Confirmando alguns rumores e uns pseudo-leaks de empresas de acessórios que inadvertidamente listaram bolsas para um novo modelo da Switch, eis que nos chega a Nintendo Switch Lite.

Nas últimas duas gerações de portáteis a estratégia da Nintendo foi precisamente inversa àquela que estão a implementar agora. Os primeiros modelos da DS e da 3DS são ergonomicamente pensados para as crianças, e o surgimento dos modelos XL, mais destinados aos adultos (à primeira vista) acabaram por ser uma versão upgraded da estratégia. Ou seja, observando os últimos 14 anos é possível perceber que a táctica de ataque do mercado por parte da Nintendo foi apontar originalmente a sua consola para um mercado mais juvenil, e só a posteriori vender edições mais caras (as XL) com o pressuposto comercial de cativar os mais velhos. 

A Switch, como vemos, vai no sentido contrário.

É-me praticamente impossível não dizer que a Switch é neste momento uma consola obrigatória para todos os jogadores. Uma consola que está fora da luta pelo espaço de consola doméstica e com elas coabita na perfeição, com um catálogo vastíssimo para todos os gostos, cujos primeiros tempos de vida abriram logo caminho para exclusivos que são alguns dos jogos mais importantes desta década. A sua versatilidade fez dela uma das peças centrais do nosso entretenimento familiar lá de casa (e de muitos milhões pelo mundo fora), e cedo percebemos que apenas uma consola não chegava lá em nossa casa.

No entanto, o anúncio da Nintendo Switch Lite deixa-me com muitas, muitas dúvidas. Sem ter tido a oportunidade de experimentar o novo modelo, tenho de admitir que à primeira vista tenho algumas reticências na relevância deste novo modelo. Algo que só veio cimentar-se quando percebi ontem, durante a gravação do podcast Split-Chicken qual o preço de venda da consola no nossos País*.

Sempre olhei para as versões Lite de consolas, especialmente das portáteis da Nintendo, como uma forma acessível de expandir o seu mercado, pensando no poder de compra de muitos pais que gostariam de oferecer uma consola aos filhos mas cujo capital disponível não lhos permitissem. A versão mais compacta, despida de algumas características da original (como foi o caso da perda do 3D e da capacidade de se fechar em concha na N2DS) resultava quase sempre numa poupança para a carteira dos compradores. A Nintendo não perdia consumidores, ganhava-os. Quem já tinha o modelo original ou XL da consola não era o público-alvo da nova versão mais “leve”, mas para isso resultar, senti sempre que todas essas perdas em tamanho de ecrã e características teria de ser significativa do ponto de vista financeiro. Vendo o caso da Switch e da sua irmã mais pequena, este não é de todo o caso.

Seguindo o exemplo da Worten, o maior retalhista em Portugal, podíamos, até ontem, comprar uma Nintendo Switch por 269,99€ com a oferta de um jogo, sendo que o preço original são 299,99€. A Nintendo Switch Lite, em pré-venda no site da Worten, está a 219,99€, passando a barreira psicológica do consumidor dos cento e qualquer coisa euros. Apanhando uma das muitas promoções da Switch que são recorrentes nos retalhistas nacionais ou até mesmo no Amazon aqui na vizinha Espanha, a diferença que conseguimos encontrar em média é de 40 euros. Para uma consola que é mais pequena que a original, que não tem a capacidade de switchar do modo portátil para tabletop ou para a TV, e que tem os Joy-Cons “incorporados”, significando que se esta for a única Switch que um agregado possua, para jogar jogos brilhantes que não permitem o modo portátil (como Super Mario Party) ainda vão ter de comprar um conjunto de Joy-Cons por no mínimo 79,99€. O somatório, lá está, iguala uma Nintendo Switch original, maior, com capacidade e versatilidade para ser portátil ou doméstica, com Joy-Cons destacáveis. Se num sentido meramente económico aconselho a compra desta nova Lite? Não, de todo. Acho-a de forma pragmática uma péssima escolha, e sinto até que o consumidor informado deveria apostar na original.

O Rui argumentava comigo no nosso último episódio que muita gente como ele apenas joga a consola em modo portátil, e por isso a Lite é suficiente. Eu acho que o argumento dele é válido olhando para o exemplo que temos em casa: as nossas duas Switch passam a quase totalidade do tempo em modo portátil. Mas será que (novamente lembrando as múltiplas promoções da Switch a 269,99€, algumas com oferta de um jogo), a aposta na Lite compensa? Quando pensamos que a original faz tudo o que ela faz e muito mais, e a diferença de preço é, à falta de melhor descrição, marginal? Não conhecendo os custos de produção da consola, e dando-me à liberdade de cogitar sobre o preço que acredito ser mais enquadrado ao perfil da consola, será que colocá-la na barreira dos 199€ não seria de uma comunicação mais simples, com uma diferença de 100 euros para a versão original sem promoção? 

Acredito que haja público para a Switch Lite e tenho de conceder que a escolha de cores é de um bom gosto tremendo, com a edição especial dedicado ao novo Pokémon a ser uma das versões de consola mais bonitas que vi a Nintendo produzir nos últimos anos. Mas acredito também – e estarei aqui para que o mercado me prove o contrário – que o lugar e as oportunidades comerciais nativas da consola centrar-se-ão quando esta, em promoção ou em queda de preço definitiva – deslizar abaixo da barreira dos 200€, preferencialmente com uma margem substancial entre ela e a sua original, sendo que uma redução de ⅓ do preço serve não só para a tornar verdadeiramente acessível, como valoriza por si só a consola “principal”. Esta distância económica tão curta entre ambas serve apenas para deslocar a Lite do público que estaria mais confortável para a adquirir, como também para nos fazer pensar no real valor do conjunto surpreendente de switchar da Switch original, da sua doca, do seu tamanho de ecrã e dos seus Joycons destacáveis. 

Já agora, visto que este novo modelo faz tudo menos o Switch, e seguindo a ideia da 2DS (que muita gente achava que era brincadeira de 1 de Abril) será que ao invés de ser Switch Lite, não poderia ter um título que se ajustasse melhor? E assim se batizaria a Nintendo Unswitch.

* comecei a escrever este artigo na sexta-feira. Ver o preço ser finalmente revelado confirmou o meu ponto de vista original.