Eu queria gostar de Kontrakt. Tem aquele romantismo de ser feito por uma alma solitária que aproveita para depositar num jogo parte das suas vivências pessoais e que o faz com um visível carinho e atenção ao detalhe que são impossíveis de ignorar. Há, de facto, toda uma aura quase mística de dedicação que transborda carinho para nós.

E eu não consigo falar mal do jogo.

Mas é só por isso.

Assumo que não é o meu género de eleição e que isso tem um peso naquilo que digo, mas, raios, Hotline Miami e Geneshift também não o eram e, sendo do mesmo género, conseguiram agradar-me, fazer-me envolver no jogo. E, lamento, Kontrakt não o faz.

De um lado, a carnificina, a violência… do outro, tipos aos tiros

Visualmente atractivo, bem trabalhado com pormenores originais, é na jogabilidade, ou mais especificamente, no ritmo imposto à mesma que a coisa desliza. E uso o termo porque parece ser essa a chave para fazer alguma coisa em Kontrakt. Deslizar. Deslizar permite-nos desviar dos projécteis inimigos enquanto nos deslocamos. Ora, ou o chão tem uma camada de meio centímetro de azeite a cobri-lo ou temos sapatos e calças feitas de sabão, porque, de facto, o tipo desliza a mil. E tem que o fazer, caso contrário a missão está fadada para a desgraça.

O problema parece centrar-se nos tempos de reacção dos inimigos. É como se o fulano estivesse relaxadamente a ver o Eurovisão na televisão, a comer batatas fritas com uma mão e com a outra mão agarrada a uma caçadeira já apontada para a porta. Eu entro a disparar e estou logo a dar cabeçadas em 20 chumbos.

A crítica é, aliás, ecoada por outros jogadores, e aí a resposta do indivíduo feito estúdio é desarmante. Se tiverem críticas construtivas, por favor, comentem com elas e eu procurarei ajustar o jogo em função disso. Caso o jogo de facto não seja o que procurem, peçam um refund. Não há como encarar isto de forma negativa. É honesto, pede sugestões, procura implementá-las.

Vantagem: ninguém se queixa do barulho das pipocas

E a verdade é que o jogo tem potencial. As mecânicas estão lá. O deslizanço é funcional. A temática é interessante. Mas, em suma, há que reformular o deslizanço para que este passe a ser um elemento decisivo do jogo em vez de omnipresente. Fazer com que o jogador tenha que fazer “aquele” deslizanço na altura certa em vez de o usar como método de deslocação preferencial. E isso implicará também a reformulação dos inimigos. Deixá-los ver a surpresa de entrar um indivíduo a entrar pela sala deles aos tiros e reagirem em conformidade – irem atrás do barulho, ao invés de ficarem sentados a ver televisão com a arma engatilhada apontada à porta.

Kontrakt tem ideias interessantes, num bom formato para twitch shooters. É uma mostra de carinho e dedicação de um developer solitário que despejou a sua alma num jogo e isso merece o nosso aplauso. Vale a pena para amantes do género. De momento, exclusivamente. De futuro, feitas algumas alterações que permitam que o jogo floresça nas suas componentes-chave, a recomendação poderá alargar-se para outros. É daqueles jogos para manter debaixo de olho. Talvez dentro de um mês ou dois esteja refinada a ponto de merecer uma recomendação incondicional. A dedicação merece-o!