Dificilmente escreveria um artigo deste género sem usar o Monopólio como exemplo, esse clássico que é a bolacha Maria dos jogos de tabuleiro : há um em quase todas as casas.

O que distingue os jogos de tabuleiro modernos dos jogos de tabuleiro clássicos como o Monopólio?

Não vou dizer que são melhores ou mais divertidos, pois tal como em quase tudo na vida, os gostos não se discutem.

O que vou dizer é que há um esforço maior por agradar ou entreter cada vez mais os jogadores que estão à volta da mesa.

Querem um exemplo?

Quem não se lembra daquela partida de Monopólio em que o irmão mais novo perdeu no início e teve que ver o resto da família a jogar durante mais duas horas?

Ou daquela vez em que já havia um claro vencedor a meio da partida, mas tivemos que suportar mais uma hora de lança-o-dado-e-paga-se-faz-favor só para o jogo terminar?

Em termos gerais, os jogos de tabuleiro mais recentes não fazem uso desta mecânica conhecida como “player elimination”, onde um jogador pode perder antes do fim do jogo e tem que ficar a ver o resto a jogar.

Outra coisa que também é muito tida em conta no desenvolvimento é o tempo de jogo variável, nunca sabemos se a nossa partida de Monopólio vai demorar uma hora ou dois dias, ficando extremamente difícil planear uma tarde de jogo com uma variância temporal tão grande, algo que com os jogos mais recentes dificilmente acontece, pois o jogo tende a ter um fim anunciado (número finito de rondas, pontos a atingir, recursos limitados).

Para não falar que não existe qualquer diferença no jogo que é jogado nos primeiros 15 minutos do jogo que é jogado na terceira e quarta hora, tornando-o em 4 horas de repetição excessiva.

Além disso, outra das grandes críticas ao Monopólio é o efeito bola de neve do líder, quanto mais à frente no jogo alguém se encontra, mais o jogo o ajuda (se compro uma propriedade cara, os adversários pagam-me mais sempre que calham lá e com esse dinheiro compro ainda mais propriedades).

O inverso acontece nos jogos de tabuleiro modernos, fazendo com que o líder tenha mais dificuldades em progredir, ou incentivando os outros jogadores a juntarem-se para o prejudicar, o que faz com que qualquer pessoa tenha sempre uma mais pequena chance de vitória em qualquer fase do jogo, impedindo que surja o clássico “jogador que está no Facebook porque já não pode ganhar”.
Para finalizar aqui o artigo (porque podia continuar com mais algumas páginas), outra realidade importante, e uma que para mim é imprescindível num jogo, é o poder da escolha. Gosto de sentir que quando ganho ou perco, foi devido às minhas decisões, gosto de estar num jogo e a pensar o que posso fazer, que decisões vou poder tomar para me levar à vitória, em vez de simplesmente ver os outros a jogar enquanto a minha vez de atirar os dados chega.

Voltando ao Monopólio, que decisões temos? Vamos ser sinceros, 95% das vezes que aterramos numa casa por comprar e temos dinheiro, vamos comprá-la. O que resta então?

  • Atirar os dados e andar o número de casas que estão lá: nenhuma decisão.
  • Cobrar / pagar quando aterramos nas casas já compradas? : nenhuma decisão.
  • Sair da cadeia através dos dados ou pagando: decisão ligeira de confiar na sorte.
  • Ganhar dinheiro ao passar na casa de partida? Usar cartas da sorte? :tudo automático.

Que diferença então faço eu neste jogo? Podia estar qualquer pessoa no meu lugar que o resultado teria sido provavelmente o mesmo, tornando as derrotas frustrantes e as vitórias sem sabor.
Como exemplo ainda mais extremo, o conhecido Jogo da Glória ou o também famoso Escadas e Cobras, tudo jogos em que a única coisa que o jogador faz é atirar os dados e andar o número de casas que lá estão marcadas, sem nenhuma decisão pelo meio, quase que criam a discussão do que consideramos verdadeiramente um jogo.
Não olhem para este artigo como um deita-abaixo ao Monopólio, vejo-o como um jogo fundamental, e um pilar fulcral que facilita imenso o trabalho de convencer qualquer pessoa a tentar jogos de tabuleiro modernos, mas depois de inventarmos o carro, não viram muita gente a voltar a andar a cavalo pois não?
Nota do editor: Podem ler mais sobre jogos de tabuleiro e sobre o projecto social Includoteca aqui.