Pensei bastante antes de escrever este artigo crítico, cujo escopo que o origina é a minha aquisição de um novo computador para gaming, e que se tornou um autêntico pesadelo nos últimos meses. Pensei bastante se este não seria um artigo de bitching, ou uma necessidade de desabafo desnecessária para os outros. É certo que a psicologia consegue explicar em centenas de livros a ligação entre a escrita e a frustração, mas acompanhem-me numa tentativa de entregar um pouco mais de utilidade ao artigo. Haverá por certo alguém a ponderar sobre situação similar, a matutar componentes na sua cabeça, desejosa de dar um salto para o desconhecido. Deverá alguém que já tem uma consola de última geração adquirir um computador mais poderoso vocacionado para jogos?

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Do conjunto de pessoas que lê os nossos artigos, ou do conjunto de pessoas que a web irá aqui conduzir por uma forma ou outra, existem de certeza os militantes da PC Master Race, os Sonyistas, os Nintendistas, as fan girls e os fan boys, os de esquerda e os de direita, os do Benfica e os do Sporting, os da Ford e os da Wolkswagen. É essencial por essa razão separar já aqui uma linha. Estou com vocês todos e, ao mesmo tempo, não estou com nenhum. Desde muito gaiato que aquilo que eu gosto é de jogar e, assim como não queria saber se a bola era da Adidas, da Nike ou da Decathlon quando tentava fintar alguém na rua; ou se o coito ficava na entrada do prédio ou num poste de iluminação (that’s what she said), também não seria agora quase a chegar aos 40 anos que iria levantar bandeiras por esta ou aquela configuração de peças de eletróncia dentro de uma caixa com ou sem marca e logótipo na face.

fanboy

Passemos então aos factos e emprestemos a este texto o estilo do diarista; daquele que pratica o ensaio leve com o que se vai passando diariamente na sua vida. Façamos disto o diário de bordo de quem decidiu seguir os conselhos de uma suposta sabedoria das massas. Pois que isto do senso-comum tem muito que se lhe diga e corre nos meandros dos chamados gamers – entenda-se como quem gosta de jogos como paixão – que se juntarmos a configuração ideal de peças no interior de uma caixa, vamos atingir uma relação preço / qualidade no acto de jogar inigualável por qualquer outra abordagem ao mundo dos jogos.

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Em meados de Setembro saí orgulhoso da loja Chiptec com um novo computador entre braços e com a carteira bem mais vazia. “Várias consolas” vazia. A loja foi a escolhida por ser uma das mais fiáveis em Portugal, numa curta lista onde também se encontrava a Globaldata e a Alientech. A Chiptec foi a preferida mas acredito que o resultado seria idêntico tivesse sido outra a escolha. Um amigo entendido nestas andanças ajudou-me a escolher a configuração (que pode ser consultada no final do artigo) e a loja até acordou em oferecer a montagem da máquina em troca de um banner no Rubber Chicken. Confesso que conduzi até casa com uma aura de poderoso a gravitar em meu redor, como se na bagageira levasse um tigre que esperava ser solto para desferir as suas garras de alta definição nos settings máximos dos jogos. O que se passou a seguir parece saído de um daqueles momentos dos concursos musicais quando o júri a revirar os olhos já se prepara para arrasar uma candidata, mas quando esta começa a cantar é como se tivéssemos convocado todas as divas do passado. Só que no caso do meu computador foi ao contrário. Uma mulher mega produzida da qual esperávamos uma explosão vocal, acabou por revelar-se o pinguim do Toy Story 2.

