Rufem os tambores. Está na altura. Bem sei que este artigo já peca por algum atraso. No entanto, o hiato entre o anúncio do Battle Pass para o evento gigante do mundo dos esports serviu para sublinhar a necessidade de escrever umas linhas sobre ele. E, pelo meio, para o usar como pano de fundo para mais um episódio do Rubber Talks que, pese embora alguns problemas técnicos com o som, não deixa de ter conteúdo relevante. Sobre a temática de Dinheiro nos Esports e com o precioso contributo de Luís Mira e Luís Silva, torna-se incontornável abordar o evento que faz sombra a todos os outros no mundo atribulado dos Esports.

1.6, 2.8, 10.9, 18.4, 20.7, 25.5… não, não são os números para mais uma temporada de Lost. São a progressão de valores, em milhões, distribuídos pelo The International com o passar dos anos. Vinte e cinco milhões e meio, em 2018. A besta faz e desfaz equipas. Alimenta organizações, injecta valor transversalmente em todo o mundo dos Esports. Das 10 organizações que mais fundos arrecadaram em prémios, apenas uma não tem o Dota 2 e os fundos do The International como principal fonte de rendimento, e mesmo nesse caso, o dos Fnatic, a diferença, a pender para o lado do CS:GO, não chega a 100 mil. Sim, é dinheiro para os jogadores, mas também é dinheiro para as organizações que, posteriormente, o aplicam em vários pontos da sua estrutura. É um balde de água a regar uma terra muitas vezes carente de humidade.

A evolução do prémio dos recentes The International tem sido documentada e acompanhada ao minuto

O The International é gigante. Acompanho-o desde o seu terceiro ano. Vamos a entrar para o nono ano e, desta feita, confesso-me surpreendido com o que tem vindo a decorrer. Falando especificamente de Dota 2, o cenário competitivo evoluiu para um sistema de Majors e Minors, mutuamente exclusivos (a fim de dar hipótese a equipas mais pequenas), que, além do dinheiro em causa, distribuem pontos que permitem a qualificação para o The International. Com os pontos a assumirem maior relevo, os valores envolvidos nestas competições desceram, o que está em linha com a recente política da Valve de abrir oportunidades para organização deste tipo de eventos a organizadores privados. Empresas como a ESL, a MDL, a Starladder, a Epicenter e outros podem então organizar eventos de relevo sem necessitar de despender os 3 milhões de dólares em prémios do anterior formato, sem correr o risco de perder a sua atractividade para as equipas de topo que, com elas, trazem o público ao local e às streams.

Como se discutiu na Rubber Talk, embora o formato seja visto com bons olhos, há também quem questione o impacto de cavar um fosso ainda maior entre o The International e os restantes torneios do cenário competitivo. Fazer deste evento um make-it-or-brake-it para salvar toda uma época desportiva e financeira pode ser um risco.

De qualquer forma, os bons eventos têm-se multiplicado, talvez até com proximidade em demasia. O soberbo Major MDL Disney Paris terminou há escassos dias e prepara-se já o arranque do Epicenter. Apetecia-me falar um pouco da magia inerente à realização de um torneio de Esports num local tão icónico como a Euro Disney. Aqui pelo Rubber, um punhado de aficcionados chegou a cogitar a hipótese de marcar presença lá, aplaudindo as jogadas enquanto se usava um par de orelhas do Rato Mickey. Não foi desta. Mas já estivemos mais longe.

Com essa multiplicação de eventos e consequente diluir da atenção mediática, confesso então que não estava à espera de uma reacção muito impactante ao lançamento do Battle Pass que prepara o caminho para o The International. Há 7 ou 8 anos que se traça um destino fatídico ao maior evento dos Esports. O de “este ano não vamos conseguir ultrapassar o ano anterior”, sinal, claro, inequívoco e nada exagerado de que o jogo e o seu meio competitivo estão a morrer. Pois.

Ora bem, uma semana depois do lançamento do Battle Pass, cuja facturação vê 25% do seu valor ser adicionada ao gigantesco prémio do evento, a coisa não poderia ser mais óbvia. 25%. Ou, vá, à data em que vos escrevo estas linhas, 24.96%. O valor angariado na primeira semana é 25% ao valor angariado no mesmo período do ano passado – o melhor até então.

O valor do prémio ascende então a mais de 11.5 milhões de dólares. Quase 10 milhões de incremento. O que, feitas as contas aos 25% que são efectivamente canalizados para o prémio, colocam a Valve a facturar, numa semana, 40 milhões de dólares em itens digitais de um Battle Pass.

A questão que ainda me vão colocando é só uma: Afinal, o que raio é que o raio do Battle Pass tem para que tanta gente gaste dinheiro nele?! Para que tanta gente gaste dinheiro num jogo gratuito?

A página oficial do Battle Pass mostra quase tudo aquilo que por aqui vou tentar resumir, mas o importante a manter é: quase tudo pode ser vendido. O Steam Marketplace permite vender a esmagadora maioria dos itens mais exclusivos e valiosos que este Battle Pass desbloqueia. E, para o restante, o Ebay vai sendo a montra de eleição. Mas vamos lá, por partes.

