São pouco mais de 20 anos os que me unem a Pokémon. Da alegria de contactar com as primeiras edições já na adolescência e de ficar maravilhado com o apelo e a capacidade de criação de um elo com o jogador como os primeiros jogos representaram (e os subsequentes têm feito com novas gerações). As opiniões puerilmente extremadas sobre qual das versões era a mais interessante. É claro que nesse campo não há de todo discussão: a azul, fronteada pelo magnífico Blastoise, é a melhor.

Pelo caminho destas duas décadas e após ter jogado a praticamente todos os spinoffs que lá iam aproveitando o sucesso estelar da marca Pokémon, a proximidade emocional foi-se mantendo, e nem o crescimento, a idade e as diversas etapas da vida diminuíram de forma alguma o carinho que tenho com a série.

A série é formulaica, e tem, teoricamente, muito pouca margem de evolução conceptual, mas conhecer cada nova geração ou cada nova iteração é um marco que recebo com o mesmo entusiasmo que recebi a primeira geração, e talvez a única que saiba entoar os nomes certos na ordem certa.

Com o anúncio do Pokémon Bank há alguns anos, e tal como disse no artigo de reflexão sobre o surgimento deste serviço, há um direccionamento óbvio na continuidade das paixões entre pais e filhos, e a existência de um banco virtual onde guardar colecções servia exactamente esse propósito.

Com a ideia mais ou menos formada de que iremos ter dois filhos (eu e a minha mulher, entenda-se), lá comecei a tarefa de coleccionar todos os Pokémon em triplicado, com a ideia fixa de essas mesmos colecções serem uma herança simbólica para os meus filhos. É perfeitamente natural que um pai e uma mãe sonhem e tentem passar aquilo que lhes é mais querido e importante para os seus filhos. Desde os valores que deverão nortear as suas vidas, passando até por coisas mais mundanas mas apaixonadas como o clube de futebol, gostos culturais, culminando nas gerações que têm hoje trintas e quarentas com a transmissão do carinho pelos videojogos.

Há muitos momentos felizes quando se é pai, incontáveis pedaços que são roubados ao tempo e que são impressos na memória e que passam a fazer parte da nossa constituição estrutural. Mas parte desta experiência são os anseios e os desejos de partilhar situações específicas e que são idealizadas desde antes da criança nascer. Para alguns é o dia em que vão a primeira vez ao cinema com um filho (algo que já fiz), ou ver o primeiro jogo do clube do coração no estádio (idem) ou começar a perceber uma certa paixão pelos videojogos, a despontar de forma saudável e natural (ibidem).

De tudo aquilo que circunda Pokémon, a série de anime é talvez aquilo que sempre menos me entusiasmou. O enredo e a qualidade do argumento nunca foram apelativas o suficiente para me fazerem ver as centenas de episódios com que a série já conta. Ainda assim, e desde que o meu filho foi crescendo e gostando de me ver a jogar cada novo jogo de Pokémon, decidi apostar em sentar-me com ele e começar a ver o anime que está no Netflix. Por alguma razão a série não pegou.

Um ano depois, e quase miraculosamente, começámos a ver o anime juntos, e a divertir-nos com isso. E as perguntas iam crescendo com ele e com o seu entusiasmo: “pai, o Cankaxcã (sic) evolui para quê?”. “Para nada filho, mas vai ter uma Mega Evolução mais tarde”. E passo a passo vai sabendo que o Squirtle evolui para Wartortle e finalmente para Blastoise. E por aí em diante.

É claro que ali com a Switch à mão de semear e com o Pokkén Tournament DX disponível acabou por ser aquele jogo que mais o tem divertido. Curiosamente, o afastamento temporal permite-nos sempre ver as coisas de outra perspectiva, sentir algo com uma nova sensibilidade ou simplesmente criar o distanciamento crítico para mudarmos a nossa opinião sobre algo. Vê-lo a jogar Pokkén Tournament DX para a Switch, um ano e meio depois de eu ter jogado a versão original para Wii U fez-me repensar a minha receptividade para com este cruzamento entre Pokémon e Tekken.

Há muitos spinoffs de Pokémon, e como é óbvio uns são melhores do que outros, e mesmo alguns que são francamente inferiores conseguem captar de forma inequívoca o espírito da série, e as suas próprias idiossincrasias. Olhando de novo para Pokkén, ele não é um desses bons exemplos. Ser um bom fighting game (mas tantos furos abaixo daquele que é a actual craveira do género, Injustice 2) não faz dele um bom jogo de Pokémon.

Perceber o que faz de um jogo de Pokémon (até o genialmente incompreendido e injustamente esquecido Pokémon Conquest) é algo mais do que apenas fazer uma espécie de reskin da jogabilidade de Tekken com os personagens de Pokémon e esperar que a comunidade que lhe é afecta ceda à vontade de comprar tudo o que pertence à franquia. Repensar Pokémon (mesmo nos puzzle games como o Shuffle) é conseguir retirar todas as particularidades que o constituem e que o mantêm de forma sólida na ribalta e incorporá-lo, se necessário, dentro de géneros diferentes. Nesse aspecto Pokkén é superficial e a forma como vive a real essência de Pokémon é meramente tangencial. 

Pokkén Tournament DX não é a experiência de Pokémon que quero partilhar com o meu filho, ainda que ele se divirta com um dos mais child-friendly fighting games que o mercado tem, nem sequer é, visto em retrospectiva, o bom jogo que considerei há um ano.

A derradeira experiência que um fã de Pokémon pode ter para com um filho é a possibilidade de poderem jogar a série juntos, cada um com a sua consola, a encontrarem o maior número de Pokémon possível numa competição saudável, na busca do domínio caseiro de quem é o melhor Treinador (ou Treinadora). Sei que essa experiência com o meu filho pode estar a pelo menos um par de anos de distância, o que permitir-lhe-á ter maturação cognitiva suficiente para poder usufruir ele mesmo, na primeira pessoa, da satisfação que existe em jogar um core game de Pokémon.

Apesar de ter duas colecções extras de Pokémon guardadas no Pokémon Bank, vou preferir que o meu filho (ou filhos) tenha(m) a experiência de capturar as suas próprias criaturas. Oferecer uma colecção já terminada é matar aquela paixão crescente e progressiva de capturar e evoluir Pokémon, e remover toda a diversão intrínseca à experiência de jogar a série. A colecção está reservada para ser uma espécie de rito de passagem, para uma fase em que ele próprio tenha coleccionado e ganho a sua própria ligação à série. Como um pai que oferece ao filho a caneta com a qual escreveu toda a vida.

Para muitos pais existe um sonho à distância de dar os primeiros toques na bola com um filho. Ainda que joguemos os dois com muita frequência à bola, para um fã de Pokémon a verdadeira passagem de testemunho é o momento em que o pokédex metafórico é passado de mãos, e um filho captura o seu primeiro Pokémon. E esse será um momento que nem pai nem filho algum dia esquecerão.

(no outro dia vimos parte do filme 18 em inglês e parte em português, e esta música final na versão gravada em Portugal é realmente fascinante e até melhor que a original)