Não me lembro de quando vi o trailer de Rage 2, se foi na E3 do ano passado ou do ano anterior, mas é o suficiente dizer que foi marcante de tal maneira que não só não me lembro se o vi há um ou dois anos como nunca mais pensei no jogo até ele me ser enviado para testar há uns dias. Não sei se Rage 2 teve um grande hype até agora mas não me parece. Este open world first-person shooter em ambiente pós apocalíptico traz muito pouco ou nada de novo ao mercado que não esteja já saturado de open world, first person shooters e ambientes pós apocalípticos.

Era difícil esperar que a Avalanche que desenvolveu os Just Cause e o fantástico Mad Max fizessem algo fora da sua zona de conforto, muito menos quando associados à Bethesda. Ao dizer isto, não é uma crítica negativa é apenas uma constatação de um facto que é raro que estúdios de jogos façam jogos consideravelmente diferentes do seu habitual, estúdios que fazem jogos de corrida raramente vão arriscar em desenvolver um RPG e vice-versa. Há uma percentagem muito pequena de sucesso nos muito poucos que arriscam alterar as fórmulas dos seus jogos portanto é compreensível que não seja um trilho seguido pela indústria no seu todo, é preferível viver na máxima de “Em equipa que ganha não se mexe.”, sendo esse o caso de Rage 2 em que temos uma amálgama dos Greatest Hits de Just Cause, Mad Max e até um pouco de Fallout… mas muito pouco.

Talvez a melhor forma de fundamentar esta opinião sobre Rage 2 é expondo os seus pontos negativos que não são propriamente maus, mas também não são nada que se possa elogiar. Rage 2 é repetitivo. Em vez de um suposto open world no qual podemos vaguear e fazer uma multitude de acções alternativas acabamos por cair na sequência de ir ao ponto X matar tudo o que encontramos pelo caminho e no local, fazer level up e ir para outro ponto X e repetir. Os pontos têm adversários relativamente diferentes, umas vezes humanos punk, outras mutantes e cyborgs, uns maiores outros mais pequenos mas no geral não há muita diferença nem grande necessidade de estratégias diferentes para os derrotar. As secções de condução também acabam por deixar a desejar porque mostram que o open world não é assim tão aberto como gostaríamos, é muito fácil encontrar um monte ou desfiladeiro intransponível que nos obrigam a viajar pela estrada ou muito próximo dela, não permitindo uma liberdade que seria desejado, ou no mínimo esperado, de algo com esta envergadura. Depois de jogos open world como Legend of Zelda Breath of Wild, Red Dead Redemption 2 ou até Spider-man, não podemos dizer que Rage 2 esteja sobre carris mas que está muito confinado no seu espaço.

O pior pecado, se assim o podemos chamar, de Rage 2 é sem dúvida da sua falta de enredo. Tudo bem que não espero uma obra gigante com a profundidade de crescimento de personagens e maquinações políticas de um Game of Thrones nas suas primeiras 4 temporadas num jogo cujo cerne é a luta do último Ranger (que não sabemos bem quem eram ou para que serviam) contra a Authority, auxiliado por um número de rebeldes que compõem uma pseudo-resistência que temos que coordenar os recursos, mas por outro lado não espero algo com o nível de desleixo das últimas temporadas de GoT. Exemplo sem grandes spoilers porque é o resumo do tutorial:

Controlamos um personagem num mundo devastado por um asteróide (até ver, a única ligação com o jogo original) durante o ataque surpresa à nossa pequena colónia orquestrado pela Authority que toda a gente julgava extinta. Durante a luta, vemos um Ranger ser morto e vestimos a sua armadura especial que dá atributos sobre-humanos ao seu detentor e vamos de encontro da líder da colónia sendo exposto a caminho que ela irá ficar furiosa porque nunca quis que nós fossemos um Ranger e tinha feito tudo para o impedir até agora. Líder é morta pelo seu arqui-inimigo que afinal não está morto, e depois de acordar de um estado inconsciente vamos ao registos onde descobrimos uma mensagem dirigida a nós, feita pela líder em que ela:

  • Faz referência ao ataque – Era surpresa, como é que ela sabia dele?
  • Diz que somos o último rangerEstamos a ver uma gravação, ela morre no ataque e não pode saber quantas pessoas sobreviveram.
  • Explica como há uma rede de líderes de uma resistência convenientemente especializados em armas, veículos e tecnologia que temos que contactar para lutar contra a AuthoritySe a Authority estava extinta e acabada, foi para jogar pelo seguro decidiram ser precavidos e preparar-se para uma eventualidade destas?

Podia continuar e exemplificar como os diálogos são vazios e pouco interessantes, mas na verdade não vale a pena. Basta dizer, continuando a comparação, que estão ao nível da simplificação intelectual de Littlefinger, Tyrion e Varys, nas últimas temporadas de GoT. O enredo avança por duas razões: porque nos vai levar a um ponto para ver algo fixe ou só porque sim. Tal e qual como na série.

Resumindo: Se querem algo que pode ser explicado como um híbrido de Just Cause e Mad Max, que até pode ser divertido em tranches pequenas de 1 a 2 horas por sessão para não se notar excessivamente a repetição constante, Rage 2 é uma opção a considerar mas apenas em promoção ou bundle porque pelo preço actual deixa bastante a desejar correndo o sério risco de se tornar mais um que vai engrossar as fileiras de jogos medianos que rapidamente caem no esquecimento.