Apesar de parecer um personagem saído da mente deturpada de Tim Burton não é. O Rapaz Ventoinha é a mais nova rubrica saída da capoeira, o site com mais rubricas a nível do mundo dos sites que qualquer outro site do mundo.

O Rapaz Ventoinha vai substituir o Perdidos e Machados pois o Professor Machado decidiu mesmo tirar uma sabática para descansar das investigações extenuantes e das aulas do último ano lectivo portanto tínhamos um espaço aqui para preencher e decidimos que todas as semanas vamos editar um texto escrito pelos fanboys originais do mundo dos jogos, os fãs residentes da Nintendo.

Vamos escrever sobre jogos do extenso catálogo da Big N, desde a NES até à Wii U, passando pelas consolas portáteis que podem ser conhecidas de todos incluindo os não-fãs, mas também daquelas pérolas perdidas e desconhecidas que passaram por baixo do radar de muitos. Estes textos não vão cair numa vertente de crítica (tendo sempre um pouco) mas vão apontar mais para o lado sentimental e pessoal do jogo.

Sem mais demoras, senhoras e senhores, pintainhos e pintainhas, do mundo, o primeiro Rapaz Ventoinha:

Infinite Space é daqueles jogos da Nintendo DS que quase toda a gente no ocidente deixou passar ao lado e não sei bem porquê considerando que é superior a praticamente todos os do mesmo estilo. Foi criado pela Nude Maker e PlatinumGames e publicado pela Sega em 2009 no Japão e 2010 na Europa e Estados Unidos da América onde não teve grande sucesso. Nem vos sei dizer como ele foi parar à minha DS, sei que quando lá chegou não saiu durante umas 60 horas de jogo. E da segunda vez que o joguei uns dois anos depois passou ainda mais tempo e teve um factor muito importante na minha vida.

Acho que o termo correcto para classificar Infinite Space é um RPG, mas também pode ser uma visual novel, porque na verdade tem componentes desses estilos e também de estratégia, e de exploração e até de Tetris, mas a sua componente principal é a de ser uma Space Opera. É daqueles jogos cuja história é tão épica que se ele fosse totalmente em texto com gráficos saídos de um ZXSpectrum continuava a valer a pena jogar.

A história de Infinite Space é sem dúvida o seu segundo maior trunfo, (a sua manilha para quem joga à Sueca), e tem uma complexidade incrível em toda a aventura, enquanto a jogabilidade é dividida em várias partes numa amálgama que tinha tudo para correr mal mas que consegue funcionar como um relógio suíço.

Começamos a nossa aventura ao conhecer Yuri, um rapaz que sonha com explorar as estrelas mas vive num planeta controlado por um tirano que impede toda a gente de o abandonar. É com a ajuda de Nia Lochlain, uma espécie de Han Solo com busto 38DD, que ele consegue salvar a sua irmã Kira e fogem pela galáxia da Pequena Nuvem de Magalhães para começar a sua aventura. Entretanto nesta espécie de tutorial passamos umas boas 4 horas. Isto podia parecer demais mas não é, porque este é um jogo muito difícil, a sua curva de aprendizagem é longa e nem sequer é uma curva, é mais uma encosta a quase 90º.

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Em Infinite Space somos um capitão em aprendizagem, Yuri tem que tomar decisões das quais as consequências não só influenciam o jogo mas todos os personagens envolvidos na história. Uma frase escolhida ao acaso ou uma curva numa bifurcação pode querer dizer que horas depois um personagem não se junta à nossa tripulação ou até pode ser um inimigo. Curiosamente nada implica um certo ou errado, são opções que têm consequências reais e nada mais que isso. Tudo o que é obrigatório no enredo, apesar de apenas ser dada uma ilusão de escolha, é mesmo inevitável por mais doloroso que seja muitas vezes. Ainda engulo em seco quando me lembro de alguns momentos.

Conversar com membros da tripulação para saber as suas motivações e os seus receios e a sua história é algo que não só é essencial para o jogo fluir, é prazeroso. Assim como colocar a nossa frota ao nosso gosto. Não é fácil de início pois temos que ganhar os planos tanto dos modelos de nave como dos módulos que as preenchem para depois as construir. Esta construção das naves é um desafio por si só, pois temos que conseguir jogar com os tamanhos e formas dos módulos dentro dos espaços disponíveis da nave para conseguir atingir os nossos objectivos numa espécie de puzzle Tetris de componentes. É muito fácil passar horas a combinar pontes e casas de motores com camaratas, centros de entretenimento e baterias de armas até chegar ao ponto perfeito.

