Completar The Legend of Zelda: Breath of The Wild é das piores coisas que pode acontecer a um jogador. Eis uma aventura, mundo e escolhas com tudo o que se possa desejar, que por fim termina. Como voltar a jogar algo à altura?

Tudo depende do que se está à procura, é certo, mas a verdade é que para mim, Octopath Traveler acertou em cheio. No meio de uma civilização de media sobre produzidos, repletos de acção, velocidade, explosões e intensidade, além de estar numa fase da vida especialmente acelerada, perfilou-se um jogo despretensioso que invoca os JRPGs de outrora com um estilo retro mas que tira o melhor partido da tecnologia actual para a sua envolvência, com efeitos luminosos e de profundidade que fariam alguns graficamente ambiciosos corar de inveja. A proposta de jogo é tão simples que a curiosidade é irresistível: escolher um de oito protagonistas e levá-lo numa aventura em que este desvenda mistérios sobre as suas origens e o seu lugar no mundo. Pelo caminho, explorar o continente de Orsterra e eventualmente descobrir algo sobre nós próprios. Escrito assim até parece saído de Pokémon

Não deixa de ser um lugar-comum, mas convido-o a seguir este raciocínio. Após escolher um personagem é possível ir em busca dos outros sete, conhecer a sua história e viajar pela narrativa de cada um. Utilizamos um máximo de quatro personagens em simultâneo quer em batalha quer pelo mundo de jogo. Os arcos narrativos desenvolvem-se isoladamente, enquanto os restantes personagens assumem um papel espectador, que se mantém até ao final de cada história, nunca perpendiculares entre si.

Cada um é livre de escolher um dos oito personagens iniciais e respectivos companheiros.

Nunca há uma ligação? Que aborrecido… mas não havia algo de maravilhoso na contemplação experimentada em Journey, em que outros jogadores nos ladeavam no caminho traçado? Octopath Traveler oferece-nos mais do que isso: para complementar uma narrativa simples, é-nos apresentada uma jogabilidade mais complexa do que a do clássico JRPG, cujas nuances reforçam as histórias e objectivos propostos. Primrose é uma Dançarina e somente nos é mostrado no seu prólogo a sua capacidade de cativar quem a rodeia. Mas seja na sua campanha ou na dos companheiros, as suas valências em batalha reforçam as capacidades dos outros personagens através de várias danças e rituais. E porque o seu percurso nos mostra uma personagem em busca de vingança, é uma adaga e a magia das trevas que completam o seu arsenal. Cyrus é um Estudioso sempre sedento de conhecimento e de como partilhá-lo com os outros, algo reflectido no seu arco narrativo. Por conseguinte, é ele quem domina mais variedades de magia e revela fraquezas escondidas nos adversários para que todos possam beneficiar disso. A jogabilidade ajuda a contar esta história.

Como em quase todos os Role Playing Games do género, as batalhas são frequentes enquanto se exploram os caminhos que ligam as várias cidades e aldeias. Tivesse sido reciclado o antigo modelo de escolha de uma acção através de um comando no menu para depois aguardar o efeito desejado e estaríamos perante um festival entediante. Nada disso. Um elegante sistema de forças e fraquezas entre personagens, habilidades e inimigos, que emprega um escudo que é preciso desgastar de forma a desferir depois os ataques mais poderosos, confere às batalhas elementos estratégicos para todos os gostos.

De um lado papéis lineares como o tradicional Guerreiro ou Mago – este descrito pelo papel de Estudioso de Cyrus –  cujo papel é tão somente infligir danos através de ataques físicos ou mágicos, do outro papéis mais complexos como a Caçadora que captura criaturas para usar as suas capacidades durante confrontos ou o Apotecário cuja combinação de ingredientes pode salvar ou tirar vidas. Com influências de Final Fantasy, Dragon Quest ou Bravely Default neste sistema, o estúdio Acquire criou algo novo que promete influenciar por sua vez o género daqui para a frente.

Entre personagens de diferentes complexidades, uma batalha tem várias camadas de estratégia.

Octopath Traveler é um jogo onde um vasto conjunto de elementos simples e já bastante vistos se compõe numa tela coerente cheia de subtilezas intencionalmente plantadas para que de uma forma natural o jogador se aperceba das suas relações. A própria história, muitas vezes lenta e contemplativa, convida-nos a explorar um mundo surpreendentemente realista – pese a magia e os monstros, claro está – onde não há escolhas certas ou erradas, onde tanto os honrados como os patifes têm um papel a desempenhar. Tudo isto num crescendo que não termina com as oito aventuras individuais de cada herói, antes com o completar de todas as missões secundárias que por fim fazem todas as peças encaixar neste universo, ao fim de perto de 100 horas que poucos jogos hoje em dia incentivam a investir. Por outro lado, não há investimentos em DLC ou microtransações.

Sem ser um open world game, Octopath Traveler apresenta um vasto conjunto de missões secundárias, onde podemos ajudar outros habitantes e até viajantes de Osterra a cumprir os seus objectivos à medida que conhecemos as origens deste mundo. Sem que, mais uma vez, haja apenas uma solução para todos os problemas. Uma viúva pode encontrar consolo em confirmar a identidade do cadáver ou ficar apenas com um objecto que prove o destino trágico do seu parceiro. Um fora-da-lei pode andar na linha depois de ser conduzido a algo ou alguém que o faça mudar de ideias. Ou pode levar uma sova das boas. O jogador tem vários desfechos para os mesmos problemas e explorar todos é uma recompensa em si. Cada um dos oito protagonistas tem para isto uma capacidade intrínseca fora das batalhas – Cyrus o Estudioso é um bom investigador, mas Alfyn o Apotecário tem uma empatia tal que os outros se sentem bem a falar com ele; por vezes queremos um item de alguém e precisamos de Tressa a Mercadora para o tentar regatear pelo melhor preço, ou simplesmente recorrer a Therion o Ladrão para, como é que eu hei-de explicar isto… o roubar.

Não importa se é um bêbedo ou uma criança… desde que tenha loot.

É certo que jogadores menos experientes ou mais jovens terão mais dificuldade em apreciar todas a subtilezas e referências contidas em Octopath. Requer outra atenção e distanciamento, que paradoxalmente criam uma grande imersão neste universo. É contra corrente do paradigma de entretenimento actual. As recompensas deste envolvimento, contudo, são tremendas. Se estiver disposto a um jogo de certos elementos (intencionalmente) repetitivos, cujas histórias genéricas escondem mensagens mais profundas que convidam à reflexão, sem que certos aspectos nunca nos sejam narrados – Cyrus sente-se derrotado ao tentar democratizar o acesso ao poder, Primrose trabalha num estabelecimento de alterne e Ophelia serve uma religião cujo único propósito é dar esperança ao povo sem que as suas premissas sejam mais válidas que as daqueles que veneram as trevas – mas sim demonstrados através de um game design cuidadosamente imbuído nessa história, Octopath não o ira desiludir. Não existe acção rápida e electrizante, proporções soberbamente épicas a la Tolkien ou tecnologia fantasiosa fora da caixa. É apenas um mundo medieval com magia, monstros e muita humanidade, cujos dividendos são proporcionais ao investimento que o jogador estiver nele disposto a fazer.