Manchetes como esta já nós vimos nos últimos anos, replicadas com muitas outras lapalissadas relacionadas com outras empresas. Medias nacionais e internacionais a servirem de câmara de ressonância dos seus congéneres, na esperança de obter aquele clique maroto de um incauto leitor que abra o artigo na esperança de conseguir alguns detalhes a mais do que essa mera informação perdida no fumo da internet.

Qualquer pessoas que esteja de alguma forma ligada ao mercado de videojogos já foi questionado sobre as novidades “do que ainda não se sabe”. Não consigo dizer quantas pessoas próximas, entre família e colegas, é que me perguntaram nos últimos anos se sabia se a PS5 estava a ser feita. Algumas destas pessoas tinham comprado a PS4 há pouquíssimo tempo, e outras tantas que nem a consola têm mas queriam saber se já existia planos para uma sucessora. A minha resposta foi sempre afirmativa. Não porque tenha alguma informação confidencial na minha posse, mas porque de forma pragmática é óbvio que uma estrutura corporativa da dimensão e relevância da Sony já está a planear e a estudar o próximo passo a dar.

Para os menos esclarecidos há que perceber que o tempo de estudo, desenvolvimento e aperfeiçoamento de grande parte dos produtos que conhecem levam tempo. Para uma PS5 (potencialmente) ser lançada em 2020 ou 2021, é óbvio que não foi apenas neste ano que a coisa começou a ser estudada. Sejam consolas, jogos, medicamentos, carros, produtos alimentares, telemóveis, sistemas operativos ou outros, a consciência que temos de ter é que é óbvio que está a ser desenvolvido um novo produto. O mercado não pára, e as companhias também não. E desenvolver algo com este nível de complexidade e investimento leva tempo. Por vezes muito tempo até. Ou alguém acha que após o lançamento da PS4 todos os directores e funcionários responsáveis pela criação da consola tiveram férias pagas por tempo indeterminado até serem chamados em 2019 com um logótipo da PlayStation projectado no céu nocturno a anunciar que tinham de voltar ao trabalho?

No mesmo patamar de vacuidade estão manchetes como “Está a ser desenvolvido um novo modelo da Switch”, “Está a ser desenvolvida uma sequela a Horizon Zero Dawn” e “Vai haver um novo Assassin’s Creed”. Na política isto teria o equivalente de em 2018 uma manchete dizer “PS prepara a sua lista para as Europeias”. Tudo isto são lapalissadas, puras, e simples. É mais do que óbvio que a Nintendo está a estudar novas versões da sua consola de sucesso (como aliás foi o seu apanágio ao longo de décadas), capitalizado e optimizando os resultados da Switch. O Horizon Zero Dawn é o exclusivo de maior sucesso da PS4, e o que seria uma surpresa é se não houvesse uma continuidade para uma nova PI com capacidade para vender 10 milhões de unidades. “Vai haver um novo Assassin’s Creed” está no mesmo patamar de uma notícia similar relacionada com Call of Duty, FIFA ou PES. Novos jogos destas séries são dados adquiridos, mesmo que tenham “anos de salto” como aconteceu antes de Assassin’s Creed Origins. Que o PS estivesse a preparar as suas listas para as Europeias no ano passado é outro dado adquirido. Até vos avanço que as listas para as Legislativas devem estar quase terminadas, e dependerão apenas dos resultados das Europeias para os ajustes finais das fileiras socialistas.

Como um dos maiores momentos jornalísticos desperdiçados coloco o número de vezes que um qualquer colega de métier perguntou, ao longo de uma entrevista com Mike Cerney, se estava a ser desenvolvida uma PS5. A perda de tempo e oportunidade é dupla, não só porque é quase certo que menos de um ano após o lançamento da PS4 a equipa de Cerny começou a estudar as possibilidades de uma sucessora, assim como é também óbvio que alguém habituado a estas lides como ele nunca iria “deixar escorregar” qualquer informação sem o querer. É provável que todos os jornalistas que incorreram neste faux pas tenham sobrevalorizado a sua proficiência em truques mentais Jedi.

“A sério que queres perguntar isso? E achas que eu te vou responder?”

