God of War, Spider-Man, Detroit, Bloodborne, Horizon Zero Dawn, Uncharted 4… e por aí fora. A lista de exclusivos PS4 cresce, mas a fasquia de qualidade continua altíssima, com a chegada às lojas de Days Gone, será que esta série de grandes êxitos vai ser quebrada ou aumentada?

Days Gone parecia ambicioso, um jogo de sobrevivência em mundo aberto, onde o jogador tem que estar sempre alerta, gerindo preciosamente o seu tempo entre missões, gestão de recursos, recolha de munições e mantimentos e tarefas para manter as suas relações sociais. Mas de mão dada com essa ambição surgiu a cautela, de não arriscar no setting, ou na jogabilidade, estamos perante um mundo apocalíptico, e somos um típico motard que tem que sobreviver, quer sendo estrela de acção à la John Wick, ou virando um esgueiro 007, quando necessário.

Em Days Gone o mundo já não é o que era, a sociedade foi destruída quando os Zombies Freakers ficaram à solta, criaturas que de humanas apenas lhes resta a forma, vagueiam pelo mundo durante o dia, mas varrem a terra esfomeadamente durante a noite, tais bestas animalescas que migram em hordas, construindo ninhos onde se multiplicam pelo caminho. Ninguém sabe de onde vieram, mas vieram para ficar.

Sobreviver não é fácil, principalmente quando o nosso orgulho nos impede de nos juntar a um dos campos de sobreviventes, optando por manter o nosso próprio santuário com Boozer, o amigo inseparável que nos fez tomar a decisão mais difícil das nossas vidas, ir com Sarah, o amor da vida de Deacon, no helicóptero da Umbrella Corporation NERO, a estranha corporação/polícia que anda a investigar o que se passou, ou ficar com Boozer, ferido e incapaz de ir connosco no helicóptero de salvamento?

Ainda nos dias de hoje Deacon St. John carrega consigo as consequências dessa decisão, “Sarah, eu prometo que te volto a encontrar“, dizia ele enquanto a largava ferida no helicóptero já em descolagem, preparando-se para voltar atrás e salvar o seu também ferido companheiro Boozer. Mas nem sempre o destino está do nosso lado e nem sempre conseguimos cumprir as nossas promessas, por mais que tentemos.

E Deacon tentou, sobreviveu, enfrentou a morte dia após dia, engoliu em seco e teve que ser humilde em diversas ocasiões, mas descobriu o campo para onde tinha sido levada Sarah…

… Completamente dizimado, corpos por todo o lado, humanos e Freakers, num embate cujo tamanho apenas é suplantado pelo sofrimento de cada um dos desarmados reféns que lá estavam, foi o adeus a Sarah.

É neste tom que o jogo começa, que nem os Lusíadas, numa história In Media Res, damos connosco a pilhar antigas casas, lojas e bombas de gasolina para sobreviver, a comida é escassa, a gasolina quase inexistente e os medicamentos são uma miragem. Em todo o lado encontrámos Freakers, quer seja o solitário e rápido perdido durante o dia, os manhosos Freakers adolescentes, que só nos atacam quando nos apanham desprevenidos, ou as hordas gigantes, que saem dos seus ninhos durante a noite, para vaguear por todo o lado, varrendo humanos, animais e tudo o que lhes aparecer pelo caminho à sua frente.

E quando pensámos que a maior cautela que temos que ter em Days Gone é com os Freakers, o jogo mostra-nos a possível realidade já abordada imensas vezes na temática pós apocalíptica…os maiores monstros somos nós.

Entre sobreviventes que matam tudo o que aparecer à frente, apenas por prevenção e roubo de sustento, campos de refugiados que põem a cabeça de quem não se junta a eles a prémio, cultos de adoradores dos Freakers como o próximo passo da evolução humana e cientistas do NERO que eliminam todos os que metem o nariz nos seus assuntos, nenhum segundo fora do nosso abrigo é desprovido de tensão, estamos constantemente a olhar para as nossas costas, pois aquela vez que não olhámos nos saiu muito cara.

Os lobos metem medo – Tânia Rocha

Days gone é um jogo de acção na terceira pessoa, num misto de horror e sobrevivência em mundo aberto, com um cheirinho de RPG e uns toques de Stealth.

A nossa personagem cresce e fica mais forte conforme formos progredindo no jogo, numa árvore de habilidades separada em 3 ramos: Luta corpo a corpo, Armas de longa distância e Skills de Sobrevivência.

O sistema de combate está extremamente bem conseguido, podemos ter a abordagem AQUI VOU EU CHEIO DE FANTA e correr para o meio da acção com a nossa arma automática em riste, fazendo uso do Focus, a nossa capacidade de nos concentrarmos imenso durante alguns segundos, quase que abrandando a nossa percepção do tempo para despachar grandes quantidades de adversários de uma só vez; ou podemos ter uma abordagem mais cautelosa, escondendo-nos atrás de arbustos, dentro de caixotes do lixo ou simplesmente fora da visão da nossa presa, para assim podermos assassinar silenciosamente e com um golpe nas costas cada um dos nossos adversários.

A árvore de sobrevivência permite-nos encontrar mais facilmente recursos e seguir melhor os rastos das nossas presas, facilitando na recolha de sucata para reparar a nossa mota, provavelmente danificada em alguma perseguição frenética a algum veado ou urso do qual vínhamos a seguir o rasto.

A vida em sociedade é uma mecânica bastante bem explorada em Days Gone, não nos aliando e nenhum campo em específico, podemos ser mercenários e cumprir missões dos vários campos rivais que se espalharam pelo mapa. Trazendo recursos para eles, capturando presas ou alvos que os andem a incomodar são algumas das várias maneiras que nos fazem aumentar a confiança de cada campo específico em nós, para termos acesso a upgrades e armas cada vez melhores.

Sendo um tipo muito prático, Deacon St John está munido de uma roda de acesso rápido, onde pode juntar várias tralhas que recolheu nas suas buscas para craftar medicamentos de cura, cocktails molotv para queimar ninhos de freakers, ou barulhentos chamarizes para distrair as atenções de adversários menos desejados.

Sendo este jogo open world, existem imensas missões secundárias, que acabam por se tornar o nosso foco principal, as hordas de Freakers tendem a deixar ninhos em cidades abandonadas, que nos dariam imenso jeito como ponto de passagem para abastecimento de gasolina, portanto temos de ir lá queimar os ninhos para desbloquear o Fast Travel para esse lugar.

Os campos de investigação do NERO são alvos apetecíveis, pois contêm informação sobre o que se passa no mundo, bem como um soro biótico que nos aumenta a saúde/energia/capacidade de foco, mas como funcionam a electricidade e têm uma mensagem de cuidado de outros tempos a passar 24 horas por dia nos altifalantes, acabam por atrair Freakers e outros vadios indesejados.

Apesar de não haver nada de distintivo ou genial, tenho que admitir que gostei mais de Days Gone conforme o ia jogando, a tensão de estar escondido ao lado de uma horda de Freakers que foi atraída por algum barulho que eu fiz a tentar salvar uma criança é real, e deixa-nos com o batimento cardíaco acelerado, a ligação com a nossa mota torna-se emocional, pois é a nossa companheira de viagem, e a única salvação que temos em imensos casos de perigo. Se gostam do tema, e têm um fraquinho por jogos focados em narrativa, não deixem a vossa PS4 a apanhar poeira, pois não se vão arrepender com Days Gone.

Nota do Editor: Tânia Rocha, citada a meio do texto quase sem contexto, é a namorada do Pedro Nunes.