“- Ó Zé, sabes o que é que os putos curtem jogar nos dias de hoje?”

“ – Pá, acho que são cenas de sobrevivência, de apanhar madeira e cenas e terem de comer e dormir e cenas dessas.”

“ – Só isso?”

“ – Acho que gostam de jogos bué difíceis tipo Dark Souls e de morrer muitas vezes.”

“ – Isso parece fixe. Mais alguma coisa?”

“ – E construir bases. Até o Fallout 4 tem isso.”

“ – Siga lá com isso.”

“ – Ah, e battle royales. Os putos adoram battle royales.

“ – Agora já estás a ir longe demais, Zé.”

Não sei se foi isto que aconteceu no estúdio alemão Black Forest Games, mas o resultado de Fade to Silence bem poderia ser este mesmo. Mais do que um jogo, Fade to Silence é uma amálgama de muitos outros jogos, em que não só a soma das partes não constitui um objecto forte como as componentes que o formam não são extraordinariamente interessantes para o elevarem.

É fácil perceber pelas minhas palavras que o meu nível de desilusão com Fade to Silence é muito grande. E não me refiro pelos muitos problemas técnicos que assombraram o jogo desde o seu lançamento, porque sei que esses podem ser facilmente resolvidos num futuro próximo. A minha desilusão prende-se pela falta de alma do jogo (isto não é um trocadilho pelo espírito maligno que habita o corpo do protagonista), que transparece desde os primeiros instantes que pouco mais é que uma tentativa de entrar a bordo de múltiplos comboios de sucesso ao mesmo tempo, sem nunca chegar a embarcar verdadeiramente em nenhum deles.

Começando por analisar cada uma das partes sentimos isso mesmo. A componente de survival é interessante, mas já vimos melhor resolvida, imaginada e trabalhada noutros títulos. Pensando especificamente no cenário do frio, há jogos que conseguem transmitir melhor os rigores do Inverno do que o Fade to Silence (falo obviamente de Impact Winter e de The Long Dark).

A dificuldade do jogo pode ser medida entre 2 modos diferentes, o primeiro, que se foca na exploração e nos dá “vidas” ilimitadas”, e o segundo, o de sobrevivência, em que temos “continuações” limitadas, após as quais temos de começar tudo de novo mantendo apenas as perks que desbloqueámos nas árvores de evolução.

O sistema de combate é outro dos momentos sofríveis do jogo. Num notório salto para a onda dos jogos à Dark Souls, o combate de Fade to Silence está muitos furos abaixo daquilo que a FromSoftware nos habituou. Com uma movimentação atabalhoada do nosso personagem que só piora com as desanimadoras animações e movimentos dos inimigos, Fade to Silence prova na sua componente de combate que tanto se quiseram estender que cada uma das partes que o compõem é bastante fraca.

A componente de base building acaba por ser, para mim, aquela que acaba por salvar a honra do convento gelado. À medida que exploramos o mundo travamos contacto com alguns personagens com habilidades próprias aos quais podemos atribuir tarefas na reconstrução da nossa base, para além de os podermos ter como companheiros em combate. Se as restantes partes de Fade to Silence são meras cópias de outros jogos, sinto que a componente de base building e o companion system acabam por ser as mais-valias mecânicas de todo o jogo.

O outro ponto positivo é a direcção artística, que apesar de todo o jogo estar repleto de neve consegue reproduzir na perfeição ao ambiente gélido, num complemento sensorial perfeito com toda a agressividade das forças da natureza que o jogo quer transmitir, criando uma das melhores experiências videolúdicas de uma tundra que já tive a oportunidade de experienciar.

Há muito a actualizar, corrigir e afinar em Fade to Silence, e não apenas de uma perspectiva técnica. Acredito que hajam boas possibilidades da junção de tantos elementos díspares poderem funcionar na perfeição, mas ainda não é o caso. Espero que a THQ Nordic possa dar o suporte/input necessário a permitir que este jogo chegue em breve a bom porto, porque é uma pena que um jogo com um ambiente visual e auditivo tão bem conseguido acabe por ser vítima de uma série de problemas técnicos e mecânicos. Porque assim o jogo não irá apenas Fade to Silence (passando o trocadilho). Mas desaparecerá também no esquecimento de tantos outros jogos melhores a serem lançados.