É momento de reflectir! Apesar de este tema não ser novo nos vários artigos que já publiquei na Rubber Chicken, penso que nos encontramos numa fase de importante transformação de pensamento, onde todos nós nos devemos colocar em auto-reflexão sobre os nossos próprios preconceitos mesmo quando pensamos não os ter. Não sei se o caso que vos trarei hoje é ou não uma destas situações, deixando isso à reflexão de cada um. Mas o que verdadeiramente me questionei foi o impacto que situações como a que mais recentemente ocorreu podem ter numa cultura em crescimento, deixando isso ao critério de todos pensar.

A Notícia e a Polémica

Nos próximos dias 9 e 10 de Junho de 2019 (o evento começa hoje) irá ocorrer o Evento Girlgamer Sidney Festival, um evento que teve a sua segunda edição em Portugal em Julho de 2018 e que se anuncia como tendo o propósito de “empoderar jogadoras do sexo feminino a competir no mais alto nível no âmbito dos esports“, algo referido recentemente por Andreia Conceição, Partnerships Manager do Evento. 

Nos últimos dias foi anunciado que o evento de 2019 iria ter como parceiro não endémico a grande marca de cosméticos Benefit Cosmetics. Esta não é a primeira vez que neste evento existem parceiros associados à cosmética, tendo o ano passado a Sephora sido a marca que cooperou para o mesmo efeito. Em comentários aos media, a Benefit Cosmetics refere “Na Benefit, levantamo-nos para causas associadas ao espírito de irmandade e sempre o fizemos desde a nossa fundação com duas mulheres como chefia em São Francisco, 1976. O Evento Girlgamer integra exatamente o que nos apaixona na Benefit, que é empoderar mulheres e raparigas a fazerem e sentirem-se no seu melhor. Não há coisa que gostemos mais que raparigas que saem e vão à luta! Mal podemos esperar como tudo isto irá ganhar vida no fim de semana que aí vem!”

Da parte do Evento foi ainda referido que “É um previlégio ter a Benefit como parceira, tendo em conta as ações da marca ao longo da história, por forma a empoderar as mulheres. Não poderíamos estar mais entusiasmados por trabalhar com um parceiro que partilha a nossa visão tão apaixonadamente“.

Perante a noticia do evento- principalmente no que respeita o seu nome “Girlgamer” – várias foram as reacções que foram sentidas por algumas caras conhecidas no mundo dos esports mundial e português, nomeadamente num thread de Twitter colocado por Paul Chaloner, host de vários eventos internacionais de esports, principalmente na modalidade de DOTA2. As reacções são ambíguas nos vários comentários, existindo quem veja como algo bastante positivo, e outros que encaram o nome/intuito do evento como algo inapropriado face à imagem que é constantemente impressa na figura feminina neste contexto. Alguns exemplos abaixo:

Tweet de Paul Chaloner, Host de Eventos Internacionais de Esports

 

Comentários de Moove, Host do programa “Late Night Moove” no canal HypedGG, no tweet do Paul Chaloner, Host de competições internacionais de Esports

 

Comentários de Soe Gschwind-Penski, host de eventos internacionais da Blizzard

Pouco foi comentado negativamente quanto à presença da Benefit como parceira, no entanto não deixou de ser realizada a associação desta presença pelo facto de serem mulheres as pessoas centrais do evento, encaixando-se este perfil no interesse por cosméticos.

Mulheres… dentro ou fora da caixa?

É inegável que existe uma fragilidade associada à igualdade de género no Mundo dos Esports, assim como em muitos outros Mundos da nossa sociedade. Muito já foi feito para retirar a mulher da caixa do seu papel de género e preconceitos, os quais acarretam e acarretavam consequências  que levam à desigualdade, mas é também um facto que muito existe ainda por fazer.

Em artigos anteriores no Rubber Chicken, explorei a discriminação realizada – ainda nos dias de hoje – às jogadoras ou atletas de sexo feminino, não sendo estas muitas vezes encaradas com a mesma credibilidade, capacidade e competência que os jogadores de sexo masculino o são (algo que neste artigo especifico não irei aprofundar tanto ao nível da investigação existente). É também inegável que as premissas e argumentos dados para fundamentar esta discriminação são infundados, e que tanto na investigação como na performance vemos estes negados.

Tudo isto parte do nosso panorama sociológico e da educação no seu todo. O papel de género e a forma como este nos é ensinado e incutido desde cedo afecta a nossa percepção, atuação connosco próprios, atuação com os outros nos ambientes sociais em que nos encontramos e até mesmo a forma como praticamos o ativismo associado às nossas crenças. Os “Mundos dos Homens” e os “Mundos da Mulheres” sempre foram muito caracterizados e enfatizados, e neste caso, o mundo do gaming e esports começou por ser encarado como algo parte do Mundo ou da Caixa dos homens. O que é facto é que este tal como muitos outros contextos não são caracterizados por sexo nem género (a estatísticas já tão faladas assim o permitem dizer) e tal traz inúmeras reacções por parte da comunidade. Naquilo que é a minha visão pessoal contextual, sinto que acabam por existir na comunidade aqueles que fomentam, acreditam e atuam por base na discriminação; os que referem não discriminar mas que inconscientemente acabam por fazê-lo e os que não discriminam. E esta notícia e suas reacções inevitavelmente fizeram-me reflectir sobre estas várias valências, principalmente naqueles que referem não discriminar e até querer combater esta discriminação mas que inconscientemente podem acabar por fazê-lo, alimentando a diferenciação.

