No final de Fevereiro o mundo perdeu Mark Hollis pela segunda vez, mas desta vez definitivamente. O último reduto da luta artístico dentro de um sistema multimilionário da indústria criativa, que conduziu as suas composições e evoluiu os Talk Talk na década de 1980 entre um synthpop que já era por si mesmo superior a qualquer coisa que o mercado apresentasse, mas que foi sendo depurado até à sublime expressão musical sensorial dos últimos álbuns da banda britânica, criando aquilo que conhecemos hoje como post-rock pelo caminho. Descontente com a prostituição da Arte em honra do deus-lucro, Hollis acabaria por terminar os Talk Talk e a sua própria carreira, guardando a sua Arte e as suas criações para si mesmo, impedindo-nos a todos de saber o que se passava numa das mentes musicais mais criativas do final do século passado.

Hell is Other Demons, resultado criativo de uma pessoa só, Hannes Rahm, não será tão influente quanto o contributo de Hollis, nem sequer será lembrado na História dos videojogos. Mas a estrada criativa de depuração é semelhante, ainda que em media diferentes. E esse é o grande valor q lhe atribuo.

Este bullet hell platformer segue as pisadas do grande Downwell, não só na direcção estética com o seu monocromatismo pautado pelo contraste da adição de mais uma cor, mas também pela solidez depurada das suas mecânicas e dos seus controlos.

O nosso protagonista, um demónio evadido do Inferno e cuja missão é destruir todos os seus irmãos-demónios, vem munido de um stomp attack semelhante ao do Mario, e a capacidade de ir apanhando power-ups para as suas armas, dashes e saltos.

O feel de ambos os jogos é, convenhamos, idêntico, o que é um tremendo elogio para a criação de Rahm. Se num o desafio era vertical descendente, neste todos os obstáculos que nos são atirados existem num ecrã estático onde nos podemos mover através de um número reduzido de plataformas, que nos vão ajudar a escapar dos muitos projécteis que chovem pelo nível.

Os dois modos principais têm motivações distintas. Por um lado o modo campanha leva-nos a percorrer um hub world onde cada missão irá envolver boss fights e vagas de inimigos para derrotar, mas onde podemos comprar upgrades permanentes que nos facilitem progressivamente o duro desafio de Hell is Other Demons. O modo arcade, mais clássico, faz-nos medir a nossa perícia versus a melhor pontuação que consigamos alcançar. Em ambos os casos este Hell is Other Demons move-se com uma fluidez impressionante, que só torna a experiência de jogo cada vez mais satisfatória independentemente do desafio quase cruel (mas nunca injusto) que cada nível apresenta.

Mas a minha surpresa com a qualidade de Hell is Other Demons prende-se com o facto de que Rahm pegou em diversos géneros, misturou-os, depurou-os ao ponto de obter uma poção filtrada e transformou-a numa equilibrada mistura de vários outros jogos que funcionam na perfeição num jogo apenas, reduzido à simplicidade dos vários elementos que o compõem.

Com uma banda sonora excelente que se ajusta na perfeição com tudo o que Rahm conseguiu fazer com estes 8 bits e uma paleta de cores reduzida, Hell is Other Demons é uma das excelentes surpresas do mercado indie, um jogo desafiante e brilhantemente executado, onde tudo o que o compõe foi filtrado para a máxima eficácia.