Do tabuleiro para o ecrã – parte II

No princípio criou Deus o céu e a terra”. É assim que começa o livro mais vendido de sempre, que muitos levam à letra ao ponto de fazerem ali umas escolhas do que devem ou não tomar como direccionamento literal para as suas vidas. Apesar do meu ateísmo e de ter vindo de uma família maioritariamente católica (como, diria, a grande maioria das famílias portuguesas) consigo entender a fé e a crença, mas não consigo entender o criacionismo. Quando por volta dos meus 5 ou 6 anos me comecei a questionar sobre a existência de Deus e sobre o argumento que algo tão complexo quanto o universo e tudo o que ele contém só poderia existir se provenientes de uma entidade inteligente, isso automaticamente fez-me colocar a questão: e que força ainda mais complexa do que Deus o criou para que Ele pudesse “desenhar” algo brutalmente complicado quanto o universo? E quem desenhou esses que desenharam Deus? E por incrível que pareça foi exactamente esta escalada de necessidade de um design inteligente sobre design inteligente que me fez, ainda na infância perceber que era ateu.

Antes que pensem que este artigo é uma exposição de militância ateia, aviso-vos já que estão redondamente enganados. O conforto do meu ateísmo e o respeito por todos os teístas (e pelas suas crenças) impede-me o arrojo de sequer equacionar impor a minha total ausência de qualquer crença sobrenatural sobre a religiosidade de outrem. Falar da minha descrença total no criacionismo é apenas um pretexto para introduzir um dos mais originais jogos de cartas que já joguei, e é possivelmente o mais darwinista de todos os jogos. Literalmente.

Evolution é um jogo de cartas que vem, de forma original, falar de biologia evolutiva, e surgiu a partir da base de Evolution: The Origin of Species um jogo criado por Dmitriy Knorre e Sergey Machin em 2011, chegando ao formato que conhecemos hoje em 2014 pela mão da editora North Star Games.

Grátis com muitas limitações em iOS e Android, e a custar 12,49€ no Steam, Evolution: the Video Game é uma brilhante solução de um jogo de cartas elegante, enganadoramente simples, e competitivo o suficiente sem ter de recorrer a elementos aleatórios.

Este jogo para até 4 pessoas segue as pisadas directas do jogo original de cartas e passa-nos um conceito simples da gestão da nossa mão. Cada carta que temos serve para um de quatro propósitos, e a nossa estratégia terá maior ou menor sucesso mediante a utilização que damos ao limitado número de cartas que biscamos em cada turno.

Uma carta pode servir para criar uma nova espécie, ou ser adicionada a uma já existente para lhe dar características biológicas (como torná-la carnívora, dar-lhe a capacidade de escalar ou um pescoço comprido que lhe permita alimentar-se antes dos outros jogadores). As cartas podem também servir para aumentar a população de cada espécie (sendo que todos os membros da espécie têm de conseguir alimentar-se em cada turno) ou aumentar o seu tamanho (em Evolution um carnívoro só se pode alimentar de espécies menores que ele, a menos que tenha o traço de caçada em matilha).

Os turnos procedem-se quase todos da mesma forma, com os jogadores a escolherem onde e como aplicam as cartas que têm na mão. No fim de cada turno o objectivo é simples: todas as espécies e as respectivas populações têm de conseguir alimentar-se sob pena de morrerem e extinguirem-se. Evolution é a expressão máxima da sobrevivência do mais apto, onde os animais que falham em conseguir subsistência acabam por perecer.

Num ambiente básico, cada “ponto de comida” consumido em cada turno corresponde no final do jogo a pontos de vitória, que decretarão os vencedores e os vencidos. Para os herbívoros o acto de se alimentarem é simples: basta-lhes conseguirem alguns dos pontos (limitados) que existem numa reserva para todos os jogadores. Visto que cada animal se alimenta à vez (e apenas um ponto, por defeito) queremos investir em traços evolutivos que nos deixem mais preparados para conseguir comer mais rápido e mais de uma vez que os outros jogadores.

Para os carnívoros a história de muda de figura. Ao invés de consumirem de uma reserva partilhada no tabuleiro, têm de comer as criaturas dos outros jogadores se estas não tiverem forma de se proteger.

O número de traços é bastante variado, e em cada novo jogo sentimos que nos temos de adaptar (ou não fosse este um jogo darwinista) à situação, investindo cartas da forma que a nossa estratégia dita: ou criando múltiplas espécies no tabuleiro e dando-lhes traços evolutivos, ou tornando as existente maiores ou mais numerosas.

Evolution é um jogo competitivo com um sabor completamente distinto de qualquer outra coisa que eu já tenha jogado antes. Consegue, a par do que Mystic Vale conseguiu, criar-me uma tremenda vontade de comprar o jogo de tabuleiro físico (que custa em média 39,99€), e desafiar a minha família e amigos para percebermos afinal qual é a piscina genética mais apta à sobrevivência. Ainda que quem o dite não sejam os rigores da Terra, mas a utilização atempada de cartas de jogar.