Primeiro, o que é discriminação? A discriminação define-se por distinguir ou diferenciar uma ou mais pessoas adoptando uma postura preconceituosa ou com ideias pré-concebidas. As pessoas discriminadas acabam por ser segregadas ou excluídas de alguma forma, ou por outro lado verem-se menos representadas ou marginalizadas da sociedade ou de um determinado contexto.

Mesmo da parte dos que referem ser muito positiva a presença de mulheres no mundo dos esports, mesmo com a consciência de que as mulheres já são praticamente metade dos consumidores do mundo do gaming, ainda oiço nos dias de hoje comentários como: “Não há mais investimentos dos clubes nas equipas de raparigas porque elas são demasiado instáveis e entram em muito mais conflitos que os rapazes”, ou “Equipas mistas não funcionam porque depois os rapazes estão sempre atrás delas, há confusões amorosas, e tudo isso pode levar à destruição de uma equipa.” ou “Ui perderam contra uma equipa de “gajas”? Que fracos”. Crenças e preconceitos que vão sendo criados com base numa diferenciação infundada e que têm consequências negativas. A estes juntam-se os comentários habituais já falados em outros artigos, vividos de modo habitual por várias mulheres jogadoras como “Deverias estar na cozinha”, “És mesmo má, vê-se mesmo que é rapariga”, já para não falar do assédio que muitas vezes pode ocorrer nestes contextos, nomeadamente no contexto de streaming e não só no meio competitivo.

Mas como reagir a esta discriminação? Como atuar? Como podemos criar igualdade de modo equilibrado e quais os perigos de uma atuação que possa ser desatenta ou ainda recheada inconscientemente de premissas anteriores associadas à própria diferenciação e discriminação? Face à definição de discriminação, poderíamos reflectir duas estratégias facilmente observáveis no nosso meio que acabam por surgir com a boa intenção de atingir a igualdade:

– Fazer notar as pessoas discriminadas em detrimento dos visíveis habituais, chamando a atenção destes e demonstrando o seu valor.

– Integrar de modo natural as pessoas discriminadas no contexto em que estas o são, criando igualdade no seio do próprio contexto.

No que respeita ao Evento Girlgamer, penso que existiu e existe uma boa intenção de atingir a igualdade de género através da primeira estratégia, criando um ambiente seguro que realce a capacidade e competência feminina no contexto de esports. Criaram assim um evento só para raparigas, realçando o orgulho feminino por forma a empoderar mulheres a integrarem o contexto sem medo da discriminação. A intenção à primeira vista parece boa e parece partir de uma boa motivação.

Ainda assim coloco em reflexão se este é o modelo que quebra os estereótipos, preconceitos e discriminação existente ou se por outro lado os realça fazendo efervescer a ideia de diferenciação entre o sexo feminino e masculino numa área de modalidades desportivas onde essa diferenciação não faz sentido. Ao realizar eventos onde somente verificamos rapazes e um onde só vemos raparigas, podemos pensar que estamos a fazer perdurar a diferenciação e a não inclusão de atletas de género feminino no meio competitivo mainstream. A sociedade pode então apreender a partir deste evento as seguintes premissas:

  • Que giro as raparigas jogam!” – Embora esta informação seja importantíssima ao nível de quebra de estereótipos da sociedade, ao nível do evento em si não demonstra que as raparigas estão ao mesmo nível que a comunidade masculina, mas sim que teve de existir um evento à parte onde elas pudessem também ter destaque. Inevitavelmente a credibilidade e competência que se desejam continuam assim à mesma por não ter argumentos suficientes para se instaurar. O evento pode então passar para alguns como sendo um clickbait que faz show a partir de raparigas a jogar, não dando a seriedade, credibilidade e participação merecidas a atletas que deveriam estar em competições mainstream. Assim este pode ser visto apenas como um evento onde alguns gestores viram algo que ainda não tinha sido feito no mercado e que era uma boa oportunidade de venda, mais do que trabalhar face a um estereotipo, quando essa é a mensagem oposta àquele que referem ser o seu objetivo.
  • “Raparigas podem ser atletas de esports e ter grandes competências” –  Ao estarmos presentes num evento como este, ninguém será indiferente ao facto de que as raparigas têm imensa competência para jogar. Mas por outro lado, neste formato, não demonstramos que estas atletas podem estar na presença de colegas de equipa ou contra equipas de sexo masculino e ter tanta ou mais capacidade que muitos eles, pois neste caso continuamos a distinguir os sexos/géneros e a criar diferenciação. A verdade é que quando falamos em esports, não distinguimos o gosto, a competência, a competição, a capacidade, a paixão por géneros/sexos. Quem está a jogar são pessoas, atletas, gamers, que independentemente do seu sexo, têm uma capacidade e dedicação incríveis e essa deveria ser a mensagem que qualquer evento de esports deveria passar, promovendo uma verdadeira igualdade.
  • “Este é um Evento ClickBait” – Já que ao promover o nome Girlgamer e sendo apenas para raparigas cria novamente separação e estigma contrariando aquele que refere ser o seu objetivo de empoderamento e inclusão. Face a isto várias pessoas (como vemos alguns exemplos acima) poderão interpretar que é um evento criado apenas por venda de algo que não existia no mercado mas que não faz realmente juz ao que supostamente pretendia.

