Perguntem a qualquer accionista da Activision Blizzard se não acredita que o Diablo imprime dinheiro. Acreditem também que muitos deles têm uma fotografia do David Brevik na carteira, como lembrança dos muitos milhões que a sua criação já lhes deu.

Qualquer jogo do género que surja no mercado por maior ou menor perfil que tenha vai ser sempre comparado a Diablo, o que não admira ninguém. A série da Blizzard acaba por ser sinónimo de action RPGs e é o padrão por onde qualquer jogo do género é medido e comparado, conseguindo não só o mérito de ser uma das franquias mais rentáveis dos videojogos como teve a capacidade de ultrapassar as barreiras do computador e conquistar o mercado das consolas, até das recentes com portabilidade como a Switch.

Os competidores, esses, desde os anos 1990, são muitos. No passado recente diria que o melhor apaziguador da fome de mais Diablo é mesmo Torchlight 2, especialmente pelo grande carinho e envolvimento que a comunidade entregou a prolongar e melhorar a experiência do jogo. Mas muitas outras propostas existiram e existem, mais ou menos narrativas, e que tentam fazer uma tangente ao sucesso incomparável da marca da Blizzard.

Pagan Online é o mais recente destes candidatos, um jogo do estúdio sérvio Mad Head Games pela mão da Wargaming, e que chegou em meados de Abril ao Steam em formato Early Access com um preço de 26,99€. Antes de falarmos da agradável surpresa que tem sido este Pagan Online precisamos de falar do elefante na sala: o nome do jogo. Compreendendo o porquê de Pagan (iremos ver mais à frente) mas estou totalmente enraivecido pela adição de Online ao título, conduzindo a que, para o público, este jogo fique imediatamente conotado com a torrente de MMORPGs free-to-play no PC e no mercado mobile, “sujando” aquilo que é muito distante disso. Fica a pergunta: porque não apenas Pagan? É um bom título. Ou se existissem problemas em conseguir registar uma franquia só com essa palavra, porque não criar um título mais interessante do que apenas adicionar o pseudo-sufixo “Online”. The Pagan Struggle? Pagan Shadows? Pagan: the Dark Cost of Living? Sei lá. Havia tantas coisas melhores para lhe chamar que não apenas isto…

Pagan Online é um action RPG cujo enredo e elenco gira em torno da mitologia e do folclore eslavo, onde existem muitos heróis prontos para serem desbloqueados com bastante grindAs comparações com Diablo são meramente estéticas, não só pelo estilo mas também pela direcção de arte notoriamente influenciada pelo “traço-Blizzard”. Mas as semelhanças ficam-se por aí. Há a muito mais para considerar em Pagan Online que o destaca de tantos outros jogos similares.

A primeira dessas diferenças é o controlo do personagem através das teclas WASD, onde apontamos e atacamos com o rato. Este sistema de controlo revelou-se especialmente interessante já que grande parte do meu tempo em Pagan Online foi dedicado à personagem feminina que tem um chicote que é ranged, com a qual este sistema dual de movimentação com teclas e ataque com o rato encaixa na perfeição e é facilmente apreendido por nós.

A outra grande diferença é que apelidá-lo de hack ‘n slash como os próprios autores referem parece-me demasiado “livre” para o que o jogo exige de nós. Com um sistema de skills e de mecânicas de combate mais próximos dos MOBA do que dos hack ‘n slash, Pagan Online tem um combate mais táctico e mais estratégico do que muitos dos seus concorrentes que nos pedem mais cliques e mais reflexos.

Dos MMORPGs modernos – e talvez seja daí que vem o Online do nome – Pagan Online vai buscar o sistema de grind e loot, onde os monstros vão deixando cair incontáveis itens, gemas e fragmentos, a maioria deles que pouco ou nada nos diz e do qual pouco percebemos a utilidade e valor, mas que podemos ir juntando para desbloquear novos heróis, poderes e novos equipamentos.

Visualmente impressionante no número de detalhes, há algo de verdadeiramente fluído e coeso em todo o deambular, atacar e mover pelos níveis que demonstram a grande qualidade de execução que o jogo já possui neste momento. Surpreendi-me que um jogo em Early Access já tenha este nível de polimento, com os efeitos visuais a surgirem a cada instante a mostrarem um grande nível de qualidade.

Pagan Online é uma agradável surpresa no mercado dos action RPGs, especialmente pelo facto dos seus autores terem decidido não ficar excessivamente colados à necessidade de emularem o sucesso de Diablo. Imprimiram ao jogo diferenças suficientes para que ele tenha os seus próprios argumentos de existência. Pelo meio vai ter de se debater com a péssima escolha de nome que o vai condicionar na mente de alguns jogadores como potencialmente “apenas mais um” MMORPG daqueles que são feitos às pás, semanalmente, na Ásia.