Todas as especificações que Cerny decidiu soltar esta semana sobre a PS5 são, relembro, decisões da estratégia da Sony. Não foi uma escavação de um jornalista de investigação, ou um sinal de whistleblowing. As informações técnicas que recebemos todos há dias são parte de uma definição táctica da companhia japonesa. E essas sim, têm toda a legitimidade de ser publicado e replicada, informando o público com mais informações sobre o que poderemos esperar da nova consola. São notícias reais como esta que merecem e devem ser veiculadas pelo jornalismo, cumprindo o seu dever de informar. Mas fazê-lo agora, sem lugares-comuns, com conhecimento de causa, fontes e informações palpáveis para transmitir. 

Este tipo de manchetes, se feitos com honestidade jornalística e não a mera e doentia necessidade de maximizar o número de cliques, deveria estar reservada para verdadeiras surpresas do mercado, sob pena de estarmos a viver um momento prokofieviano da comunicação mediática. O anúncio do Nintendo Labo apanhou todos desprevenidos pela envolvência e inventividade da abordagem. Outros anúncios surpreendentes do passado recente passam pela revelação de Beyond Good & Evil 2 (para quem achar que é exagero basta olhar para as lágrimas de entusiasmo de Michel Ancel para perceber a batalha interna que ele deve ter tido para tornar a aposta nesta sequela uma realidade, 16 anos depois do lançamento do original). E são-no por serem verdadeiras notícias, inesperadas, acompanhadas de informações mais profundas que o mero enunciar vazio de algo que já todos o sabemos.

Mais vos posso adiantar que está a ser feito um novo Super Mario. Não sei em que fase de desenvolvimento, mas é certo que os criativos da Nintendo já estão a esboçar o que será o novo título da maior mascote do planeta. E não é preciso ser clarividente para o adivinhar: conseguir o nível de criatividade, coesão e capacidade de fazer avançar o mercado como um jogo de Super Mario não é algo desenvolvido com o mesmo mindset de quem produz um lançamento anual de Call of Duty. Muito pelo contrário. E se contribui para a vossa felicidade digo-vos também que está a ser feito um novo Kirby, um novo Soul Calibur, um novo Resident Evil, um novo Sonic, um novo Mario Kart e um novo Street Fighter. Não sei quando é que verão a luz do dia, mas garanto-vos que enquanto lêem este artigo, há milhares de pessoas algures no mundo a trabalhar nestes títulos. E porquê? Porque o mercado é assim, e há de sempre ser. Nada disto é surpresa. Surpresa seria se soubéssemos que estava a ser desenvolvido um novo Earthbound.

Perder tempo com “artigos” de três linhas a anunciar que algo cuja complexidade de desenvolvimento e planeamento está a ser produzido é um tremendo desrespeito intelectual pelo seu próprio público. Neste, como em muitos mercados, o Diabo está nos detalhes, e a Nintendo soube disse como ninguém. O impacto mediático da Switch não era, ao contrário do profetizado por muitos media, o facto da Wii U ter uma sucessora a caminho, mas sim que tipo de consola ela seria. A capacidade das grandes companhias nos surpreenderem ainda existe, e a Switch, com o seu conceito único, provou-o.

Alimentar o público com dados-adquiridos, one-liner clickbaits sem informações adicionais tem um efeito perverso que se sente nos dias de hoje: a dessensibilização do público que tão causticado de falsas surpresas, rumores, e lugares-comuns, começa a ter pouca capacidade para “viver” as verdadeiras surpresas e novidades impactantes quando elas lhe são apresentadas. Depois de tantos artigos de meios de videojogos com o auto-consciente mas não auto-evergonhado [rumor] no título, admito que as informações transmitidas por Cerny esta semana quase que ficaram bloqueadas no meu filtro mental de artigos e meios jornalísticos a quem não digno sequer o acto de clicar num link.

Nesta falência crescente dos valores jornalísticos em nome do captar da atenção do público no meio do ruído ensurdecedor da espuma dos dias, os media, na sua grande maioria em desespero de sobrevivência, estão a tornar numa profecia auto-concluída as palavras de Roger Waters. E o pior que podemos esperar e desejar do público e dos media é que cresçam confortáveis com a sua própria dormência.