Adquirir o Battle Pass dá ao jogador:

Itens Cosméticos:

  • Torres animadas
  • Consumíveis – uma espécie de raspadinha com vários prémios, e três outros elementos decorativos para animar o jogo
  • Avatar Banner – uma maneira de colocar, em pleno mapa do jogo, uma bandeira com o nosso herói ou com a nossa imagem da Steam… para lembrar aos presentes aquela jogada que fizemos
  • High Five – um cumprimento entre jogadores, companheiros ou adversários
  • Versus Screen – uma apresentação diferente aos heróis e jogadores antes de cada jogo
  • Treasure I, II e II – cada um com perto de 10-11 skins exclusivas diferentes. As raras podem ser vendidas e atingem valores elevados
  • Terreno de jogo Overgrown Empire – alusivo ao tema deste The International, a floresta
  • Tiny Prestige Item – uma skin/remake da personagem Tiny
  • Acolyte of the Lost Arts – um remake completo ao personagem Invoker
  • Planetfall – uma skin Arcana da personagem Earthshaker
  • Axe Unleashed – uma skin e remake exclusivo da personagem Axe, subordinado ao tema
  • Chat Wheel, sons e stickers – um conjunto de stickers a aplicar no mapa de jogo, bem como de sons a serem reproduzidos no mesmo. Os mais cobiçados são excertos de som de casters aquando de jogadas marcantes em eventos grandes.
  • Custom Lane Creeps – skins para os creeps/minions de cada equipa
  • Courier – skin evolutiva para a estafeta que nos traz os itens durante o jogo
  • Ward – skin para as wards que usamos no jogo
  • Taunts – animações provocatórias para vários heróis
  • Announcer Pack da Dark Willow – comentários do jogo feito pela personagem Dark Willow
  • Music Pack – Todo um conjunto de músicas dentro do jogo, compostas por Russell Brower, vencedor de três Emmys
  • Efeitos cosméticos sazonais
  • Efeitos aplicáveis ao rio, dentro do terreno de jogo

Modos de Jogo:

  • Wrath of the Mo’Rokai – um modo de jogo/evento especial, de acesso exclusivo
  • Desafio do Treinador – um modo de jogo exclusivo que permite aos jogadores disputarem jogos na posição de treinador, orientando uma equipa de rank inferior ao nosso, usando das ferramentas disponibilizadas para tentar levá-la ao sucesso. Há recompensas sob a forma de items quando bem sucedidos.

Quests:

  • Jungle Expedition – um sistema de quests, em jeito de Dungeon Crawler. Cada vitória com determinado herói presente numa das salas permite explorar essa sala e colher daí os seus benefícios (pontos para o Battle Pass, skins, consumíveis, etc)
  • Desafio diário
  • Desafios semanais
  • Achievements

Outros:

  • Party Finder – Uma forma de adicionar bons companheiros de jogo a futuras parties sem necessitar de os ter na lista de amigos
  • Avoid Player – Nem sempre um mau jogador merece um Report. Mas esta ferramenta permite-nos afastá-lo de vez das nossas futuras equipas.
  • MVP Vote
  • Assistente de jogo – Para ajudar os jogadores a escolher o seu herói, mostrando-lhe bons e maus match-ups para companheiros e adversários.
  • Rank Double Down – uma vez por semana, permite dobrar os pontos de MMR conquistados… ou perdidos
  • Apostas – decididas antes do jogo começar, permitem ganhar pontos para aumentar o nível do Battle Pass
  • Votação para próxima Arcana
  • Gorjetas de pontos Battle Pass, para premiar jogadores
  • Trivia Quiz
  • Compendium do The International – com toda a caderneta de jogadores, equipas, casters, analistas, abrindo também a secção de apostas
  • Roleta de atribuição de prémios
  • Items exclusivos da equipa preferida
  • Aegis of Champions e Baby Roshan – estatuetas em bronze, enviadas por correio, para os que logrem atingir os nívels 1000 e 2000 no Battle Pass.

As caixas com o Aegis são enviadas para todo mundo. Muitos colocam-nas à venda por algumas centenas de Euros, no Ebay

A lista é extensa e provavelmente faltar-me-á aqui um punhado de coisas. É provável que grande parte do que aqui está vos diga pouco, se não jogam nem costumam acompanhar o jogo. Mas o que está aqui em causa é mais do que o jogo. É o modelo de negócios criado e maturado pela Valve que surpreende mesmo os que ao jogo estão ligados. Nunca houve um volume de vendas tão grande em tão pouco tempo. E o segredo está naquilo que se oferece ao público e jogadores, sobretudo com o envolvimento de membros da comunidade competitiva. As Tips, ou gorjetas, que foram criadas com o intuito de premiar jogadores após uma boa jogada, podem – e são! – usadas como forma de desestabilizar um adversário após uma má jogada, mesmo em ambiente competitivo. O acto, encarado com humor, funciona como uma ferramenta de envolvimento para o público, que retira entretenimento das quezílias (maioritariamente amigáveis, diga-se. Salvo raras excepções, grande parte da comunidade competitiva do jogo mantém uma convivência salutar, até porque não raras vezes disputam jogos em parceria, a partir de suas casas). As Chat Wheels fazem-no de igual forma, provocando, entretendo ou justificando jogadas, tanto em jogos públicos como competitivos. Ver reproduzido a o célebre grito do caster Tobi Dawson aquando de uma jogada que viria a decidir um The International, com o seu “IT’S A DISASTAH” sempre que eliminamos toda a equipa contrária, sabendo que eles o ouvem também, adiciona a um dos jogos e esports mais competitivos da actualidade um factor que, por vezes, se vai diluindo neste meio dos esports: a diversão.

Queremos jogos competitivos, desafiantes, exigentes… mas queremos, sobretudo, divertir-nos enquanto jogamos. Rir. Encontrar novas formas de criar humor dentro de um jogo que, no seu meio competitivo, é sério a ponto de definir carreiras e vidas. Há uma ânsia por encontrar, no meio de um jogo que a maioria encara de forma competitiva, uma luz de boa disposição e genuína diversão. A Valve parece ter percebido isso. E eu também. Ou não andasse eu, nos meus jogos, a activar a cobra-balão e a jogar volley com os meus companheiros de equipa e adversários durante a laning phase.