Os britânicos têm uma forma muito única de criar. Arriscando uma certa postura eurocêntrica, é-me fácil indicar o Reino Unido como a grande fonte de revoluções culturais desde meados do século passado. Especialmente a música, a comédia e a televisão que foram (e em alguns aspectos são) marcados pela criatividade e genialidade britânicas. Hollywood pode ter o capital e os efeitos especiais, mas se olharmos para Snatch de Guy Ritchie, Trainspotting de Danny Boyle e Get Carter de Mike Hodges (o original, com o grande Michael Cain), percebemos que entre a abordagem britânica e a americana vai mais do que um oceano de distância.

Blood & Truth é mais Jason Statham do que Bruce Willis, mais tensão e aura cockney do que bravado californiano. Não fosse uma das razões para isso este Blood & Truth ser desenvolvido pelo London Studio da SIE, responsável pela série The Getaway e pela demo London Heist que serviu de promoção ao lançamento do PSVR.

Já não me lembro se à época falei sobre isso, mas apesar de ter experimentado diversos jogos para Vive e Occulus antes do lançamento do dispositivo de VR da PlayStation (sendo que a maioria dos títulos se centravam na exploração narrativa de ambientes), quando experimentei London Heist senti que aquela era a definitiva experiência que tinha tido em Realidade Virtual. E não o era pelo realismo (é fácil de notar a diferença de resolução entre um Vive e um PSVR) mas sim pelo tipo de abordagem mecânica que estava a ser levada a cabo. O Diabo está nos detalhes, e o London Studio sabia-o e pô-lo em prática.

Estar sentado na carrinha e poder abrir o porta-luvas e investigar debaixo do banco foram pequenas pérolas de imersão quando comparados à ideia de termos de utilizar os Move de forma a carregar “realisticamente” os cartuchos na nossa arma. Era neste tipo de pormenores simples mas que elevavam acções que habitualmente vemos em jogos como meros pulsares de botão, e que tinha aqui uma profundidade gesticular completamente distinta.

Blood & Truth é a extensão dessas experiências e tech demos construídos pelos London Studio de forma a aproveitar as boas ideias que desenvolveram para o lançamento do PSVR.

Para trás ficou o ambiente da máfia e foi abraçada uma abordagem de James Bond se este tivesse Ritchie a realizá-lo. Uma história que não sendo brilhante nem inovadora, mas que consegue ser bem pautada com boas interpretações dos actores e dos seus contrapartes tridimensionais.

O ritmo dos espaços entre acção exalam a alma britânica. Para quem não consegue tocar nesta ideia basta pensarem na diferença rítmica que existe na realização da magistral série Broadchurch, protagonizados pelos gigantes David Tennant e Olivia Coleman (para além de um elenco de luxo que inclui a Jodie Whitaker e David Bradley), e a sua adaptação norte-americana (denominada Gracepoint), pelo mesmo autor (Chris Chibnall) protagonizado por Tennant e um elenco igualmente de luxo que incluía Nick Nolte. O ritmo narrativo e dinamismo de acção entre as duas é completamente distinto para se adaptar aos respectivos públicos, e se no caso do primeiro falamos de uma das séries mais aclamadas deste milénio, no caso da segunda falamos de um equívoco televisivo.

Blood & Church tem esse ritmo britânico, dando espaço a que a acção, que é proeminente para o tipo de jogo é, mas que consegue ter áreas de respiração com cenas de desenvolvimento narrativo. É talvez graças a estes espaços de crescimento que as muitas sequências de acção de cover shooting acabem por revelar-se grandes momentos de imersão em VR.

O nosso ónus de movimentação remete-se apenas a apontar para alguns pontos de cobertura indicados no ecrã para onde o nosso protagonista se terá de deslocar, noutras tantas secções entramos em momentos de rail shooting. A nossa grande responsabilidade passa sobretudo por apontarmos e dispararmos para os nossos inimigos, desviarmo-nos das suas balas, mudar de arma e trocar cartuchos sempre que necessário, tudo isto dando um uso brilhante à inclusão dos Move.

Não sendo um jogo exclusivo dos controladores criados para a PS3, a realidade é que a utilização deles é amplamente aconselhado em detrimento dos Dual Shock. Mesmo algumas ideias menos interessantes como a de alinhar os Move para replicar uma simulação de mira de espingarda acabam por ser uma expressão da vontade dos London Studio de criar algo diferente e puxar em frente a utilização da componente gestual e da imersão de jogabilidade.

Para além das componentes de acção, há outras formas de explorar o gesto e a utilização de cada um dos Move enquanto sucedâneos de umas mãos virtuais: a resolução de puzzles utilizando ferramentas como chaves-de-fenda e afins.

Blood & Truth acaba por ser uma das melhores experiências cinematográficas exclusivas de PSVR, com muitas sequências de acção sob carris que coloca o ónus da tensão nos tiroteios e na nossa sensação de imersão nesses mesmos capítulos. A interligação com os Move e os pequenos detalhes de interacção que nos são permitidos acabam por torná-lo também uma das melhores experiências verdadeiramente únicas para o VR, permitindo ao dispositivo da PlayStation receber dois dos seus melhores exclusivos (e também dois dos melhores títulos de imersão VR) no mesmo mês (sendo o outro, obviamente, Ghost Giant). Blood & Truth é também uma demonstração in-house de algo que começou como tech demo e que evoluiu para uma experiência por si só, que sabe o que quer mostrar e quando quer mostrar, focando a nossa atenção nas muitas possibilidades interactivas que a Realidade Virtual pode trazer. E isto é só começo.