Desde que comecei a ler aos 4 anos que a Banda-Desenhada que recheava algumas prateleiras da casa onde cresci passou a ser uma companhia sempre presente. A Marvel foi desde então uma constante, e uma companhia que permaneceu comigo desde sempre, que definiu a minha vida de tal forma que até há pouco tempo era o meu objecto de potencial estudo para um Doutoramento. Gostar de Marvel e conhecê-la a fundo era um tesouro pessoal, com tão pouca gente para partilhar que me fazia senti-la como um best kept secret. Longe estaria eu de pensar que o MCU acabasse por ter o impacto global que tem nos dias de hoje, afastando a Marvel do nicho dos geeks da banda-desenhada e entregando-a de mão-beijada aos quatro cantos do planeta.

Há uma estranha sensação de traição em tudo isto. A Marvel, e o seu universo, eram de uma certa forma uma “pertença” minha, que a acompanhei até nos seus dias mais negros, quando as suas maiores forças criativas debandaram e criaram a sua própria editora. A mesquinhez desta sensação confrange-me, quase tanto quanto os auto-proclamados especialistas de Marvel que a conhecem pelos filmes, tentando desta forma agarrar com mãos pequenas um de um mundo ficcional com décadas de idade. 

Por outro lado, tenho pouquíssimo interesse em praticamente tudo o que foi publicado pela Marvel desde a viragem do milénio, por sentir que a editora se tornou uma casa sem grande capacidade para criar história emblemáticas como fez desde a sua génese. Mesmo os arcos narrativos mais reconhecíveis deste período, a Civil War, House of M e Fear Itself são pálidas comparações com o impacto literário de uma Dark Phoenix Saga, Mutant Massacre, Acts of Vengeance, Infinity Gauntlet, Secret Wars ou The Fall of Mutants. A banda-desenhada da Marvel do pós MCU é ainda mais gritante para um fã de longa data, ao ver as decisões criativas da 9a Arte serem meras súbditas do toque de caixa dos filmes, numa tentativa de estender o fan service para esta nova audiência que de repente sente que a Marvel é “fixe”.

Seria de estranhar que este barco multi-milionário não fosse explorado nos videojogos. Com a desilusão das primeiras imagens do jogo The Avengers da Square Enix a virem ao lume na E3 2019, cabia nos ombros de Marvel Ultimate Alliance 3, a nova sequela de uma série publicada pela Activision desde a década passada, de explorar este filão, depois do ano passado a Sony PlayStation ter publicado um dos melhores jogos de ano.

Na dança das cadeiras dos negócios este MUA3 acabam por passar das mãos da Activision para a Nintendo, que encarregou a Team Ninja de desenvolver este exclusivo da Switch. Com a experiência do estúdio nipónico outra coisa não seria de esperar que não um jogo repleto de acção, que nos pedisse furiosamente para esmagar botões em combos cada vez mais poderosos. Com animações interessantes e dedicadas a cada personagem, logo ao primeiro impacto a sua direcção artística correlacionada com alguns artistas contemporâneos da Marvel torna-se evidente, com um toque quase-WoW de representar personagens, com mãos e pés desproporcionais. 

O modo de história é interessante e faz a ligação ao arco narrativo que fechou os filmes da Marvel, com a luta contra Thanos e a sua Black Order (nota para quem nunca leu a BD: a qualidade do que Jim Starlin escreveu (e também desenhou) na Thanos Quest e na saga The Infinity Gauntlet é tão boa que é uma das histórias obrigatórias dos comics norte-americanos) a tomarem uma posição dianteira. Como jogo de crossover que é, cada capítulo vai-nos permitindo desbloquear novos personagens e fazer-nos visitar diferentes ambientes, começando nos Guardians of the Galaxy (os novos, não aqueles que os fãs de BD se habituaram a ler) passando por X-Men (que finalmente regressam aos jogos) até à dimensão mística de Dormmamu. Depois de o ter passado de uma ponta à outra senti que apesar de MUA3 estar feito para o público geral que é fã do MCU, há alguns piscares de olhos subtis aos fãs da BD como quem indica que estes não foram esquecidos.