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Os outros pontos de jogabilidade não são de uma complexidade extrema, não confundem o jogador de maneira nenhuma, a sua simplicidade consegue até ser muito bem-vinda pois é dá uma espécie de equilíbrio ao jogo todo, quando nos combates espaciais ou de abordagem (a naves ou estações à boa moda pirata) o sistema de pedra-papel-tesoura é uma lufada de ar fresco. Isto não quer dizer que os combates sejam fáceis, muitos demoram bastante tempo até descobrirmos algumas falhas na estratégia inimiga ou quando percebemos que não temos arcaboiço para atacar o nosso inimigo. Algumas vão à negra e não percebemos bem porque ganhamos mas mesmo assim suspiramos de alívio e continuamos a viagem esperando não ter mais nenhum encontro aleatório até chegar a um porto seguro e recuperar. Dizer que a jogabilidade é simples quando disse antes que a curva de aprendizagem era longa não é contraditório, é simplesmente complicado de explicar sem se experimentar. Apenas através do jogo é que percebemos a complexidade construída num molde tão simples em equilíbrio natural e perfeito.

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Este texto já vai longo e ainda não falei das duas coisas mais importantes de Infinite Space, mas isso é o que dá ser Rapaz Ventoinha, temos sempre muito para dizer mesmo que ninguém vá ler ou ouvir.

Se calhar as duas coisas mais importantes podem ser combinadas numa só, que a extensão de toda a aventura. Os criadores não levaram o nome Infinite Space de ânimo leve, a aventura principal pode ser despachada em cerca de 40 horas, sem grandes desvios mas bem jogado leva umas 60. Ele não é assim tão grande só porque sim, é mesmo pela imensidão do espaço em que viajamos e do tempo também. Ir de um planeta para outro num sistema demora, explorar e fazer batalhas também. Há warp points entre galáxias mas tirando isso a viagem é feita quase em tempo real dependendo da velocidade dos nossos motores, e passamos bastante tempo a viajar de um lado para o outro. Mesmo assim não é cansativo, cada sistema e cada planeta tem a sua história, a sua civilização e cultura e isso pode ser visto em tudo, desde roupas a cenários e até os designs das naves. É daquelas coisas que gosto de ver em ficção científica e faz-me ver o universo Star Wars como superior em relação ao de Star Trek. Tudo tem um aspecto de que foi usado, de que se passou algo lá antes, dias, meses ou anos. Dá um ar de realidade a um mundo onde quase tudo é ficção.

A própria aventura é enorme, bem escrita com um enredo e personagens interessantes, cada um, incluindo muitos personagens identidade própria mesmo quando à primeira vista parecem um pouco cliché. É só dar-lhes tempo e investir neles.

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Pode parecer um exagero de fanboy mas Infinite Space mudou um bocado a minha vida. Ou pelo menos ajudou-me a fazê-lo. Como disse acima eu joguei-o duas vezes, numa fase muito complicada, quando me sentia preso, não por um tirano externo mas por mim e em mim mesmo, em particular da segunda vez que o joguei, em todas aquelas noites que passava acordado na minha prisão pessoal na qual me tinha enfiado e de onde não tinha escape, Infinite Space ajudou-me a fugir, a refugiar-me num mundo que não era o meu e onde eu podia ser mais livre. Foi por isso que ele me ajudou a ver que há uma fonte inesgotável de aventuras para viver, há locais para visitar e coisas para fazer, pessoas para ajudar, não foi a jogar que eu tive uma epifania, mas foi uma espécie de gatilho para a minha mente aceitar isso e o que eu tinha que fazer. Foi aquele toque na primeira peça de dominó que faz cair todas as outras, e foi dessa destruição que eu saí e comecei o caminho onde hoje ando, uma pessoa melhor e feliz.

Nunca mais joguei Infinite Space, nunca mais precisei do escape que ele me proporcionava naquela altura. Hoje em dia jogos são para me divertir são um escape diferente, não preciso fugir da minha vida, apenas de destressar do dia a dia. Infinite Space irá ter sempre um lugar especial na minha história, mesmo que toda a história se esqueça dele.