Caçada Semanal #50

São praticamente 50 semanas, mais coisa, menos coisa, que nos trazem a falar de um conjunto de indies que descobrimos e os quais queremos partilhar com o nosso público. Usualmente tentamos encontrar um fio condutor para os jogos que partilhamos, o que nos leva a pensar se este tem alguma coisa a ver com o livro do E. L. James? Não, mas como diria o nosso galardoado pela 4a vez com a Bola de Ouro “que’sa f**a!”

Venham então connosco nestas Bodas de Ouro do mercado independente.

Metal Tales: Fury of the Guitar Gods

The Binding of Isaac é suficientemente negro para estar dentro do espectro cultural da malta underground, que como eu há já vinte anos se delicia com música mais…negra? O primeiro impacto deste Metal Tales: Fury of the Guitar Gods é que alguém pegou na obra de McMillen e o tinha levado para um pub, provavelmente o meu adorado Underworld em Camden, tinha-o enfrascado de cerveja até que a cabeça já fizesse headbanging sozinha ao som de riffs pesados a tinir metal por todas as reverberâncias.

E é. Em extremo Metal Tales é um The Binding of Isaac com metaleiros. Mas não só.

Com música original de Diego Teksuo, Despite, Persefone, A Breach of Silence, Striker, Hyperion, Hyde Abbey, Legacy of Brutality, Nameless Day Ritual (tudo bandas soft como os nomes deixam antever), Metal Tales é um verdadeiro metalgasm. Com riffs e notas a serem disparados na direcção de demónios que querem algo que eu não sei o que é, nas muitas dungeons que são na prática as muitas divisões processualmente geradas de um pub de metaleiros, a nossa guitarra é a melhor arma que qualquer headbanger com a missão de salvar o mundo poderia querer. E ela é suficiente para pintar de preto estas 50 sombras de indie.

É frequente que o aviso de que certo jogo foi produzido em RPGMaker seja logo um motivo detractor de querermos mergulhar nele. E não é porque não hajam bons exemplos de jogos feitos neste motor, o problema é exactamente o inverso. A quantidade absurdamente grande de jogos produzidos em RPGMaker que são genéricos, infantis, e pouco mais do que uma brincadeira inocente de malta curiosa à volta de um motor simples, e que mais cedo ou mais tarde vai cair no Steam.

OneShot

E depois há OneShot.

Correndo o risco de todas as seguintes frases (ou então que se lixe e assumimos este cinzento como uma das 50 sombras de indie), aquilo que sentimos com OneShot, na sua surreal história de aventura e puzzles é que nos mostra potencialidade da ferramenta RPGMaker que possivelmente ninguém sabia que existiam. Ou talvez não existam, e isto é apenas uma prova da mestria do seu autor, que pegou nele e fez com ele coisas inimagináveis e prazerosamente agradáveis, convenhamos.

Entre o jogo ir buscar informações nossas ao PC (nada de sensível, acredito) e incluí-las como parte da história, é daqueles momentos que todos vimos surgirem com o Psycho Mantis em Metal Gear Solid, mas que não esperaríamos ver num pequeno e desconhecido jogo indie produzido em RPGMaker.

A partir desse momento OneShot faz de forma sublime o que não muitos jogos conseguem: levar-nos para dentro da sua loucura, falando-nos directamente a nós, pelo nosso nome, como se nos conhecesse melhor do que nós gostaríamos que conhecesse.

Maize

Eu adoro milho. Desde os Fritos da Matutano que devorava aos pacotes, passando pelo milho cozido que tão subtilmente abrilhanta (quase) qualquer prato ou salada, pela brilhante maçaroca cozida barrada com manteiga que comi em S. Miguel e terminando nas clássicas e eternas pipocas. Sou um quase milhófilo (vivam os neologismos), mas se há coisa que não me agradaria muito era ter maçarocas de milho conscientes a seguirem-me por todo o lado.

E na prática é sobre isso que se desfolha (trocadilho hein?) este Maize, um jogo de aventura narrativo na primeira pessoa em que nos vemos a braços com o ambiente e o tom de um filme do M. Night Shyamalan, em que vamos desmaçarocando a relação entre os dois cientistas responsáveis por esta experiência que conduziu à existência de maçarocas conscientes.

E apesar de ser um meio rural, quem sabe se estas maçarocas teriam inteligência suficiente para votar Trump. Fazendo do amarelo do milho a derradeira cor de entre as 50 sombras de indie.