A diferença de detalhe e qualidade visual entre os personagens e os fundos é extrema. Os primeiros, altamente distintos e com muita atenção, colidem com os segundos, que são vazios, desinspirados e com pouco “ambiente”. Os níveis (e os pequenos puzzles) são repetitivos e pouco imaginativos, e rapidamente tive de pensar no que a Platinum Games conseguiu fazer também com ambientes isométricos com Wonderful 101, de forma criativa, e que está a anos-luz da mediania deste MUA3. A isto não ajuda a confusão visual extrema que encontramos quando a nossa equipa de 4 personagens estão rodeado de muitos inimigos, fazendo-nos inclusivamente perder a noção de onde está o herói que estamos a controlar (sendo que podemos mudar para qualquer um que esteja vivo). O caos visual de partículas, animações e gente a lutar é ainda mais óbvio com a Switch em modo portátil, onde a resolução e o tamanho do ecrã nos obrigam a um Where’s Waldo? em modo videojogo, e em tempo real. E já nem é preciso falar da total falta de percepção do que está a acontecer quando todos os personagens activam os seus Ultimate Attacks em conjunto.

Mas o grande calcanhar de Aquiles de Marvel Ultimate Alliance 3 é mesmo a câmara atroz, que apesar de ter sido corrigida com um patch de dia 1 ainda continua a ter alguma timidez e colocar-se para além do clipping dos cenários, fazendo-nos passar secções inteiras a lutar com recurso às silhuetas dos nossos heróis. Tantas outras vezes a câmara decide deslocar-se para outros cantos do ecrã (e isto mesmo em modo single player), em pontos estranhos e que não são centrais para a acção. 

Apesar de haver alguma estratégia envolvida, do combate ser desafiante, e de exigir algum mindless brawling, há algumas ideias interessantes na forma como construímos a nossa party para o combate. Os 4 personagens podem criar sinergias entre si e ganhando bónus, como por exemplo se adicionármos diversos membros dos Avengers, ou se tivermos uma party cheia de aracnídeos. 

Do ponto de vista de game design há tantas, mas tantas práticas herdadas dos jogos mobile free-to-play que é difícil não sentir que existiu uma grande probabilidade do modelo de negócio deste Marvel Ultimate Alliance 3 ter sido outro. Com mais de 30 personagens para desbloquear, a ideia de que os heróis que ficam de reserva não ganham XP é apenas um prego no colossal caixão de grinding que é este Marvel Ultimate Alliance 3. Seja o grind para subir de nível, ou para alimentar a mão-cheia de currencies diferentes para subir e fazer upgrades à nossa equipa e aos nossos heróis, mais os desafios que apesar de exigirem destreza contam, sobretudo, com a obrigatoriedade de fazermos grind para os nossos heróis terem nível suficiente para derrotar os bosses.

A inclusão dos diversos modos multiplayer acaba por ser a grande força de Marvel Ultimate Alliance 3. Seja em modo local (permitindo que 4 jogadores partilhem a mesma consola), ou cada um com a sua ou mesmo através da internet, esta é para mim a melhor forma de usufruir de um jogo que serve um intuito muito claro: dotar-nos de diversão simples em tranches curtas de tempo, mas que obriga a muito, muito grind para progredir.

É curioso que dada a atrocidade da câmara e a confusão geral instalada, e tomando atenção aos excelentes modelos e animações dos personagens que se perdem na escala do jogo, comecei a pensar como seria este jogo se fosse um side scrolling beat’em up com esta direcção de arte? As poucas secções do jogo de um quase-side scrolling respondem a isto, e fazem-me parecer que nesta troca de cadeiras e soft reboot à série poderia ter vindo também a coragem para apostar em algo diferente.

Marvel Ultimate Alliance 3 cumpre com aquilo que se compromete, mas adiciona à refrega uma série de ideias que para mim, estendem artificialmente o jogo. Para sessões curtas de jogo, ou para aqueles momentos de descontração em que só queremos esmurrar e derrotar inimigos sem ter de pensar muito, é o jogo perfeito, isto é, se o jogarem em modo docked