Durante a instalação do Windows 8 Pro já estavam a surgir crashes, freezes e ecrãs azuis. Foram precisas 3 instalações de raiz até uma delas seguir sem qualquer problema de uma ponta a outra. Depois foi necessário repetir mais 2 vezes o processo todo, agora com o upgrade do Windows 10. Depois de um dia inteiro e longas horas noite dentro, quase madrugada fora com medo de ouvir os primeiros pássaros, consegui uma instalação limpa do Windows 8 seguida do upgrade para o Windows 10 sem esta ter sido interrompida por um crash que me obrigasse a recomeçar o processo. Ao instalar as drivers repetiu-se o processo infernal. Ecrã azul aleatório; restart à máquina; limpeza da instalação de drivers mal sucedida; nova tentativa de instalação. Tudo instalado, e a máquina continuava a desistir, nos momentos mais aleatórios, umas vezes ao fim de uma hora, mas muitas ao fim de um minuto.

nevergiveup

A máquina voltou à loja. No início levantaram o sobrolho sem vontade de verificar o que se passava. Na verdade, e com toda a razão da parte da empresa, eu não tinha pago a montagem da máquina. Lição: há um caminho muito perigoso numa parceria de hardware e que é este, quando o hardware falha. Conclusão a retirar da lição: não pedir parcerias. Nota que isto não é uma crítica à loja que tem toda a autoridade para não se comprometer por uma máquina cuja configuração não foi escolhida por eles. Aqui chegamos ao maior problema de montar um PC para não entendidos: demasiada escolha. O que deveria ser um ponto positivo acaba por ser um ponto que conduz a muita confusão e opiniões radicalmente diferentes. A máquina é referenciada como não tendo problema nenhum, e na loja os técnicos reinstalaram todas as drivers e limparam tudo o que não era necessário. Chegamos a casa e:

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Desde Setembro até hoje a máquina porta-se assim. Desde que comecei a escrever este texto já fui obrigado a reiniciar 3 vezes e não me parece que vamos ficar por aqui. Em redor da mesma, já andaram várias pessoas, incluindo uma nova visita – desta vez paga – à Chiptec que novamente afirmou que nada se passava – levando-me a crer que a máquina só quer falhar na minha presença como se fosse um fantasma que aparece apenas quando ninguém está a olhar. Amigos com muito boas capacidades técnicas assumiram o controlo remoto da máquina e cortaram, colaram, apagaram, reinstalaram, levaram aos limites, e uma série enorme de outros protocolos informáticos que mais pareciam saídos de um bloco operatório. Eu olhava para o meu monitor onde – qual poltergeist – outros mexiam no meu computador e lá dizia para mim – com a motivação do copo meio vazio – que aquilo não iria resultar.

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Houve um dia que se assemelhou uma imagem bíblica do sol a raiar pela primeira vez após o dilúvio. Resolvi desligar-lhe o teclado Apex Raw e ligar um teclado normal sem qualquer luz ou botão especial. A máquina resolveu curar-se. Era o milagre das rosas, mas com zeros e uns transformados. Era como se os glutões do Presto tivessem invadido a máquina, ou aqueles bichos dos anúncios da Sensodine, do Listerine ou do Actimel. Até conseguia visualizar animações 3D dos componentes da máquina cheios de problemas e de criaturas com um sorriso a limparem os mesmos. Durante uma semana, a máquina crashou duas vezes. Isto era o mesmo que alguém conseguisse curar-se de uma doença terminal e tossisse uma ou outra vez. O mundo voltava a ganhar alguma harmonia.

valley

Foi então que…

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E voltou tudo ao mesmo. Era melhoria passageira, aquele momento após meses de tosse alérgica em que parece que nos curámos, apenas para voltar a cuspir os pulmões nas semanas seguintes. Eu volto a falar com os entendidos e cada um dá uma opinião. Em relação a opiniões sobre o que poderá estar errado com a minha máquina e como o resolver, posso comparar com segurança que se a solução para o problema tivesse uma cor já me tinham apresentado à frente todo o catálogo Pantone ou a escolha disponível para interiores da Robbialac.

E chegamos finalmente ao problema de montar um PC às peças. Se correr mal, corremos o risco de nunca saber o porquê. Tentar descobrir, pode envolver custos elevados e mesmo assim não nos dá garantias. Comprar um computador já configurado por uma marca poderá resolver o problema? Sim. Mas não era o objectivo principal chegar à tal relação qualidade preço? Muitos dizem-me: troca este componente X por este Y, e se tens a peça XPTO 23 mais vale fazeres parelha com a XPTO 24. E quanto me custa esse teste? E o que fazer às peças anteriores? Montar um computador por peças fez lembrar-me as aulas de Ciências da Comunicação em que andámos a debater o conceito de entropia.

