A Ubisoft Montreal associou-se aos criadores de Smart As… e Sillent Hill: Shattered Memories, procurando uma diferente abordagem e homogeneidade com o franchise Assassin’s Creed. Desta parceria nasce uma trilogia com novos protagonistas num mundo 2.5D com técnicas em aguarela, que passará pela China durante a queda da Dinastia Ming; pela Índia do império Sikh no séc. XIX; e pela revolução vermelha na Rússia.

Em Assassin’s Creed Chronicles: China vestimos a pele de Shao Jun, a última assassina da irmandade chinesa que teve como mentor Ezio Auditore e treinada pelo mesmo. Jun é movida pela determinação de vingança e para reaver uma caixa misteriosa que lhe escapa entre os dedos por cada vez que se aproxima. A história é uma espécie de Punisher mais astuto em que o único objectivo é fazer alguém pagar pelos seus crimes e numa retaliação de acontecimentos infelizes que transformaram a pessoa mais amável num temível assassino. Tem por outro lado uma característica de filmes dos tempos áureos de Jean-Claude Van Damme, vestido com um pien-fu a degustar um arroz chau-chau com os tradicionais pauzinhos de madeira num restaurante de cuisine cantonese, e em que alguém acaba por entornar-lhe a tigela durante o seu processo de luto.

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A voz pousada e sensual de Jun demarca-se da maioria dos títulos do género como se Glenn Close tivesse emprestado parte da sua personalidade. Mas o voice acting que chega a ser monótono e pouco dinâmico não suplanta a qualidade da direcção artística com influências da pintura oriental do séc. XVI, caprichado com impressionismo e com uma tendência mais contemporânea. É um quadro vivo. As aves que voam e desvanecem no leap of faith, a vegetação de cores verdes esbatidas, os fundos que conferem profundidade pelas montanhas junto à grande muralha ou pelo mar arquitectónico tradicional que perdura desde a Dinastia Tang. Do popular ao imperial, podemos ver desde os comuns suportes de madeira e os biombos aos telhados curvos dos templos e dos palácios dos mais abastados. As várias camadas de pinceladas à mão são requintadas com pormenores que só a mestria de uma mão talentosa e conhecedora desta cultura poderia estar preparada para interpretar.

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A fluidez nas acções e a liberdade nos movimentos sempre foi uma grande aposta na série Assassin’s Creed. O escalar de estruturas ou edifícios, o combate, a aproximação stealth, a evasão e os esconderijos estão muito evidenciados, com níveis rigorosamente organizados para que sejam percorridos sem quebras de uma ponta à outra. O que permite terminar esta primeira parte da trilogia sem maior esforço, que posteriormente desbloqueia uma segunda e terceira playthroughs mais dificultadas. Podemos optar por terminar um nível como um fantasma e sem matar um só inimigo ou podemos escolher por decorar as paredes de vermelho carmesim e esconder os corpos que se acumulam ao longo do caminho. O vermelho chumbo espalha-se como num movimento rápido e raivoso de um pincel contra a tela, parecendo querer conotar-se ao perigo, ao poder e à violência. Principalmente à violência. É um reforço da tentação vingativa de Jun, que usa os seus dotes de artes marciais com arsenal digno de uma ninja. Uma ninja perigosa e estranhamente sensual.

Com infortúnio, não temos nada de novo, nada de inovador, nada que cative sem ser a liberdade de movimentação e a magnífica direcção de arte. É uma das piores histórias contadas nos videojogos entre assassinos e templários, ou outra história qualquer, que visa apenas a vingança. A Jun é daquelas personagens tão obcecadas em vingar-se pela erradicação dos outros assassinos pelas mãos do templário Zhang Yong, como Van Damme teima em ficar no ringue.

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O melhor: Direcção de Arte; Fluidez de movimento e combate responsivo.

O pior: A história; monotonia de diálogos; falta de personagens marcantes;

Assassin’s Creed Chronicles: China é um título que arrisca muito pouco. Tem uma direção de Arte encantadora, a jogabilidade é precisa e afinada com bastante fluidez, mas peca imenso com a indesculpável história monótona de um mau B-movie (não dos que são tão maus que acabam por ser bons). É mais um jogo de plataformas 2D para somar à colecção digital e óptimo para fãs de Assassin’s Creed que procuram novas aventuras entrelaçadas na memória de Ezio Auditore. Aguardemos pelos próximos dois jogos da trilogia para saber se esta primeira parcela da história é apenas o levantar do véu para algo mais… majestoso.

 

Versão testada: Xbox One. Também disponível para PS4 e PC.