Post Scriptum #5

Ah! Nostalgia. Memórias. Saudade. Não deveria ser surpresa que coisas pelo qual nutrimos um sentimento de desejo ou de retorno são coisas que vendem. É a esse sentimento de querermos ver algo novamente, com uns óculos figurativos que engrandecem a realidade até um ponto em que a deturpam, que os remakes existem e têm pelo menos um sucesso moderadamente garantido, seja nos videojogos ou no cinema – se bem que a conceito de remake é inerentemente diferente nas duas artes, mas isso é uma conversa para outra altura.

Quando me pediram para escrever um Post Scriptum, imediatamente decidi para mim mesmo que tinha de ser um jogo PS2, a minha consola preferida, e ela teve tantos bons JRPGs que tive de parar um momento para pensar. A resposta chegou-me em pouco tempo.

Depois da decepção que foi Suikoden IV (que agora será referido como SIV), a expectativa para o jogo seguinte era bastante baixa. SIV não era um jogo de todo horrendo, mas tinha sofrido pela sua pobre execução, por ir contra a narrativa habitual da série, muito centrada em maquinações políticas, em prol de uma narrativa que opunha um mal genérico e sem rosto, num setting marinho e com uma temática quase piratesca. Para muitos a maior queixa do jogo reside mesmo nas viagens de barco, onde reza a lenda que a terrívelmente lenta mecânica de deslocação marinha era capaz de induzir narcolepsia ao marinheiro incauto. Felizmente o jogo seguinte não desapontou.

Suikoden V cover

Suikoden V (que agora será referido como SV) veio retomar as rédeas da série que o SIV tinha largado. Finalmente estavam de volta as maquinações políticas monárquicas, estava de volta a realeza, estava de volta o castelo. Para quem está a ler este texto (e não tenha jogado o jogo) poderia perguntar: “Então mas isso não é o setting mais comum para um (J)RPG?”, ao qual eu poderia responder “É, mas isso nem sempre é mau. Principalmente quando é bem executado.”. Tal como em muitas histórias do género, o nosso herói é um príncipe, só que este é um príncipe num reinado matriarcal. Em Falena, as mulheres é que mandam e são as filhas mais velhas (e não os filhos) que ascendem ao trono para governar. Em vez de viverem num Kingdom vivem numa Queendom (e apercebo-me agora que não existe uma palavra equivalente em portugês, que seja o oposto de Reinado). Os homens acabam tomando um segundo plano nesta sociedade para as mulheres – um exemplo disso reside no facto do príncipe ter uma guarda-costas em vez de um guarda-costas. Em jeito Darwinesco e quase primitivo, o Rei é escolhido através de um enorme torneio marcial – os Sacred Games – onde o vencedor ganha o direito a casar com a princesa, como tal se tratasse de um ritual para seleccionar o melhor espécime genético do género masculino – que funcionaria se não existisse a possibilidade de nobres e abastados poderem contratar campeões para combater em seu lugar.

Antecedendo cronologicamente os três primeiros jogos, o setting e a história são ambos bastante interessantes, muito graças ao grande e desenvolvido elenco de personagens. Uma constante da série Suikoden é ter haverem 108 Stars of Destiny que são, muito simplesmente, 108 personagens que podemos juntar ao nosso grupo na nossa demanda. A maioria destas personagens pode andar com a nossa party, por isso a variedade que temos para construir um grupo coeso são grandes – se bem que muitos acabam escolhendo consistentemente entre um pequeno número de personagens. Tal como na vida real, alguns são bons a combater e outros não tanto, por isso faz sentido que existam personagens mais fortes que outras, e que muitas continuarão a ser por mais que possamos investir nelas – o que não nos impossibilita de forma alguma podermos acabar o jogo com personagens sub-óptimas, por isso essa escolha existe de facto.

Com um elenco tão vasto, é natural haver personagens se dão melhor entre elas e que interagem melhor em combate uns com os outros, podendo executar ataques combinados entre elas. O combate em SV é o habitual combate por turnos que já é comum ao género, onde controlamos um grupo até 6 personagens e onde o posicionamento táctico tem relevância (as formações tácticas em combate dão bónus ao grupo inteiro ou a certos membros). A magia também tem um papel importante no combate, bem como na história. No mundo de Suikoden a fonte de toda a magia advém de runas antigas e praticamente qualquer pessoa consegue usar uma, engravando-a numa mão ou na testa e possibilitando-a de usar o poder dessa runa – podem ser feitiços, habilidades especiais ou até poderes passivos. Essas runas descendem de 27 runas originais, chamadas de True Runes, que estão perdidas ou fazem parte de tesouros nacionais de uma nação. Falena tem como seu tesouro a Sun Rune, uma runa de poder extremo, que pode igualmente garantir tempo próspero e apropriado para a agricultura, como pode queimar tudo à sua volta e transformar qualquer local num deserto em pouco tempo – esta runa é o catalisador que coloca a trama de SV em movimento.

Para além do combate em grupo, existem também duelos. Os duelos desenrolam-se atraves de uma espécie de “papel, pedra, tesoura”, em que temos de tentar adivinhar que tipo de acção o nosso oponente vai fazer: Attack, Guard e SpecialAttack bate Guard, Guard bate Special e Special bate Attack. Bastante simples. Esta acção é normalmente indicada pelo que o nosso adversário diz antes de agir e alguns fazem-no de forma quase flagrantemente óbvia…

 

…e outros nem por isso.

 

Para além de combate em grupo e do duelo individual, há também combate entre exércitos. Neste tipo de combate podemos assignar personagens a unidades para as tornar mais fortes e adicionarem-lhes ataques especiais e magia. Existem três tipos de unidades: Infantaria, Cavalaria e ArqueirosInfantaria é forte contra Arqueiros, Arqueiros são fortes contra Cavalaria e Cavalaria é forte contra Infantaria – muito semelhante ao modelo “papel, pedra, tesoura” dos duelos, so que aqui os números também fazem a diferência (por exemplo, 500 Cavaleiros batem 100 Arqueiros, com baixas consideráveis). Este combate é mais uma questão de equilibrar a força dos números com a eficiência de uma unidade contra outra.

 

Já faz 10 anos desde que SV foi lançado e ainda não saiu um título novo que dê continuidade à série. Entre 2006 e 2016 apenas sairam 2 spin-offs da série: Suikoden Tierkreis para a Nintendo DS e Genso Suikoden: Tsumugareshi Hyakunen no Toki (que nunca saiu do Japão) para a PSP. Retomando o primeiro parágrafo deste artigo, mais do que revivalismo e remake-ismo, a nostalgia pede continuidade – algo que é particularmente verdade quando não existiu uma conclusão (não é à toa que o Kickstarter do Shenmue 3 teve quase 70 mil backers) – e mesmo quando a razão não se envolve querer continuidade por não ter havido uma conclusão da história, fica em nós a sensação que o mundo de Suikoden poderia ter mais para contar.