O universo de produção indie conta com tantos lançamentos mensais, que é praticamente impossível acompanhar todos os jogos disponíveis. E por isso, quando o marketing não atua e catapulta as grandes pérolas para a ribalta e conhecimento geral, algumas jóias ficam à deriva, a navegar sozinhas no oceano da indústria dos videojogos.

É o caso de Far: Lone Sails que quando foi lançado no PC, Ps4 e Xbox One em maio do ano passado, poderá ter passado despercebido por muitos, e no meu caso, mas o lançamento na Switch recupera-o, como se fosse um farol. E ainda bem que o fez. Este título da Okomotive é obrigatório, mesmo que dure um máximo de três horas a completar.

Apesar do título, e das conotações a jangadas perdidas no mar, Lone Sails não se foca em nenhuma embarcação, mas sim de um veículo meio improvisado, que é a única coisa que os jogadores se têm de preocupar durante a jornada. Lone Sails é um jogo introspetivo, sem qualquer narrativa ou introdução que explique o seu contexto. As interpretações ficam totalmente à compreensão do jogador. E é um jogo altamente intuitivo, descartando tutoriais ou explicações. É-vos entregue um veículo, agora cuidem dele.

Sabe-se que o jogo tem um cenário desolador, um ambiente pós-apocalíptico, e a aventura arranca com uma pequena personagem numa sepultura, como que a despedir-se de alguém, antes de entrar num gigantesco veículo. Tudo se passa numa perspetiva de scroll lateral em 2D. Rapidamente percebemos que o objetivo é fazer o veículo circular, e caminhar rumo ao além, sem qualquer objetivo descrito, encontro com personagens ou diálogos. Jogaram Journey? É semelhante, mas invés de uma montanha, a personagem tem de continuar e chegar algures. Onde? É essa curiosidade que irá mover o jogador para descobrir…

O jogo não tem inimigos, mas tem diversos puzzles para resolver. E todos eles rondam o mesmo: manter o veículo funcional e capaz de ultrapassar todos os obstáculos. As regras são simples, há uma grande dependência do veículo, mas os jogadores não controlam diretamente a máquina. O bonequinho tem de acionar mecanismos para o manter a funcionar.

A principal fonte de energia é o seu motor, alimentado por uma caldeira de vapor, para tal, há que alimentar a mesma com tudo o que possa ser recolhido pelos cenários, desde cadeiras a caixotes, entre outros artefactos que terão de sacrificar para que possam ser convertidos em energia. A segunda fonte de energia é o próprio vento, e nesse caso levantar as velas para aproveitar a sua boleia. A bandeirinha no topo do veículo será um indicador essencial para perceberem a força da brisa.

O que é giro é que todo o veículo é um puzzle, sendo necessário saltitar de um lado para o outro para acelerar, libertar o vapor, manter a caldeira alimentada, e claro, arrumar o espaço para os objetos dentro da máquina. A física do cenário é um desafio associado, pois é preciso aumentar a velocidade nas subidas, mas também conseguir parar o veículo a tempo, antes de uma colisão.

E há que manter um olho nos diversos componentes, pois estes começam a arder e é necessário rapidamente apagar o fogo. E mais tarde, com um upgrade da máquina de solda, reparar os componentes que entrem em curto-circuito. O veículo tem ainda um gancho dianteiro ou frontal, para quando é necessário rebocar ou ser rebocado, e nada impede da própria personagem puxar pela gigantesca máquina.

Ao longo da viagem vamos observando o cenário desolador, passando por navios naufragados, contentores, pois estamos a circular por um oceano sim, mas onde já não existe água. Entende-se que a civilização era avançada, dada a tecnologia, mas algo exterminou praticamente a vida, ou pelo menos houve uma evacuação de emergência. São coisas que vamos testemunhando na viagem.

Até porque chegamos a diversos checkpoints onde temos de arranjar forma de abrir passagem ao nosso precioso veículo, e é dessa forma que surgem alguns puzzles arrojados, ainda que não muito desafiantes. É preciso manipular mecanismos ou dar vida a instalações para ativar elevadores e portões blindados, e se for preciso, colocar o veículo em cima de uma jangada para percorrer locais com água.

A sensação de escala é o aspeto mais interessante desta obra. O tamanho da personagem em relação ao veículo, e em muitas situações, o tamanho do veículo comparativamente às instalações que vamos passando.

Há todo um tom negro e solitário dos cenários, oferecendo um ambiente de nostalgia. Muitas vezes pautado por músicas melancólicas, capazes de enfatizar as ações, outras, as músicas param, dando lugar os sons das máquinas e chapas a bater. O estúdio soube trabalhar muito bem a componente audiovisual, que funciona quase como uma personagem omnipresente, abraçando o pequeno sobrevivente e a sua imponente máquina, salientando o dia-a-dia solitário do protagonista. Depois há também contrastes interessantes entre os cenários monocromáticos, cinzentos e sépias que cria sensações tristes, com os avermelhados da roupa da personagem e dos componentes do veículo.

Far: Lone Sails oferece uma bela mensagem sobre o companheirismo, e não entre duas personagens, mas entre um misterioso protagonista e a sua máquina a vapor. Vale a pena conhecerem este título indie, certamente irá alegrar-vos o dia…