Acção é algo que está no nome mas há muito pouco dela em VA-11 HALL-A: Cyberpunk Bartender Action, mas por outro lado temos um jogo com mais conteúdo que esperava além de uma mecânica subtil e surpreendente.

VA-11 HALL-A dá-nos um aviso assim que o iniciamos, aviso este que eu no alto da minha sabedoria que advém de mais de 30 anos de jogos decidi ignorar. E arrependi-me na minha primeira sessão de jogo. O aviso é que é um jogo para jogar confortável, e eu pensei que era uma daquelas mensagens tipo no velhinho Baldur’s Gate II que dizia algo como “os personagens não comem nem dormem mas tu precisas de o fazer” e que também ignorava porque era bem capaz de estar noites inteiras a jogar e tenho a certeza que uma vez estive perto de 24h…  Bom, na verdade, já não sou um jovem e ao fim de um tempo tinha uma das mãos dormentes e algumas dores no braço, e se não fosse por essa razão teria jogado bastante mais tempo nessa sessão inicial, até porque tendo em conta a estrutura do jogo apenas podemos gravar em pontos específicos que demoram algum tempo a chegar. Não obstante, o tempo passa quase sem se notar enquanto estamos em VA-11 HALL-A. Se estivermos confortáveis e sem interrupções.

Esta visual novel, se assim se pode chamar porque tem mais algumas coisinhas enfiadas pelo meio, conseguiu prender-me devido ao seu sistema alternativo de progressão. Em VA-11 HALL-A não temos opções de diálogo, de um modo explícito, temos opções que são mais variadas e subtis. Controlamos Jill, que é bartender num pardieiro num canto obscuro duma cidade cyberpunk futurista que os patronos chamam de VA-11 HALL-A. E é em VA-11 HALL-A que grande parte do enredo do jogo se desenrola. Todas as noites, tomamos o nosso lugar por trás do balcão do bar e vamos ouvindo e conversando com os nossos clientes, enquanto preparamos e servimos bebidas combinando substâncias químicas. Bebidas como agora, ou melhor, os seus ingredientes são limitados aos excessivamente ricos portanto todas os cocktails reais são baseados em componentes químicos. Que pensando bem… é o que acontece agora também… Continuando… a progressão no jogo é feita através da preparação de bebidas. Cada cliente que aparece tem uma história, alguns aparecem várias vezes e histórias e personagens podem estar interligadas, nós temos que… lubrificar tudo para que avance. Ouvimos os seus problemas, as suas dúvidas e desabafos e servimos os seus pedidos. A nossa função é saber o que servir porque nem sempre o que é pedido é o melhor para o cliente.

Pensemos num cliente com uma atitude mais depressiva que pede algo alcoólico e forte, servimos o que pediu? Servimos algo mais animador? Retiramos o álcool? Arriscamos em que decisão? Ao fim de algum tempo, já conhecemos os nossos clientes habituais e os seus gostos, o que fazemos quando esses entram no bar servimos o habitual, como eu era servido nalguns bares em que ao entrar pela porta não tinha que pedir e tinha um copo pronto quando chegava ao balcão num passado que parece tão distante, ou esperamos para ver se vale a pena arriscar em algo novo e diferente? 

As conversas e os seus temas são contrastantes do visual mais “fofinho” do jogo, são temas adultos, com preocupações reais que facilmente seriam transpostas para a nossa sociedade ou até conhecidos, quando lhes retiramos os floreados futuristas e fantasiosos. Trabalho, relações pessoais, decisões do passado e as suas consequências entre outros populam as longas linhas de texto que vão passando por nós.  Mesmo assim, não torna o jogo aborrecido ou enfadonho de maneira nenhuma apesar de ser algo apontado para um público de nicho.

A opinião final é mesmo esta, VA-11 HALL-A: Cyberpunk Bartender Action que estará disponível na Nintendo Switch a partir de 2 de Maio, mas já está no Steam há uns anos, é um óptimo jogo para quem gosta de visual novels mas não se importa de ter uma mecânica diferente e original, contudo não é um jogo de entrada neste género. VA-11 HALL-A vai buscar com muita força o velho cliché do empregado de bar que é um ouvido para os problemas dos seus patronos, e fá-lo bem.