Não sei de onde vem o nosso fascínio de vestir uma armadura mecânica gigante, armada até às rodas dentadas e disparar contra outros humanos vestidos em armaduras gigantes ou robots gigantes? É daqueles fenómenos que não tenho resposta como porque é que me lembro exactamente de com quem estava quando vi o The Matrix 1.3 vezes no cinema 20 anos depois, mas não me lembro dos últimos 3 filmes que vi no cinema. A verdade é que há um grande mercado de mechs, por isso, olhamos hoje para Damascus Gear Operation Tokyo que foi portado para a Nintendo Switch e continua os passos que acredito estão a ser dados para um revivalismo dos jogos de mechs. Um revivalismo que aplaudo e espero com ansiedade.

Damascus Gear Operation Tokyo é um jogo despretensioso em que controlamos alguém que herda um mech e a sua oficina mas também herda uma dívida valente a uma corporação, banco, mafiosos ou qualquer coisa. Se pensar bem, corporação, banco e mafiosos são quase a mesma coisa mas isso são outras conversas. Esta premissa de jogar para pagar uma dívida é original, um pequeno twist que ajuda a tornar o jogo mais interessante. Começamos com um mech simples e uma dívida que temos que pagar, para isso temos perto de 25 dias num contador decrescente em que vamos tendo missões de dungeon crawling e/ou combates de arena para fazer dinheiro e pagar as dívidas. O que acontece se não pagarmos? Não faço ideia mas calculo que enviem uns mechs italianos para nos dar uma lição ou fazer de nós um exemplo aos outros devedores.

Parte do jogo está na nossa gestão de missões. Por dia, só podemos escolher uma. Lutamos na arena ou exploramos as “masmorras”. Nas masmorras de Damascus Gear Operation Tokyo, especialmente quanto mais fundo vamos, temos mais hipóteses de encontrar recursos para melhorar o nosso mech, seja directamente com peças encontradas ou vendendo-as e depois comprando melhores. A customização do mech está limitado a peças, armas e cores delas. Contudo não é preciso mais, é o suficiente. É impossível ganhar dinheiro suficiente nas missões para sair do sobreendividamento, para isso é preciso ganhar um torneio especial. Para nos apurarmos para este torneio precisamos de dinheiro e ranking, para ter ranking é preciso ganhar combates e melhorar o nosso mech, o equilíbrio destas opções é tão interessante como difícil de manter.

Há vários jogos de mechs que são icónicos, não diria que são tanto como outros nomes comuns na cultura dos videojogos, mas dentro do nicho jogos como Mechwarrior ou Armored Core são respeitados como alguns dos melhores. Damascus Gear Operation Tokyo não é um Mechwarrior ou Armored Core, mas também não pretende ser e não há problema nenhum nisso. DGOT não quer ser o aço mítico** onde se inspirou para o seu nome, quer ser apenas aço, simples e funcional, é um jogo que pretende na melhor das hipóteses ser mediano, mas consegue ser acima disso. É uma boa opção para fãs de dungeon-crawlers e de mechs. Não é do melhor, mas é melhor que a maior parte do que está no mercado. Recomendado!

* Não sei se já contei essa história aqui, eu vi The Matrix 1.3x no cinema porque na primeira foi quando aconteceu o grande blackout energético em Lisboa por causa da cegonha que foi contra o poste de alta tensão. Estava na parte em que Neo diz “I know Kung Fu!” e foi tudo abaixo. Depois pudemos ir ver o filme na totalidade noutra sessão mas essa sessão foi única…

**Aço de damasco, era o aço forjado na cidade de Damasco e era tão resistente que era dito que tinha propriedades mágicas por aqueles que lutavam contra ele. A fórmula foi perdida, hoje há aço com padrões, chamado damasco moderno mas não é o mesmo apesar de ser bastante resistente.