Em 2011, numa viagem a Londres, comprei o meu Amazon Kindle que estava em exposição ao lado das fraldas Dodot numa loja Tesco. O primeiro livro digital que lá li foi precisamente World War Z, de Max Brooks, um bestseller em retalho físico e digital, e que foi, da sua perspectiva única, um dos melhores, senão o melhor livro de zombies que já li.

O que diferenciava o livro de Brooks de qualquer outro é a forma mundana e plausível como todas as diversas micro-histórias se processam. Com capítulos a espelharem os quatro cantos do mundo, a visão de como poderia ser a realidade deste pós-apocalíptico em diversos pontos urbanos e rurais à volta do mundo tornou toda a narrativa palpável e verosímil. Se não leram, façam-no.

O filme, esse, senti que era apenas um cash-in nominal do tremendo sucesso do livro, um mero action flick sem as subtilezas e os dilemas mundanos do livro. Uma forma de ter o Brad Pitt a escapar num disaster movie onde os zombies aprenderam a fazer pirâmides para se erguerem a outras alturas. Visualmente interessante, mas a diferença entre os dois media é tão grande que existem apenas dois elementos em comum: o nome e a existência dos zombies.

World War Z, desenvolvido pela Saber Interactive e publicado pela Focus Home Interactive está mais ligado ao filme do que ao livro, mas ao mesmo tempo mais conectado à saudosa experiência de Left 4 Dead do que ao blockbuster com o Brad Pitt.

Assim, o que une os 3 diferentes media homónimos é mesmo apenas o título. E por um lado, ainda bem.

A ânsia de um terceiro título de cooperative horde shooting da Valve deixou um buraco de expectativas em muitos jogadores, que o mais próximo que tiveram foi a brilhante abordagem medieval do tema com os dois títulos Vermintide de Warhammer. Fora isso, há muito poucos títulos de qualidade relevante que justifiquem a atenção do público, e essa é uma das razões pelas quais os olhos de muitos se encontravam virados para a dúvida do que viria deste jogo.

World War Z surpreende desde o início. Sem quaisquer pretensões narrativas, a sua atenção é dedicada quase em exclusivo à acção, e mostra-nos, desde os primeiros instantes, o quão coesa é a sua experiência.

Com uma fluidez impressionante a cada segundo, a optimização de World War Z surpreende-nos, especialmente quando começamos a perceber a quantidade de elementos e inimigos que são “despejados” no ecrã, cada um deles com animações igualmente fluídas e orgânicas. Em termos técnicos World War Z está tão surpreendente que a acção torna-se ainda mais envolvente, e sufocante, quando as quase-torrentes de zombies se dirigem para nós a grande velocidade, como uma massa constituída por muitos elementos brilhantemente animados e representados em separado.

Visto que World War Z se passa em diversos mapas pelo mundo, houve um investimento dos seus criadores em criarem personagens diferentes por localização para ajudar a quebrar uma possível monotonia que pudesse ocorrer. Essa potencial monotonia é também quebrada pelos detalhes dos próprios cenários e pela diversidade de zombies com os quais nos cruzamos.

Com toda a fluidez que World War Z é também impressionante o detalhe artístico da construção das várias missões e que coloca em epígrafe essa habilidade herdada dos filmes dos zombies se amontoarem para escalar alturas. Uma habilidade visualmente interessante em filme e que ganha um interesse adicional em formato videojogo.

A IA dos bots que podemos adicionar para levar a cabo as missões cooperativas é interessante o suficiente para que não sintamos uma perda por não termos jogadores humanos com quem destruir milhares e milhares de zombies em formato enxame. Os modos competitivos trazem um elemento adicional, mas, à semelhança do seu antecessor espiritual, é no modo PVE cooperativo que World War Z brilha.

Sem o mesmo patamar mecânico de Left 4 Dead, World War Z é a sequela espiritual possível da série da Valve, trazendo-a para a modernidade. A fiabilidade técnica do jogo é verdadeiramente impressionante e uma das suas maiores conquistas. Conseguir que todo o frenetismo de uma turba de zombies a atacar, com o número de elementos que isso envolve seja tão fluido e orgânico como aqui vemos em World War Z é uma tarefa que muitos estúdios maiores que a Saber Interactive tentaram fazer e falharam. Para todos os que sentem saudades de L4D e Vermintide já não tem segredos, World War Z é um jogo mais do que recomendado, e uma agradável surpresa. A provocação no título de que o livro é melhor, é apenas narrativamente verdade.