Acho que é piada recorrente para os meus amigos e amiga de Arqueologia as menções a Indiana Jones, Lara Croft, e Tomb Raider. Uma visão glorificada e hollywoodesca do que é afinal o trabalho de um arqueólogo e que possivelmente influenciou as opções de carreira de algumas pessoas pelo mundo. Não devem é ter demorado muito a perceber que não só as oportunidades de emprego não são exactamente aquilo que Hollywood promete, como (acredito que felizmente) o número de tiroteios em que estarão envolvidos durante uma jornada de trabalho é bem mais reduzido do que se espera.

Heaven’s Vault é um jogo de ficção científica onde vivemos o papel de uma das arqueólogas mais respeitadas do meio académico. Não consigo deixar-vos mais avisos do que estes: acreditem que a ideia de um Indiana Jones de arma em punho a derrubar nazis não vai de todo fazer parte do vosso métier em Heaven’s Vault, mesmo tendo em conta o facto de que na vossa tarefa vão andar acompanhados por um robot. A acção é mais reduzida do que num filme do João César Monteiro, e ainda bem.

A nossa missão é, em teoria, simples: descodificar uma língua antiga, e com ela saber os significados de alguns escritos hieroglíficos espalhados por artefactos e monumentos. Uma tarefa de uma vida que no nosso mundo é levada a cabo por incontáveis pessoas e que recai nos ombros de apenas uma.

Heaven’s Vault é um jogo eminentemente narrativo, naquilo que é a tradução mais realista possível do que é o verdadeiro trabalho científico e académico da arqueologia, de explorar, investigar e criar um sentido a elementos passados, neste caso, uma língua perdida na memória.

Mecanicamente o jogo vai-nos permitindo atribuir um significado aos hieróglifos através de um sistema de arrastamento em que “ligamos” um símbolo a uma palavra. As muitas pistas que a nossa investigação vai desenterrando vão permitindo que a nossa protagonista vá questionando as nossas escolhas, como se estivesse a falar consigo mesma. Muitas vezes ele relembra-nos dos diálogos que teve com cidadãos comuns e outros académicos e que podem de alguma forma contrariar a nossa ideia de tradução.

O sistema de bifurcação e investimento emocional é feito ao estilo Bioware, na qual temos uma árvore de opções que se vai abrindo com posicionamentos emotivos diferentes. Das respostas claramamente evasivas às ligeiramente efusivas, e algumas linhas de diálogo surpreendentes que não são bem aquilo que queríamos que a protagonista dissesse, mas que ajudam a cimentar Heaven’s Vault dentro da sua qualidade de escrita.

O lore de Haven’s Vault e toda a sua backstory são o sumo que extraímos da jogabilidade, dos misteriosos rios espaciais que unem os planetas em volta aos artefactos desconhecidos que poderão servir de pedras de um caminho histórico que ainda ninguém descortinou. Ainda que interessante, não é o universo desta história a verdadeira preciosidade do jogo, mas sim a abertura que ele nos permite seguir para alcançar o nosso objectivo.

Depende de nós dar um seguimento minucioso à exploração de pistas muito específicas ou simplesmente apostar numa abordagem aberta e visitar cada um dos espaços disponíveis. E é nestes momentos, nos pequenos detalhes, que vamos encontrando confirmações para aquilo que supomos ser a tradução certa dos diferentes caracteres registados nos nossos livros. É frequente que um texto posterior vá usar as traduções que fizemos mas pode sugerir-nos repensarmos as nossas traduções, cimentadas por comentários da protagonista que vai revisitando as pequenas descobertas que foi fazendo e que podem ir contrariando as traduções que estabelecemos.

Este jogo recém lançado em PC e PS4 é visualmente brilhante. Mas admito que a minha proximidade com ele prende-se quase em exclusivo com o quão palpável é a abordagem investigativa à descodificação de uma língua antiga, e a forma magistral como esse ambiente de quase-realismo se interliga com o trabalho do dia-a-dia, e de décadas, de um arqueólogo.

Heaven’s Vault não é decerto um jogo para todos, mas dentro da sua postura terra-a-terra acaba por ser um dos takes mais surpreendentes aos jogos narrativos. Para os apaixonados da linguística e da etimologia (e da arqueologia) é uma obra ímpar.