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A vida tem poucas certezas, e há para quem esse facto seja motivo de regozijo, de felicidade de alavanca de funcionamento para o dia-a-dia. Dessas poucas certezas os impostos são algo inevitável mas apenas para algumas pessoas, e a morte… bem… a morte é o que nos espera a todos, e que chegará com ou sem aviso sem qualquer tipo de juízo individual.

Uma outra certeza que existe é que chegada a rentrée cultural assistimos ao lançamento de mais um FIFA, sempre com a numeração do ano posterior, a marcar Setembro como um espécie de feriado pagão futebolístico.

Inovação de ano para ano?

Uma boa forma de percebermos o real pouco impacto anual de cada jogo de desporto seria fazer o que muitos publicitários fizeram nos anos 1990, com os anúncios dos detergentes. As provas-cegas para “donas-de-casa” (onde andavam os homens nesta altura?) que tinham de conseguir adivinhar qual o detergente apenas pelos resultados obtidos.

Peguem nesta ideia das provas cegas e levem-na para o FIFA. Convidem um jogador a experimentar duas ou três edições sucessivas sem saber qual é e a ter de as adivinhar.

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E é claro que falo nisto a pouquíssimo tempo de ter sido lançado FIFA 17, a versão que, como muitos dizem, mais novidades traz. Que na prática se traduzem apenas na introdução do modo The Journey (sobre o qual falaremos mais tarde) e a mudança de motor de jogo.

Os jogos de desporto e a periodicidade

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Pensando na época em que a série começou a ter uma periodicidade anual, compreendia-se uma série de limitações técnicas que assim o obrigavam. Falamos é claro de uma altura em que a série de FIFA, e o mercado dos videojogos como um todo não possuíam a dimensão colossal que possuem hoje, um período em que as equipas e as licenças eram limitadas, mas acima de tudo, uma era em que jogos eram enviados para retalho finalizados, com o seu desenvolvimento fechado e sem qualquer possibilidade de alterações.

É claro que nessa altura desejávamos que os nossos cartuchos e posteriormente os discos reflectissem as flutuações do mercado, mas um jogo que via a luz do dia permaneceria inalterado até ao final da sua “vida”.

O salto tecnológico permitiu que os servidores da EA mantenham o jogo de FIFA actualizado quase ao segundo. Agora a composição das equipas não reflecte só a as flutuações do mercado, mas consegue inclusivamente processar a informação de lesões e indisponibilidades diversas dos jogadores, aproximando a experiência do realismo da roda-viva do futebol.

A desejada utopia

Então se o jogo permite este nível de actualizações, e se, exceptuando raras excepções, tudo o que difere entre versões diferentes do FIFA, é a modelação dos jogadores e a inclusão das equipas, porque é que a EA não se limita a cobrar o valor de “expansão” aos jogadores para terem acesso ao mais recente jogo? Bem, como nem eu, nem nenhum de vós que nos lê deve ser ingénuo, a resposta para a minha aparentemente simplista e utópica pergunta é simples: dinheiro.

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É óbvio que dentro do modelo de negócio que a gigante EA tem, decidir enveredar por esta via significaria um decréscimo de milhões de dólares em receitas. Basta vermos que só este ano o FIFA vendeu aproximadamente 40 vezes mais do que o seu concorrente PES no Reino Unido, aproximando-se de 1,1 milhões de cópias vendidas só na primeira semana.

É verdade que seria uma tremenda burrice económica deitar tanto dinheiro a perder, mas por outro lado, e seguindo máximas capitalistas: é o mercado que define a oferta e a procura de cada produto. A EA nunca deixará cair o modelo de negócio actual se de ano para ano o número de vendas aumenta, ao qual ainda podemos somar os milhões ganhos com microtransações do modo Ultimate Team. E nunca o deixará porque não há reflexo do mercado de que é isso que se quer, e enquanto os muitos milhões continuarem a entrar pelos cofres da Electronic Arts esta realidade não só basta, mas é altamente lucrativa.

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Isto numa era em que um update pago a 1/6 seria o mais justo para o consumidor para as diferenças pouco significativas de versão para versão, apesar da quase totalidade dos compradores o fazr cegamente e sem reclamar. Mas o dinheiro e a máxima do “menos por mais” falará sempre mais alto, e empresas como a EA sabem que pouco têm de fazer para receber o esperado retorno financeiro de um produto como o FIFA 17. E e o embuste de pagar anualmente full price por algo que pouco mais é que uma ligeira recauchutagem de um produto prévio vai sempre ter a discussão sonegada sob os soundbytes intrusivos da suposta guerra fratricida entre FIFA e PES. Não importa que em extremo o público seja mal-servido versus o dinheiro que investe. O que importa é gastar tempo a tentar perceber quem é que ganhou este ano, se a EA ou a Konami. Curiosidade: ganham ambas e perdemos todos. Mas isto porque exigência é uma qualidade altamente subvalorizada.