Tenho a impressão que é a passagem dos anos que nos obriga a olhar para as coisas com um ar cada vez mais nostálgica. Receber um novo Total War transporta-me imediatamente para os meus tempos de Faculdade e de associativismo estudantil, e de estar a fazer LAN parties na Associação do ISCTE numa espécie de torneio inter-dirigentes associativos.

Cada nova iteração com o qual eu tenha uma ligação passada acaba por despoletar este tipo de memórias recorrentes. Apenas imagino o que me vai acontecer aos 70 anos quando sair o Rome: Total War 8. Isto se a Humanidade ainda existir, é claro.

Total War: Three Kingdoms é a mais recente iteração da famosa série da Creative Assembly, e arrisco-me a dizer que é possivelmente a melhor. Amplamente assente em todas as definições que a série criou ao longo de 15 anos, numa fórmula que foi sendo testada e melhorada de título para título, e que encontra aqui nesta adaptação do épico Romance of the Three Kingdoms de Luo Guanzhong o seu expoente máximo.

Depois de Warhammer, e com a entrada definitiva de Total War em campos não estritamente históricos (a obra de Guanzhong tem referências históricas mas é sobretudo um épico), muitos fãs temiam que a aura de seriedade que a acompanhou com tantas campanhas centradas em momentos reais pudessem de alguma forma “manchar” a própria franquia. No meu entender isso não poderia estar mais longe da verdade. Pensemos no facto do novo modo intitulado Romance Mode “esticar” algumas novas ideias sobre Total War, assentes na aura de fantasia do próprio livro.

É neste modo Romance que os generais assumem uma importância e um poder quase sobrenaturais, retirando-lhes todo o realismo e ganhando com isso uma forma diferentes de jogar. Cada exército em combate pode incluir 3 generais, que são 3 figuras com “classes” diferentes mas cujo poder singular é suficiente para literalmente mudar a frente de batalha. Um general destinado ao combate consegue sozinho derrotar batalhões adversários. As semelhanças com Dynasty Warriors não são coincidência.

A importância narrativa dos generais entram em efeito também com a possibilidades destes de duelarem em pleno campo de batalha, com o vencedor a dar a possibilidade de executar ou recrutar o vencido. Um pormenor curioso que encontramos durante os duelos prende-se com o extremo detalhe visual das animações das muitas unidades que se encontram no terreno. Enquanto dois generais duelam, é possível vermos os restantes exércitos a embaterem entre si lá ao fundo ou à sua volta, criando uma existência palpável a todo o jogo.

No entanto, admito que apesar da continuada minúcia e detalhe militarístico de Total War, a componente de combate em tempo real dos exércitos é aquele que menos me agrada, e o qual prefiro resolver em sistemas automáticos.

Total War permite isto, e Three Kingdoms não é excepção. É um jogo para vários tipos de jogadores, entre aqueles que querem parar o tempo e deslocar ao metro cada batalhão, posicioná-los e definir estratégias e tácticas no terreno, àqueles, como eu, que se divertem com a componente por turnos, em que a descrição diplomática se assume como um jogo dentro do jogo.

O comportamento da IA na manipulação diplomática é mais um sinal da evolução dos algoritmos do próprio jogo, com cada facção controlada pelo computador a estabelecer metas e objectivos próprios, que se vão alterando com o decorrer do jogo, e que vão reflectindo as mudanças de “humores”, quase próximos de um humano.

Visualmente brilhante, a optimização técnica do jogo para nos permitir visualizar todos os seus detalhes e o seu ambiente quase pincelado é uma verdadeira maravilha artística, e surge aqui como mais uma prova da evolução constante que a série tem sofrido.

Total War: Three Kingdoms arriscou em alternar a sua vivência clássica, aqui materializado com o modo Records, quasi-histórico, com uma vertente diferente, fantasiosa, na qual os generais são super-unidades que alteram a corrente da batalha. Para além da introdução dos duelos e do aprimorado sistema de diplomacia, é impossível não ver este Three Kingdoms como um jogo obrigatório para todos os fãs da série, sejam eles estrategas militares de cadeira de computador, ou diplomatas aguerridos do clique do rato.