Pesca. No mundo real esta palavra é suficiente para induzir-me a um estado quase narcoléptico. Não que tenha algo contra a actividade, mas porque na minha família não é um hobbie que se vá passando de pais para filhos, e o meu avô e educador sempre achou uma valente seca estar horas à espera que um peixe morda.

Mas, e este é um grande mas, para as três pessoas que lêem os meus textos já devem saber que o meu calcanhar de Aquiles em jogos são os mini-jogos de pesca. Já o era no Lords of the Rings Online em que eu e o Leonel comprámos as expansões todas e tudo o que fizemos foi passar umas semanas sentados no Shire a pescar, com armadura completa, ou em qualquer outro jogo que remotamente apresentasse alguma possibilidade de pegar numa cana de pesca virtual.

Rule with an Iron Fish, um simpático mobile game recentemente trazido para o PC consegue o difícil exercício de equilibrar a simplicidade e a casualidade apelativa a qualquer pessoa e a complexidade de um mundo de piratas divertido e em crescimento que vai eventualmente trazer o Cthulhu à conversa, para além de portais extra-dimensionais e promessas de fim-do-mundo. Onde o apocalipse é evitado com o poder e a fúria de uma cana-de-pesca.

O que começa como um jogo simples em que controlamos um (ou uma) aspirante a comandante pirata e que envolve atirar o isco à água e esperar pelo momento certo para apanhar peixes, que vão inicialmente de sardinhas e carapaus até ao final do jogo em que estamos a pescar plesiosaurus e sereias.

Há muitas quests que se vão desenrolando e que ajudam a construir o mundo e o enredo de Rule with an Iron Fish. O elenco, tão distinto quanto um ex-comodoro que se junta à ilha ou uma guerreira viking que aguarda asilo junto a uma fogueira, permite um gigantesco rol de linhas de diálogo e muitas outras quests que se abrem.

Sem qualquer surpresa, assente nas mecânicas simples mas apelativas de pesca reside o sistema de missões, quase todo ele dependente de grind ligeiro de um número determinado de peixes raros (especialmente no final de jogo). Visto que pouca informação temos sobre os peixes que se movem debaixo de água para além da sua silhueta, há sempre um factor de sorte implícito na procura de um peixe específico. Facilita o facto de que os peixes raros brilham a amarelo e é possível tentar fisgá-los ignorando os restantes peixes comuns, com alguma perícia ou com alguns pratos cozinhados que afastam os peixes normais. Mas a dificuldade centra-se não só na probabilidade de encontrarmos o peixe específico que procuramos, como no facto de que os peixes raros permanecem apenas um período curto em cada localização, e acabam por desaparecer na água se não forem fisgados a tempo.

Um sistema de upgrades (compráveis) permitem-nos ir evoluindo a nossa cana e os nossos iscos, não só para sobreviverem aos rigores de alguns dos “níveis”, como o lago de lava (que sem protecção corrói a nossa linha), ou os peixes eléctricos que nos electrocutam se não tivermos o devido upgrade.

Em menos de 10 horas é possível terminar todas as (muitas) quests que os (muitos) personagens nos vão dando, com um sentimento crescente de loucura e de humor no jogo, onde os peixes vão ficando de igual forma mais absurdos à medida que nos aproximamos do fim.

Rule with an Iron Fish não vai alterar as nossas vidas, mas admito que dentro da necessária descontracção de férias, com toda a sua simplicidade e casualidade acabou por ser dos jogos que mais nos manteve divertidos em períodos curtos de jogo, e até como companhia a ver uma ou outra série, numa actividade tão relaxante quanto desapegada.

Há uma óbvia dose de repetição e monotonia num jogo cuja única mecânica se limita a pescar sempre da mesma forma, simples e facilmente compreensível. Mas o desenvolvimento da nossa ilha não só em habitantes mas em “serviços”, com o desbloqueio do aquário, do campo agrícola e do restaurante, com muitos personagens para interagir e muitas quests simples para cumprir, muitos upgrades incluíndo à nossa embarcação e chapéu, e mais de uma centena de peixes para capturar e identificar para a “peixopédia”, fazem de Rule with an Iron Fish uma aposta descomprometida e puramente divertida e casual. E com muito humor, inteligente, o que eleva muito acima da casualidade superficial da grande maioria do mercado mobile.