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Mas o custo maior não é o custo financeiro. Mesmo que esta máquina tenha ficado perto do preço de 3 consolas de última geração, o maior custo tem sido o custo de tempo. Nas horas, dias, meses que passaram a tentar resolver o problema, muitas horas de jogo não aconteceram. Curiosamente, a máquina tem menos crashes quando se está a jogar. É como se o tigre tivesse aquela doença das cabras que têm os espasmos. Quando está concentrado não cai para o lado, mas é alguém gritar-lhe alguma coisa quando está mais sossegado e é vê-lo a esticar as patas todas. Até sem ninguém lhe tocar ele desfalece e desmaia, embora mesmo freezado continue a emitir uma lamúria vinda das suas entranhas – neste caso o disco rígido. Não deixa de ser curioso que mesmo quando a máquina vai abaixo ou quando nada está a acontecer o disco não pare quieto, como se andasse em stress com algo para resolver sem o saber como (sim, já fizemos todas as verificações ao disco). Tenho dias que me apetece deixar o disco numa consulta de terapia ou simplesmente olhar para ele, afagá-lo e dizer-lhe em tom reconfortante: That’ll do pig, that’ll do.

E assim abandono a minha lista de 700 jogos no Steam, abandono os 60 frames por segundo em Ultra, e sento-me sossegado no sofá com o comando da PS4. Olho de vez em quando para a torre do PC, vejo-o a crashar parado no desktop, e fico triste. Gostava que ele me desse o mesmo conforto que as consolas dão. Que me deixasse aproveitar a sua força e mostrar-lhe o que é capaz e de como pode correr os jogos no modo: muito bonito. Voltarei lá amanhã quando estiver menos cansado de reiniciar a máquina. Haverá mais dias, a luta continuará provavelmente sem fim. Mas acabo por voltar os olhos para a televisão, onde a máquina que não corre os jogos em x e y, e que não tem as mesmas capacidades de MXAAzFXXB_aliasing37veryhigh acaba por me dar aquilo que eu preciso: o acto de jogar sem preocupações. Se alguma coisa correr mal basta levar à loja e de lá regressa sem problemas, ou substituída por outra.

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A todas e todos aqueles que nunca tiveram esta experiência – e que não sejam dotados de capacidades e conhecimentos avançados de configuração de hardware – o meu respeito. A todas e todos aqueles que quando lerem a configuração abaixo acharem que tudo se resolvia se mudasse isto e aquilo, ou que não deveria juntar aquele com aqueloutro, é exactamente sobre isso que este artigo se refere desde o início. A todos aqueles que têm consolas de última geração e querem experimentar montar um PC por peças, quero ainda acrescentar que quan…

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Nota do autor, já em desespero: O PC apresentou 4 ecrãs azuis, e freezou mais outras duas vezes sem qualquer ecrã azul durante a escrita deste artigo. Após a escrita do artigo o autor foi jogar na sua New Nintendo 3DS XL que nunca crashou na vida, à semelhança de todas as outras consolas anteriores da Nintendo ao longo de muitos anos de jogo.

Configuração do PC: Windows 10 Pro 64 bits; AMD FX 6350 Black Edition 3.9GHz 14MB BOX SKAM3+; ASRock 970 Extreme3 R2.0 AMD970 SKAM3+; Kingston DDR3 HyperX FURY Black 2x8GB 1866MHz Cas10; Msi GeForce GTX970 Gaming 4G 4GB GDDR5 PCI-E; Raijintek Aidos Heatpipe CPU Cooler – 92mm; Cooler Master G650M 80PLUS Bronze; Seagate 1TB Solid State Hybrid 3.5 SATAIII 64MB (6GB/s); Deepcool Tesseract BF USB 3.0 – Black