É irónico que há menos de 10 meses eu tenha decidido regressar a Police Quest, esse bastão dos jogos de aventura que constituiu um dos meus alicerces enquanto jogador. E depois de mais de vinte anos de o ter jogado de sentir-me de repente preso, sem saber como avançar no jogo, esquecendo-me de outros tempos, em que os manuais e outros documentos impressos que acompanhavam os jogos (e tantas vezes fotocopiados como companions das cópias menos lícitas que circulavam de mão-em-mão) traziam informações obrigatórias para que pudéssemos progredir no jogo. Uma espécie de sistema anti-cópia primitivo que trazia algo de charmoso à própria consciência de possuir fisicamente um jogo.

As saudades de Police Quest III.

As saudades de Police Quest III.

Meses depois deste meu reencontro com o primeiro jogo co-produzido por Jim Walls, o Leonel Ferreira partilhava connosco eufórico a chegada da primeira build de um projecto de Kickstarter de sucesso: This is the Police, um sui generis jogo de aventura e corrupção que bebe das decisões dos jogadores como bússolas morais do protagonista, e que vive num espectro ético diametralmente oposto ao “simulador” que Police Quest nos deu.

Neste ano de 2016 em que os astros se alinharam e dois estúdios distintos parecem trazer homenagens diferentes a esse clássico quase-trintão da Sierra, mas ambos, curiosamente, a caírem numa vertente mais cinzenta da moralidade do nosso protagonista, que vai bem mais longe do polícia exemplar que os muitos buddy cop movies dos 1980s nos apresentaram. E pouquíssimos meses depois de This is the Police ser lançado em Early Access eis que nos chega a possibilidade de antever um jogo a explorar o mesmo setting, um Police Quest menos orientado para o lado visível da lei.

A segunda ironia deste artigo, que ficou na gaveta duas semanas enquanto tentava fazer aquilo que um humano normal apelida de descansar, é que ontem saiu um Humble Bundle comemorativo da chegada dos jogos clássicos da Sierra ao Steam. E se não o compraram ainda, façam-no que é verdadeiramente obrigatório.

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Em Beat Cop oscilamos entre a gestão do nosso dia de trabalho e uma série de tomadas de decisões que têm impacto nas diversas forças-vivas do bairro e na nossa própria carreira. Logo no primeiro dia na nossa nova esquadra somos atirados para a rua com um objectivo simples: multar pelo menos 20 carros por um rol de situações, desde estacionamento abusivo, passando por problemas com faróis e matrículas falsas. É aqui que entra o primeiro problema de gestão de tempo: o nosso dia de trabalho equivale a um número definido de minutos (reais) que estão sempre a contar. E à medida que atravessamos de lés-a-lés a rua bidimensional que vai ser a nossa “casa” daqui para a frente, percebemos que um dia de trabalho não chega para tudo o que queremos fazer. Conseguimos correr, mas rapidamente vamos ficando cansados, e temos de fazer pausas para nos alimentarmos.

O primeiro dia de trabalho é de longe a nossa melhor apresentação a todos os meandros do jogo. Contactamos logo com um representante da Cosa Nostra local, que nos dá a entender que poderá ter utilidade para um polícia que queira ganhar uns trocos extra. Somos chamados no comunicador: houve um esfaqueamento próximo e começamos a interrogar as possíveis testemunhas oculares. Resultado: ninguém viu nada. Seguimos no “giro” para multar o primeiro carro, e o dono aproxima-se de nós para nos ameaçar ou para nos tentar “untar” as mãos. E nestas múltiplas escolhas que vão ocorrendo é que vamos gerindo o nosso profissionalismo, o cumprimento dos objectivos interpostos pelo Capitão e a gestão do nosso tempo e das diversas facções do bairro.

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Antes do segundo dia começar percebemos que temos uma dívida imensa cujo dia de pagamento está para breve, e este é o empurrão obrigatório para que nos corrompamos. Apesar do jogo estar ainda em Early Access, quero perceber se é possível, ainda que extremamente difícil, conseguir cumprir com os objectivos e fazer muito dinheiro extra apenas com bonificações da Polícia, sem nunca recorrer a trabalhos mais “sujos”. É que dentro do curto tempo em que um dia decorre mal tenho tempo para cumprir com os objectivos da esquadra, o que somados aos pequenos biscates ilegais que vamos arranjando, como ameaçar a pessoa x ou servir de correio-da-droga, lá vamos conseguindo amealhar um pouco mais do que o esperado.

Há muitas nuances, muitas interacções, e acima de tudo, e contrastando com o clássico da Sierra, muito espaço para ser um dos polícias mais corruptos da história da cultura. Não tanto quanto o Gary Oldman no clássico de Luc Besson, mas está lá perto.