Flores Santos dá uma palmada em Nuno Barreto. Barreto tinha acabado de apresentar-se – rewind, (meio minuto, nem isso) – Barreto explica que a sua carreira foi uma experiência feliz, uma aventura, e que continua a sê-lo; que espera que a sua empresa continue a ter sucesso e (ri-se, como quem vai dizer um disparate) que um dia chegue ao mercado AAA; é neste momento que recebe a palmada de consolo nas costas.

Não imagino sequer o que está para vir.

Rewind demorado – Hélder Pinto mostra-nos um trailer de Overwatch, todo em CGI, e mais impressionante, em termos de animação, que qualquer filme da DreamWorks de hoje; trailer esse que eu ainda não tinha visto, e que pelos vistos a Blizzard já lançou há meses.

A plateia bate palmas outra vez. Fala de Titan; porque é que o Titan foi cancelado, Hélder? “Não vos posso contar muito, mas… descobrimos que não se pode fazer algo só porque faz sentido. Se queres fazer algo, epá, tem que ser com paixão; tem que vir do coração”. Senti-me inspirado, comovido; se lhe tivesse mesmo feito a pergunta que escrevi aqui, ter-me-ia esquecido dela.

“Tem que vir do coração”; nem suspeito o quanto esta frase vai assombrar as próximas horas, como um presságio; que vai ecoar na minha mente durante vários dias.

Capítulo 2

Um fast-forward  (um bocado menos demorado que o rewind anterior) – Moreira Dias quer falar de criatividade; Nuno Folhadela fez um curso na ETIC de três anos. Conta que a sua carreira começou num Mc Donald’s, e que depois foi trabalhar para um supermercado. Que só chegou onde está depois de muito esforço, e de vencer muitas batalhas; mas o que é importante reter aqui é que está a falar mal da ETIC, a explicar-nos que a ETIC não presta; e a seguir diz pior da GameInvest (uma empresa que causou danos (que ainda se sentem hoje (talvez irremediáveis)) à indústria de videojogos em Portugal); (parênteses (parênteses (mais parênteses))), Moreira Dias pergunta a Sérgio Varanda: “concordas que o que distingue hoje os jogos entre si é a criatividade, e não necessariamente a tecnologia por detrás?”.

Varanda acha que não, mas quer responder que sim. “Sim, a criatividade é… [fala baixo, não se percebe o que diz, e tosse]”, depois passa cerca de cinco minutos a falar de pormenores técnicos; e explica, de seguida, que o sucesso dos jogos da Miniclip dependem mais de tecnologia que de outra coisa. “Ah, esqueci-me de falar de criatividade, mas já falei demais, estou a roubar o tempo de antena”. Drop the mic.

Ricardo Flores Santos fala de C++ e de Marmalade. Moreira faz uma cara feia; “mas eu quero é mesmo falar de criatividade”, (dito por outras palavras, que não têm nada a ver com estas). Em retrospectiva, já tinha informação suficiente para suspeitar que algo ia acontecer.

Filipe Pina: “é aquela questão intemporal: de onde vêm as ideias?”.

Silêncio.

Pina: “Não sei a resposta, mas é engraçado. No outro dia eu e o meu sócio estávamos a falar e de repente tivemos uma ideia genial para um jogo; estávamos no metro, não era uma ocasião especial”.

Fast-forward. Pina: “Eu não olho tanto para os mercados assim: consola, PC, mobile, etc. Olho para o público, e para os ecrãs”.

Silêncio.

“Os ecrãs estão em todo o lado. Isto é um ecrã, aquilo é um ecrã”.

Silêncio ao cubo.

“Não é Microsoft, Sony, Apple; é: ‘quem é que está à frente ecrã?’; essa é a pergunta; e depois faz-se o jogo em função disso.”

Profundo; algumas pessoas abanam a cabeça. A minha dói; também abana.

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Capítulo 3

Há um clima estranho no ar. Continuo a desenhar bonecos por cima das minhas notas, sem remorsos.

Ligeiro rewind: Varanda comenta que “99% dos jogos mobile são falhanços”; que só há uma mão cheia de empresas que fazem dinheiro. Mais rewind: Flores Santos: “Cuidado da indústria mobile, que não é dito o suficiente: o mercado mobile está estagnado, e os jogos que fazem dinheiro são sempre os mesmos”.

Qual deles vai morrer? E Porquê? E Como?

(Santos continua): “quanto a ‘ser criativo’ [Moreira disfarça a euforia]: não façam logo empresas [Moreira regressa à tristeza], façam projetos. Experimentem, vejam como é que a coisa corre; aí sim, sejam criativos. Mas não façam logo uma empresa”.