A meu ver outra situação que inevitavelmente acabou por me criar pessoalmente uma sensação estranha ou desconforto é vermos em Girlgamer ser colocado um parceiro não endémico associado apenas ao público feminino com a frase “(…)Hoje estamos a empoderar mulheres a fazerem algo que as faz sentir bem e a sentirem-se bem” no momento de anuncio da parceria com a Benefit Cosmetics. Para um evento que tem a intenção de retirar as mulheres da caixa dos estereótipos, o anuncio desta parceria e a forma como esta é anunciada parece-me contraditória à mensagem da sua missão. Numa fase em que cada vez mais se critica e luta contra a objetificação da mulher e onde se defende que cada mulher se apresente como se sentir melhor, independentemente se usa ou não maquilhagem, estar num evento de empoderamento feminino no qual se anuncia a Benefit Cosmetics como parceiro referindo que estão a empoderar mulheres a sentirem-se bem pelo uso de cosméticos não é propriamente a mensagem que me faz sentido. A contradição para mim é óbvia e neste tipo de mensagem Girlgamer continua a colocar a mulher na caixa quando em principio o seu objetivo era para ser o oposto.

Numa outra perspetiva claro que podemos ver a parte positiva de vermos novas marcas a terem interesse em investir e cooperar eventos de desporto eletrónico, algo que nem sempre é fácil na organização deste tipo de eventos. No entanto quando realizamos um evento com uma missão de desmistificação, remoção de estereótipos e criação de um clima confortável para as atletas em questão, deve haver um certo cuidado com a mensagem passada.

Face a isto, penso que por mais que a intenção do evento Girlgamer possa ser positiva, esta acaba por pecar na sua concepção, nome e mensagem. Continuamos a instaurar um clima de atitude defensiva face a um problema, em vez de naturalmente o quebrarmos desmistificando e desintegrando crenças destrutivas que impedem as jogadoras de sexo/género feminino  de se sentirem confortáveis e verdadeiramente incluídas no ambiente competitivo de esports. É importante integrar as pessoas de sexo feminino em oposição a trazer mais separação e diferenciação. Mas esta transformação de mentalidades e posturas não deve partir apenas da comunidade e dos jogadores. Esta tem de partir dos sistemas reguladores, dos clubes, dos grandes eventos e competições, de cada um de nós… estimulando e promovendo as suas campanhas, captações e acessos trazendo com maior naturalidade o conforto necessário para população feminina ser integrada neste contexto sem discriminação e com o valor e credibilidade que é merecido.

A criação de algumas estratégias como:

– Maior preocupação na criação de campanhas que mostrem homens e mulheres jogadores tanto nos clubes como nos grandes eventos e ligas, estimulando a entrada e presença de equipas mistas ou de sexo/género diferenciado no(a) mercado/indústria.

– Demonstração de maior abertura à captação de jogadoras de sexo feminino, estimulando e encorajando estas a ultrapassar as barreiras de discriminação ou desconforto existentes, estimulando a actividade competitiva por parte destas.

– Psicoeducação de equipas técnicas e jogadores face à realidade e características da performance, desmistificação de crenças e estereótipos, competências de trabalho de equipa, gestão emocional e regulação efectiva independentemente do sexo, promovendo um ambiente saudável e sem diferenciação no seio de equipas mistas.

– Apoio às jogadoras no sentido de não sentirem receio de lutar por integrar equipas não se deixando desencorajar ou até colocarem isso como uma hipótese (caso não o tenham feito).

Este artigo de opinião não pretendeu ser de todo um ataque ao evento Girlgamer, já que considero que o mesmo foi criado com uma intenção positiva. No entanto, face à realidade existente, penso que vai sendo importante reflectirmos quais poderão ser as mensagens que passamos, e quais são aquelas que poderão ser (ou não) as melhores estratégias face aos nossos objetivos, principalmente quando pretendemos atuar civicamente.