Ninguém gosta de errar. Eu, por exemplo, odeio. Este ano já disse várias vezes “este é o melhor ou um dos melhores city builders que já joguei”. Fui-me enganando sucessivamente. Primeiro com Foundations, depois com Tropico 6 e agora com Anno 1800. Apesar de detestar errar, a realidade é que me custa muito pouco admitir os meus erros. E erros como este, de ter vários jogos sucessivamente a fazerem step up qualitativo uns aos outros, é daqueles que não me custa nada.

Anno 1800 é o melhor city builder que alguma vez joguei. O que considerando este mês de Abril pode querer dizer que para a semana chegará um jogo do género que o vai ultrapassar, e se assim for, tanto melhor. Por agora Anno 1800 é mesmo o melhor de sempre no seu género.

Antes de mergulharmos no tremendo e intrincado mecanismo de relógio de bolso que é Anno 1800, falemos dos seus detalhes. Aqueles momentos de perfeição minuciosa que raramente teremos tempo para observar, e que demonstram o carinho e o empenho do estúdio Blue Byte no seu desenvolvimento. Sejam os ecrãs de loading com quadros Naturalistas feitos especificamente para o jogo, ou as movimentações dos nossos cidadãos se fizermos zoom suficiente. Ou mesmo os quase infinitos pormenores em cada um dos edifícios, estradas e afins, que nos fazem sentir que aquela cidade-estado existe mesmo e que nós para além da quarta parede de a gerirmos como um governante divino, somos também um gigante a sobrevoá-la.

Como os próprios criadores afirmam, Anno 1800 é uma versão caricatural da época, do colonialismo e da Revolução Industrial, e por isso se compreende que a sua representação seja mais positiva do que as tensões laborais históricas ou o tema real da escravatura. Um pouco como Tropico é uma caricatura do autoritarismo, sem nunca nomear países ou pessoas.

Mecanicamente há muito pouco que diferencie Anno 1800 de outros city builders, o que o destaca é o quão afinadas estão essas mecânicas. A forma como o jogo nos permite optimizar ao ínfimo pormenor as nossas cadeias de produção, medindo o tempo de desenvolvimento de cada um dos componentes, maximizando o produto, e aligeirando a necessidade dos transportadores levarem esses mesmos componentes por distâncias demasiado longas que cheguem a prejudicar o circuito industrial.

A cidade está viva. Em Anno 1800 o crescimento orgânico e evolutivo da nossa cidade é mais do que o somatório geometrizado dos nossos edifícios e das nossas estradas, é algo mais. É todo o corrupio pelas ruas, as fábricas e os campos em actividade, num mundo que nunca dorme.

Anno 1800, tal como a História nos obrigou, impele-nos a fazer-nos aos mares. A nossa primeira ilha não vai ser a nossa única cidade. Anno implementa uma mecânica de fertilidade diferente de ilha para ilha, que nos pode obrigar a criar uma segunda, terceira, ou quartas colónias noutras ilhas que nos permitam fazer crescer alguns recursos vegetais indisponíveis na nossa cidade-mãe, ou nódulos minerais que necessitamos para evoluir enquanto civilização.

A nossa cidade é um relógio que vai crescendo e que vai necessitando de estender os seus ponteiros para fora, criando braços orgânicos de uma cadeia que precisa de se alimentar constantemente para nos permitir evoluir. Eventualmente vamos chegar a uma parede de evolução que as novas cadeias de produção requerem recursos que só existem no Novo Mundo, o que nos vai obrigar a fazer-nos ao mar e entrar numa Exploração em busca desse território prometido. Um modo paralelo que funciona como uma Aventura Fantástica onde o nosso sucesso vai depender das escolhas que nós vão sendo progressivamente apresentadas pelo nosso Capitão.

A evolução da cidade, dos edifícios e cadeias de produção que podemos construir dependem dos tiers de trabalhadores que temos. Para que uma casa “evolua” para o próximo tier precisamos de ter as suas necessidades colmatadas. A diferença mecânica aqui é que temos de estar sempre a equilibrar a mão-de-obra perante as necessidades da cidade. Se evoluirmos 30 agricultores em trabalhadores fabris, ficamos com um deficit de 30 agricultores, e necessitamos de construir mais habitações agrícolas para empregar mais gente para esse tier de produção. As evoluções dos cidadãos de tier em tier funcionam sempre neste escala, e para que o mecanismo da cidade não desmorone, temos de ir compensando os diversos tiers de população, para que nunca falte mão-de-obra específica para cada produção.

Enquanto vamos evoluindo, vão surgindo mini quests dadas por alguns personagens que vamos conhecendo pelo caminho, sejam eles possíveis aliados ou futuros competidores. Mesmo com IA (que é agressivamente expansionista), o desafio diplomática de desenvolver trocas comerciais com os adversários é uma quase obrigação, a menos que estejamos poderosos o suficiente e queiramos enveredar pela via bélica, pegar na nossa frota ao estilo RTS e ir destruir o frontão das cidades-estado inimigas.

O grande mérito e simultaneamente a grande dor de cabeça de Anno 1800 é o quão fácil nos podemos sentir assoberbados com tudo o que está a acontecer ao mesmo tempo. E acreditem, é muito. Seja a fazer malabarismo para optimizar as nossas múltiplas cidades crescentes, as trocas comerciais com outros estados e com as nossas próprias colónias no Velho e no Novo Mundo, cumprir as quests, comandar a frota em modo RTS e ir resolvendo os Choose Your Own Adventure do modo de Expedição. Há muito para fazer, e esse muito é resolvido em simultâneo. E é aqui que o modo co-op multiplayer entra em acção e podemos dividir tarefas para melhor reinar.

Visualmente brilhante, detalhado e com o maior número de possibilidades de construção e evolução que alguma vez senti num jogo do género, Anno 1800 é verdadeiramente brilhante. Se este é o corolário do que eu apelido do Ano dos City-builders, que assim seja. Podemos fechar as portas do género para este ano que muito provavelmente o melhor de todos já foi lançado.

Anno 1800 é obrigatório para todos os fãs do género. Repito: é essencial, e vai figurar na História como um dos melhores jogos de 2019. Acreditem em mim, mesmo que a privação de sono de tentar fazer crescer um Império em Anno 1800 condicione algumas das minhas capacidades intelectuais, o meu julgamento qualitativo está intacto.