Quando Art Spiegelman publicou as várias pranchas de Maus na revista Raw do que viria a ser em 1991 o primeiro álbum de banda-desenhada premiado com um Pulitzer, a sua forma de metaforizar o sofrimento dos judeus e a atitude da Alemanha nazi e dos restantes países europeus foi através da antropomorfização dos personagens. As subtilezas e as nuances visuais e narrativas que Spiegelman desenvolveu para falar do Holocausto e da história pesada do seu pai e dos restantes judeus polacos tornam-no indubitavelmente como uma das obras de leitura obrigatórias do século passado. 

Lembram-se de S.W.I.N.E.? Provavelmente não, e não têm de se sentir mal com isso. Em 2001 o estúdio Kite Games, ainda a sorver de uma época dourada de jogos de estratégia, acabaria por lançar um jogo que me conquistou o olhar por ser tão diferente, mas que só hoje, 18 anos depois, tive a oportunidade de jogar.

Em S.W.I.N.E. temos duas facções beligerantes vindas da quinta. De um lado os titulares suínos, do outro os coelhos. E porquê? Porque sim. Decerto que as razões não se aproximam sequer das utilizadas por Spielgeman, ainda que acredito que fosse possível criar uma densidade narrativa, já em 2001, para além da superficialidade da piada de ter porcos e coelhos num ambiente militarístico típico dos humanos dos dias de hoje. 

A história aqui pouco ou nada interessa, ainda que seja curiosa a possibilidade de termos dois modo de campanha distintos, em que controlamos cada uma das facções e percebemos as suas motivações. 

S.W.I.N.E., surgiu numa época em que dois pesos pesados dos RTS com base building estavam no seu auge: Command & Conquer e Warcraft. Curiosamente a sua aposta foi num sentido diferente, focando toda a acção e a componente estratégico no posicionamento e movimentação de unidades em tempo real pelo mapa. Este é um desvio mecânico interessante que faz toda a diferença, ou aliás, que fez toda a diferença quando S.W.I.N.E surgiu originalmente.

Outro desvio de game design inesperado é o facto deste RTS não possuir infantaria de nenhum tipo. Todas as unidades que temos disponíveis são veículos, desde buggies de reconhecimento a tanques, e é dentro desta diferença mecânica – literalmente – que reside a complexificação estratégica do jogo.

Visto que controlamos apenas veículos, com as necessidades mecânicas subjacentes, temos de os abastecer de combustível e munições. Em situações em que os nossos veículos fiquem atolados ou imobilizados mas não destruídos podemos recorrer a reboques para os trazer para zonas do terreno mais amigáveis, e utilizar kits de reparação para os voltar a pôr sobre rodas.

Com um sistema multiplayer embutido logo de início, que infelizmente denota o quão datado é o jogo, e uma actualização visual que lhe permite disfarçar as rugas da idade, S.W.I.N.E. HD Remaster, pelos parcos 9,99€ de custo, parece-me uma óptima oportunidade para os fãs de RTS jogarem este clássico que muita gente viu publicidades a promover, mas que não acredito que tantas assim tenham chegado a jogá-lo. Todos os fãs de RTS têm aqui a oportunidade perfeita para o fazer.