A morte nos videojogos tem sido uma característica explorada e redesenhada ao longo dos tempos e por coincidência (ou não) jogos que exploram esta ideia também têm crescido em popularidade. Jogos da série Souls influenciaram a forma como Shovel Knight aborda a morte e cada vez menos se proporcionam situações onde o jogador dispõe de um lifecounter para tentar exactamente a mesma secção, principalmente por ser uma decisão antiquada e migrada das máquinas de arcada.

Roguelike define-se como um subgénero de jogo que envolve de alguma forma geração aleatória e morte permanente, ainda que de alguma forma exista progresso. E que género melhor para redesenhar a morte como este?
The Swindle é um roguelike bastante peculiar. Dominá-lo consiste em, tal como jogos da série Souls, ter a noção exacta do que conseguimos ou não fazer a cada momento e quando a noção exacta é substituída por expectativa, damos-nos mal. Meus amigos, e qual é desta vez o contexto em que lidamos com esta filosofia?
Encarnando a pele de um ladrão novo cada vez que morremos, o objectivo é assaltar uma casa por dia para conseguir dinheiro suficiente para investir nas skills necessárias para executar The Swindle num intervalo de cem dias, caso contrário, ser ladrão passará a ser uma actividade impraticável devido a um sistema de segurança implantado pelo governo. Cada casa tem uma morada e só é visitada uma vez, num único dia (supomos que a morada sirva de chave para a geração automática das casas que assaltamos). A qualquer momento podemos voltar à cápsula que nos levou à casa a assaltar e voltar com todo o dinheiro roubado, isto é, se conseguirmos roubar e voltar à cápsula sem morrer. Sermos vistos implica que dentro de um pequeno espaço de tempo a polícia vá à nossa procura pela casa, e aí, morrer torna-se bastante fácil. Morrer leva ao desaparecimento da personagem, tal como todo o dinheiro surripiado naquele dia. Morrer ou retornar à cápsula ditam o final do assalto e a passagem para o dia seguinte, sendo que se retornarmos à cápsula levamos connosco todo o dinheiro que encontrámos até à altura.

Esta noção de responsabilidade com cada morte é intensificada pelo contador de dias restantes escrito em amarelo sobre preto no ecrã, com um tipo de letra concordante com todo o artstyle steampunk e banda sonora a fazer pandam! Graficamente, The Swindle é imaculado. Tem tudo para envolver completamente o jogador no seu estilo de jogo stealth constantemente recheado de situações de risco/recompensa. Morrer tem penalização a longo e a curto prazo, o que faz com que tenhamos mais cuidado. Morrer e tentar do início também não é uma opção, visto que assim que tentamos recomeçar, a casa a assaltar é diferente e um dia passa. A dificuldade dos assaltos vai aumentando gradualmente até o jogo se tornar praticamente impossível e aí, quando finalmente achamos que vamos conseguir e estamos prestes a gritar vitória (e consequentemente acordar a nossa família inteira às cinco da manhã), morremos. E estávamos no último dia. E agora temos de começar tudo de novo, desenvolver a skill tree desde o principio e jogar mais infinitas horas.

Tem defeitos. Algumas foram as vezes que morri sem saber porquê ou algum inimigo teve um comportamento inesperado. Tudo isso é irrelevante quando um jogo tenta ser verdadeiramente difícil usando geração automática para não se tornar previsível, um passo em frente na direcção correcta. O que em outros jogos difíceis é contornado com a previsibilidade aqui não vale. Dizer “Get Gud!” a quem não quer decorar padrões sempre foi um golpe baixo. Querem subir na minha consideração, façam o Swindle, depois falamos. Eu não consegui, mas estive quase (por essa altura, já tinha feito “New Game” umas 40 vezes e julgava que iria ser o último). Estive naquele tipo de quase que é uma questão de segundos. Aquele quase que nos faz arrancar cabelos de tão próximos que estivemos. F%da-se.
Também há a possibilidade de eu ser um verdadeiro mau jogador, é verdade. Mas por todas as horas que este jogo me manteve completamente amarrado ao ecrã, de todas as vezes que cheguei a casa a pensar nele, pela riqueza de gameplay, a INCRÍVEL banda sonora e aspecto espetacular, tudo isto num consenso de perfeita noção existencial por cada uma das suas partes e completamente ciente de sua identidade, The Swindle é dos jogos mais inovadores (e divertido, e frustrante) que joguei este ano. Vão jogá-lo!
The Swindle está disponível para Windows e Mac no Steam, Playstation 3, Playstation Vita, Playstation 4 e Xbox One. Estará disponível para a Wii U a partir desta Quinta-Feira, dia 10 de Setembro. Analisada a versão Windows.