Moreira dias vai matar Flores Santos. Só pode ser isso.

Santos explica que fica mais satisfeito quando alguém lhe apresenta um produto bem-construído, e que funcione, do que um produto criativo; “eu e ali o Folhadela [aponta para Nuno Folhadela] discordamos muito nisto; eu sou mais corporate que ele”.

Não, não. Folhadela vai matar Flores Santos. Só pode ser isso.

E Nuno Barreto? Barreto tem estado muito calado.

Micro-rewind: “eu sou mais corporate [leia-se: ‘mais sério’] que ele”; Folhadela não gosta do comentário; brinca, contra-ataca com gozo; faz um ou dois números de stand-up comedy.

Pina: “[ainda falando de empresas] não quero ser tão pessimista como os meus colegas: começarem sozinhos e aprenderem com os vossos erros também pode ser uma vantagem; destaca-vos no mercado de trabalho”.

Deixem-me explicar-vos uma coisa, antes de mais: como é que eu sei que vai morrer alguém? Não sei. Estou a escrevê-lo porque já aconteceu – mas naquele momento, neste momento, não aconteceu ainda; não sei.

Neste momento sinto, só. Algo está errado naquele painel. E embora ainda não o saiba, tenho razão.

Folhadela faz mais stand-up comedy, para de seguida contrapôr o que Pina disse (acabando por concordar com Santos): “mais vale ganhar experiência a trabalhar para uma empresa primeiro, e depois fundar uma; não comecem a vossa carreira por criar uma empresa”.

Pinto também vota em ‘trabalhar para uma empresa’. Explica que não fez formação académica, “não é preciso curso para ser-se contratado”, muitos colegas na Blizzard “não têm formação”; “é preciso, sim: trabalhar, ter um produto, mostrar coisas à empresas”.

Capítulo 4

Já adivinharam quem vai morrer? Aposto que Moreira Dias é o assassino.

(Varanda fala do perigo de fazer-se jogos de larga escala e AAAs. “Fazer o que sabemos fazer, e fazê-lo o melhor possível”).

Moreira Dias: “[dá um berro] e a criatividade“? É mais do que óbvio, não é? 100€ em Moreira Dias.

(Pinto: “Epá, o importante é aprender com os outros exemplos de fracasso…”). Mas Moreira Dias quer é falar de criatividade, de indies, de ideias novas – “Os gamers estão a valorizar cada vez mais o mercado indie?” – mas esquece-se que está a falar com devs, gente que ganha, ou tenta ganhar, a vida a fazer jogos.

Esquece-se ou não quer aceitar.

Quem é que vai morrer? Ricardo Flores Santos? Sérgio Varanda? (“Se uma coisa resulta [é para ser repetida até o público ganhar-lhe nojo]. É assim que se faz dinheiro. Ponto”: Flores Santos).

E a arma?

E Hélder Pinto? O que é que Pinto está a ali a fazer? Não está a representar uma empresa portuguesa pois não?

Implicações socio-políticas de um sistema bi-partidário”. Será que o título tem algum significado?

E Nuno Barreto, calado, num canto?

Capítulo 5, Último Capítulo

Alguns segundos de rewind.

(Moreira Dias: “Os gamers estão a valorizar cada vez mais o mercado indie?”)

Flores Santos, “Os indies são acarinhados pelo público e pela crítica. Mas se uma coisa resulta, continua-se a fazê-la até deixar de [fazer sentido]. É assim que se faz dinheiro. Ponto”.

((Moreira: “OK…”)).

Santos, “Não vale a pena correr atrás da inovação.”

(((Dias tira uma espada de debaixo da mesa))).

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Santos, “Isso dos indies é giro…”.

((((Moreira mantém a espada levantada no ar)))).

“…Os indies são acarinhados, e encontram-se novas fórmulas, fórmulas boas…

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(((((Dias: “OK, desisto”))))).

“Mas é para isso que existem: para encontrar fórmulas…”

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((((((Parênteses), (Dias: “…vou fazer seppuku”)))))).

“…E depois esses jogos crescem…”.

((((((((Moreira fecha os olhos)))))))).

O meu banco está mais desconfortável que nunca. Os meus joelhos berram.

“…Para se tornarem nos próximos Call of Dutys”.

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Stop.

Acordo.

Olho para o meu pulso esquerdo; e para o direito; intactos, (sou sonâmbulo).

O relógio está no esquerdo. Ainda faltam uns minutos para o painel acabar. Apanho a caneta que caiu ao chão, e volto a fechar os olhos.

Barreto: “não façam empresas. Fazer empresas por fazer é parvo”.

(Pedro Moreira Dias continua de braços abertos, no chão).